The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos

Em um estalar de dedos,  toda a sala se clareou com uma luz branca e fria. O lugar era uma espécie de pub, um inferninho, com um balcão e algumas mesas e cadeiras espalhadas pelo salão. A decoração em tudo lembrava a bebidas e cigarros. 

 Os olhos do Bruxo se arregalaram ainda mais céticos diante do vulto. Era Julienne Jouvin que estava ali parada, sozinha, diante dele. 

 — Hanon me pediu que fizesse isso... há algum tempo... 

 — Maldição! Acha que sou algum imbecil?! 

 Lavoisier avançou perigosamente para cima de Julienne, que estava  acuada. Sua mão esquerda fechou-se na garganta da moça, empurrando-a contra o balcão, enquanto prensava seu Bastão contra a têmpora dela. 

 O impacto do corpo de Julienne contra o balcão foi tão forte que algumas garrafas se desequilibraram, sendo que uma caiu e rolou até o chão, causando um barulho estridente que reverberou pelo salão. 

 Desesperada, Julienne apenas empregava sua força tentando, com suas mãos, soltar a mão de Lavoisier que se prendia em sua garganta, a asfixiando. Seus olhos se lacrimejaram pela dor e a falta de ar e, numa última tentativa desesperada, tentou desanuviar a mente de seu Mestre, encarando firme dentro dos olhos negros e opacos pela ira. 

 A dor aguda em sua cabeça confirmou o que ela previa: que Lavoisier usaria a invasão psíquica para descobrir se ela era mesmo Julienne ou algum impostor. Ela havia sido ingênua crendo que Lavoisier não usaria de violência contra ela! Era preciso organizar rápido seus pensamentos e provar que era mesmo Julienne Jouvin, pois a força que Lavoisier empregava em sua garganta se tornava maior e acabaria por matá-la! 

 Os olhos de Lavoisier se arregalaram e sua expressão relaxou de ira para perplexidade, quando um enxame de imagens invadiu sua mente. Jamais havia penetrado em uma mente tão afiada e loquaz como aquela e, antes mesmo que percebesse que a pessoa que tentava estrangular era mesmo Julienne, as lembranças se estacionaram numa única cena que fez o homem prender a respiração.

Continua... 

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O seu verdadeiro ideal, a essência de tudo, pura, imaculada, ali estava representada naquele garoto sorridente e cheio de esperanças. 

  Lavoisier se sobressaltou mais uma vez quando o garoto lhe falou jovialmente numa voz grave que lhe era tão conhecida. 

  — O caminho foi errado, mas a estrada não era única e infinita... conseguimos encontrar um desvio e conseguimos sair daquela estrada errada. Muitas coisas... coisas demais aconteceram durante todo este tempo até aqui, agora, mas  sei que você sabe que Hanon preservou em você o  nosso ideal, assim como fora concebido no início. Dominique Hanon sempre considerou todas as possibilidades, até mesmo sua própria morte, seu suicídio necessário. E também quero lembrá-lo que você o amava e por amor prometeu-lhe tirar a vida quando chegasse a hora! Porém, você não poderia sê-lo leal apenas durante a vida e você sabe disso! Agora, Laurent, mais do que nunca, você precisa continuar leal a Dominique Hanon e levar até o fim tudo que foi planejado por todos esses anos! 

  — Eu... eu – Lavoisier balbuciou, baixando sua vista para o chão, inconsolável. — ... creio, fui longe demais! Quando prometi que faria tudo que me pedisse, não imaginei que teria de matá-lo ao seu próprio pedido! Eu não queria, não podia, mas fiz! Como pode uma lealdade chegar a um ponto tão crítico, tão irrevogável?! Eu errei por ser fraco! Talvez por ser mesmo um covarde! 

  O garoto aproximou-se de Lavoisier, com uma expressão  de compreensão no rosto, num sorriso singelo. 

  — Não, não errou... como também não errou ao seguir as Trevas. O caminho é que foi errado, não nós, não você, Laurent! Não errou porque você nunca, em nenhum momento, se desviou de seus verdadeiros ideais! 

  —  É fácil para você dizer isso...  – Lavoisier sorriu com amargura, encarando seu jovem Eu à sua frente.  — Você é a materialização de tudo que eu acreditava, da esperança que eu possuía... não é o assassino da pessoa mais fabulosa que existiu em nosso tempo! Ao matar Hanon, morreu também o pouco da razão que eu ainda dava aos meus ideais e na necessidade da guerra... agora é tudo vão, sem sentindo!

  O jovem levou a mão ao ombro esquerdo de Lavoisier, ainda sorrindo. 

  — Não, não é. Se a razão do nosso ideal tivesse morrido, eu não estaria aqui, meu querido! 

  Com uma piscada de olhos e um estalar de dedos do jovem Lavoisier, a porta à frente de ambos se abriu e o garoto desvaneceu-se até sumir por completo. A passagem escancarou-se, dando visão a uma nova placa luminosa, porém agora com uma nova frase que fez o Bruxo gelar da cabeça aos pés.
 
TEATRO MÁGICO
HOJE A PARTIR DAS VINTE E QUATRO
SÓ PARA LOUCOS
ENTRADA AO PREÇO DA RAZÃO
PARA OS RAROS SOMENTE. *
JULIENNE ESTÁ NO INFERNO!
(* Hermann Hesse em O Lobo da Estepe) 

  — Julienne? Julienne Jouvin?! 

  Lavoisier piscou algumas vezes, não crendo em seus próprios olhos; não devia estar enxergando direito! Por que Julienne era citada naquele luminoso?! O que tudo isso tem a ver com a jovem?! Por que está dizendo que ela está no Inferno?! Mas, qual inferno?! 

  — Isso é uma armadilha! Eu não podia ter deixado transparecer minha apatia! Maldição! Isso é uma armadilha de algum Soldado das Trevas! Talvez até mesmo do próprio Mestre Negro!  – Lavoisier sibilava por entre os dentes, desesperado pelo imprevisto, com o sentimento doloroso de uma iminente tragédia! 

  Tentou, a todo custo, manter oculto o seu abatimento pela morte de Hanon. Mesmo quando estava completamente sozinho, isolado, não se permitia fraquejar. Engolira todas as lágrimas. E no desamparo dessa maldita solidão, foi que seu coração o traiu mais uma vez. Sentia-se doente pela falta que Julienne lhe fazia! Não sabia como, por qual fenda de suas muralhas espessas, esse sentimento em relação à jovem bruxa havia penetrado  em sua alma... e não sabia quando. Mas foi somente quando esteve completamente desamparado que descobriu o quanto ela lhe era valiosa! E agora um estúpido letreiro luminoso dizia que ela estava no Inferno!? 

  Não era hora para auto-analise, para tentar descobrir como seus sentimentos foram expostos ao Mestre Negro, apesar de sua muralha psíquica que guardava o refúgio de sua mente e seu coração. Seja lá o que tenha acontecido, a merda estava feita! Ele fora desmascarado e Julienne pagava por isso! Agora estava claro que ele caíra, de forma muito idiota, numa armadilha! 

  Possesso, com o Bastão Mágico em punho fechado com ódio, Lavoisier avançou em passos largos pelo corredor indicado pelo letreiro, a fim de acabar com tudo aquilo o mais rápido possível. Sua vida já não valia absolutamente mais nada e venderia sua alma ao Diabo, se necessário, para tirar Julienne daquele Inferno! 

  Já havia perdido, deixado perder demais naquela vida! Perdeu a família. Perdeu amigos. Perdeu Hanon. Perdeu a todos para as Trevas sem que conseguisse impedir. Não perderia Julienne, nunca! 

  O final do corredor surgiu e o homem entrou na sala mecanicamente, levando o Bastão à altura dos olhos, apontando para o vulto que estava parado diante do que parecia ser um balcão de bar. A sala estava muito mal iluminada por uma luz avermelhada. 

  — Acabou a brincadeira! Quero a mulher e quero agora! 

  O vulto se remexeu desconfortável, incerto por sua segurança, mas não saiu de onde estava, apenas continuou observando em silêncio ao Bruxo em posição de ataque. A luz fraca e incômoda não permitia ver nada com nitidez, mas ainda era possível sentir, e o que se sentia era um espírito violento e armado que partia de Lavoisier que, impaciente, gritou pela segunda vez:

  — COVARDE MISERÁVEL! QUE MALDITA ARMADILHA É ESSA?! CANALHA! COMO OUSA SE ESCONDER ATRÁS DE UMA MULHER QUE NADA TEM A VER COM ESSA MALDITA HISTÓRIA!? 

  — Nada?  – A voz fina soou fracamente, fazendo um alto contraste com a fúria de Lavoisier. 

  — O quê?! – Lavoisier perguntou incrédulo. A surpresa fez com que baixasse por instantes a sua guarda. 

  — Perdoe-me o exagero, Mestre... mas isso tudo já havia me sido orientado... 

  O vulto se afastou do balcão. Lavoisier havia baixado totalmente a guarda, baixando seu braço e o Bastão de Vidoeiro rentes ao corpo. 

Respirando com exaustão, o homem continuou a olhar perplexo, observando atentamente o vulto que tomava as forma de uma silhueta conhecida. Sua vista, aos poucos, começava a se acostumar à horrível iluminação avermelhada.

Continua... 

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TEATRO MÁGICO
HOJE A PARTIR DAS VINTE E QUATRO
SÓ PARA LOUCOS
ENTRADA AO PREÇO DA RAZÃO
PARA OS RAROS SO-
MENTE.*
(*Hermann Hesse, in O Lobo da Estepe) 

Lavoisier inspirou fundo e, em passos decididos, avançou à porta. Num rompante, girou a maçaneta, abrindo-a com força. 

Dentro estava escuro como breu, mas foi clareando aos poucos até ser nitidamente perceptível a presença de um objeto grande e sólido logo à entrada. A fúria de Lavoisier se desmanchou em surpresa e a respiração tornou-se falha... diante dele estava o imponente Espelho da Alma, criado através de Magia por Dominique Hanon. 

Antes mesmo que pudesse se recompor da inesperada surpresa, a superfície do Espelho tremulou ao centro como fosse a água de um lago, e quando tornou-se plácida, imagens se formaram. 

Primeiro, uma única imagem que permaneceu por muito tempo. Depois, começou a ser substituída por outras diversas, e a substituição dava-se numa velocidade crescente até que todas as imagens dividissem e se sobrepusessem na superfície do espelho, sempre sumindo uma e aparecendo outra. Perplexo, Lavoisier via a si mesmo no espelho. O seu Eu, os seus vários Eus, seus milhares de Eus! 

O primeiro era Lavoisier tal qual ele era naquele momento, numa fisionomia angustiada e sofrida que, assim como a alegria, alguém tão frio quanto ele jamais permitiria que aflorasse em seu semblante os sentimentos, mesmo se estivesse sozinho. 

Porém, o Lavoisier refletido no Espelho da Alma tinha o rosto vincado pela dor e derramava lágrimas abundantes. A imagem se desmanchou e outra se formou no lugar, que por sua vez desvaneceu e foi sucedida por outra. Logo, eram dezenas de imagens que se acotovelavam na superfície do espelho. 

Lavoisier jovem, Lavoisier criança, Lavoisier tal qual era, Lavoisier velho, Lavoisier muito velho... todos aparentando tristeza profunda e sofrimento. Exceto um: ao Lavoisier jovem, um rapaz em seus 16, 17 anos, que transpirava vivacidade e alegria, embora o próprio jamais tivesse sido, a qualquer época de sua vida, de tal forma. Mas aquele garoto, de olhos negros e vivos, transpirava muita força interior, repleto de ideais e de soluções. 

No meio daquela multidão de velhos, crianças, adultos, este Lavoisier jovem, em particular, sobressaiu-se aos demais, portando um sorriso faceiro e decidido. Num instante transpôs os limites do espelho e estava parado diante do atual e real Lavoisier, aturdido num turbilhão de pensamentos que o impedia de ter qualquer outra ação além de olhar com perplexidade ao que se passava à sua frente. 

O garoto sorriu mais largamente e correu até o centro da sala circular, fazendo o real Lavoisier sair de seu aturdimento e dedicá-lo extrema atenção. Neste momento, não sabia dizer o que se passava em seu âmago com exatidão. O Espelho da Alma mostra aquilo que vai ao coração daquele que se vê refletido, e o coração do Bruxo era um tumulto de emoções, sentimentos, desejos, ideais e esperanças oprimidas. Ele sabia bem disso, embora houvesse se esquecido por muito tempo.

O garoto sorridente e decidido à sua frente era ele mesmo. Era ele há vinte anos, quando encontrou no Exército das Trevas a sua grande chance de mudar as coisas, mudar sua vida, mudar seu destino, fazer as coisas acontecerem, conquistar seus ideais! 

O caminho que tomou foi o mais tortuoso e equivocado, mas os seus ideais eram nobres e corretos no princípio, e foram esses mesmo ideais que lhe valeram a confiança cega de Hanon! Lavoisier via naquele garoto o que ainda era, e então percebeu que para chegar ao Paraíso era necessário trilhar pelos caminhos do Inferno... e finalmente entendeu o que queria dizer o provérbio “O Grande Mago escreve certo por linhas tortas!” 

O caminho que tomou foi o errado, foi aparentemente o errado, mas os seus sentimentos eram verdadeiros, certo, justos! E ainda eram! Mesmo que esses sentimentos justos impusessem atos injustos e dolorosos, eles não podiam ser desvirtuados. 

Sempre quis que o Povo Bruxo tivesse a vida digna a que merecia, que não houvesse mais perseguições, segregações, diferenças... queria uniformidade! Era uma questão de mudança de pensamento que ultrapassava gerações e estava disposto a fazê-lo cair por terra e ser enterrado para sempre! O fato de ter nascido de pai Incônscio não o fazia um Incônscio, mas um Bruxo como sua mãe! O Destino assim o quis. 

Ele era um Bruxo, o seu espírito era elevado por isso, e não poderia ser a sua condição física, material, perecível e temporária que deveria decidir se ele era ou não digno de pertencer à raça dos bruxos! Esse era o princípio de seus ideais, vindo da indignação que sentia ao presenciar atos e preceitos de mesquinhos que apenas se ocupavam com uma condição temporária: a do invólucro passível de putrefação, o corpo. 

Um Bruxo não poderia ser classificado de acordo com o tipo de sangue que corria em suas veias ou com a quantidade de ouro que corria em seus cofres! Ele queria a unificação, onde todos eram iguais, bruxos, sejam nascidos numa família de séculos de Magia ou numa família cuja Magia era vista apenas em shows de ilusionistas; fosse nascido de uma raça com outra raça; fosse nascido em berço de ouro ou colchão de palha.

Continua... 

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Lavoisier sentiu-se curioso e atraído pelo letreiro, cuja distância não permitia ler com clareza o que ali estava escrito, e pelas débeis lâmpadas que jogavam uma iluminação sobre o mesmo de forma estúpida e ineficiente. Tentou decifrar as palavras ao longo do caminho, nos passos que apressou inutilmente, pois  só conseguiria ler com nitidez assim que se postasse imóvel frente ao letreiro preste a despencar do muro de tijolos encardidos. E assim o fez, parando rigidamente em frente ao painel, espalhando neve e lama para os lados e sobre seus próprios coturnos e barras de sua calça. 

O luminoso de lâmpadas falhas deu um último suspiro e, como que prendendo a respiração, manteve-se acesso pelo tempo que foi necessário para Lavoisier ler e compreender as palavras ali descritas.
 
TEATRO MÁGICO
HOJE A PARTIR DAS VINTE E QUATRO
SÓ PARA LOUCOS.
ENTRADA AO PREÇO DA RAZÃO.
PARA OS RAROS SOMENTE. *
(* Hermann Hesse, em O Lobo da Estepe) 

 Eram frases estranhas e aparentemente sem nexo. Lavoisier não se lembrava de haver algum teatro naqueles lados da Citadelle, e era muito improvável que houvesse inaugurado agora, em plena guerra. Apesar disso, era uma frase estranha demais para ser ignorada. 

 O letreiro, que permaneceu aceso pelos instantes necessários à compreensão do Bruxo, apagou-se num súbito, com um ruído estridente, assustando o homem, fazendo-o materializar imediatamente seu Bastão Magístico de Vidoeiro, pondo-se em defensiva e afastando-se em dois passos, quando um novo letreiro, menor e mais simples, se acendeu abaixo do outro, próximo ao chão.
 
“Eu, Lobo da Estepe, vago errante
Pelo mundo de neve recoberto.
Por que de mim há de afastar-se tudo 
quanto faz esta vida mais alegre?
Ouço o vento soprar na noite fria,
com neve aplaco o fogo da garganta
e levo para o Diabo a minha alma.” *

(* Hermann Hesse, in “O Lobo da Estepe”) 

 Apreensivo com as frases, uma porta que não parecia existir ali até aquele momento, abre-se com violência como se alguém a tivesse arrombado. O baque maciço fez Lavoisier se sobressaltar, levantando o punho com o Bastão à altura dos olhos, em defensiva. 

 O baque violento foi a única coisa a ressonar por ali. Antes, apenas o chilrear do vento que soprava encanado pelas ruas estreitas. Depois, a mesma coisa, como se nada tivesse acontecido. 

 Lavoisier esperou, ponderando por instantes, olhando com muita desconfiança para as trevas que estavam após a porta que se abrira. Ponderou seriamente até que baixou a guarda, descansando o braço do Bastão ao lado do corpo. 

 — “... E levo para o Diabo a minha alma”... 

 Sem pestanejar, decididamente irrompeu pela negritude cega do interior daquele edifício. Apenas os baques abafados do seu caminhar, como pisados sobre pedras, quebravam o silêncio mórbido daquele ambiente sinistro. O lugar era quente, muito quente em relação à temperatura abaixo de zero do lado de fora, e não tardou para que Lavoisier desabotoasse sua gola alta, sentindo-se sufocado pelo ar rarefeito e abafado que ali se respirava. 

 Mais alguns passos no escuro total e o baque violento da porta se fechando o fez parar de imediato, virando-se para trás, voltando-se quando luzes foram acessas, uma após a outra, iluminando o que seria uma sala circular onde ele estava, parado exatamente sobre um círculo que indicava o centro. 

A sala se iluminou a ponto de cegá-lo. Levou as mãos aos olhos e manteve-se assim por longos segundos, a fim de preparar a sua vista para aquele transbordamento de luz. 

Quando finalmente deu-se por preparado para enxergar dentro daquela súbita e violenta claridade, abriu seus olhos lentamente, e sua vista foi focalizando aos poucos até conseguir enxergar com absoluta nitidez dentro daquela estranha e muito peculiar sala, que mais parecia com uma arena de circo. 

 A sala circular era dotada de várias portas exatamente iguais umas às outras, não havendo meios de saber por qual havia entrado, embora supunha-se que fosse pela porta às suas costa. 

 Já perdendo a paciência por tamanho espetáculo, furioso, Lavoisier virou-se sobre os calcanhares, avançando até a passagem que supunha havia entrado. Ao girar a maçaneta e abrir a porta, dá de cara com um muro em tijolo maciço e o letreiro luminoso, que se mostrava com algumas palavras trocadas.
 
TEATRO MÁGICO
ENTRADA PARA OS FELIZES
SOMENTE PARA LOUCOS RAROS
ENTRADA PROIBIDA!


 Lavoisier recuou, pensando em diversos feitiços que poderiam pôr o muro encardido abaixo, mas quis poupar seu tempo e paciência. Tentou teleportar... nada! Tentou novamente, controlando seus ímpetos, novamente postando-se calmo e frio... e novamente nada! Não conseguia teleportar-se dali! O lugar estava trancado com algum feitiço antiteleporte, é claro! 

 Voltou-se furioso para as outras portas. Talvez ele tivesse se confundido, porém, todas davam para muros encardidos de tijolinhos maciços e débeis placas luminosas.
 
TEATRO MÁGICO
ENTRADA PARA OS IGNORANTES
SOMENTE PARA LOUCOS COMUNS
ENTRADA PROIBIDA!
 
TEATRO MÁGICO
ENTRADA PARA OS IMACULADOS
SOMENTE PARA LOUCOS OPCIONAIS
ENTRADA PROIBIDA!
 
TEATRO MÁGICO
ENTRADA PARA OS PIEDOSOS
SOMENTE PARA POUCOS LOUCOS
ENTRADA PROIBIDA!


 Lavoisier tentou em vão, repetidas vezes, lançar feitiços contra os infames muros, mas tudo que saía de seu Bastão eram raquíticas fagulhas como fossem bombinhas de São João. Já desesperado, ofegante e suado, o Bruxo levou sua mão à testa, afastando com raiva seus cabelos molhados pela neve, segurando-os em punho fortemente fechado sobre a nuca. Irado, olhau para o teto abobadado, gritando a plenos pulmões: 

 — MALDITO! QUE ARMADILHA IDIOTA É ESSA! PARE COM JOGUINHOS E MOSTRE QUEM É, COVARDE! 

 Por instantes, a voz descontrolada de Lavoisier reverberou pelo ambiente circular, causando-lhe uma estranha sensação de calafrios pela espinha dorsal. O eco de suas palavras desvaneceu e o silêncio imperou pelo que pareciam instantes eternos, até que o ruído da eletricidade fez-se novamente presente às suas costas. Virou-se num sobressalto. Sobre uma porta, que ele tinha certeza de também ter aberto e dado de cara com um estúpido muro e seu estúpido letreiro, surgiu um outro que ali não existia. Apesar das palavras serem as mesmas de antes, o letreiro estava impecável, inspirando até mesmo seriedade.

Continua... 

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São tantas as atitudes, decisões e escolhas a serem tomadas, sempre pensando naquela que seria a melhor opção, que acabamos nos perdendo no emaranhado de pensamentos, chegando ao ponto de não sabermos mais o que estamos fazendo ou, pior, não sabermos mais se é o certo ou errado o que fazemos; se é isso mesmo que queríamos; se é isso que escolhemos para nós. 

Laurent Lavoisier perambulava feito alma perdida por entre as ruas desertas e geladas da Citadelle, o obscuro bairro da Mayotte do Mundo Magnífico, o “mundo bruxo”. 

A Segunda Guerra entre Luz e Trevas estava tão presente que não se via mais as pessoas caminharem tranquilamente, mesmo sob o sol a pino do meio-dia... Menos ainda encontraria algum bruxo errante, em pleno último dia do ano, o último dia de um ano turbulento e desgraçado. 

Qualquer outro bruxo não arriscaria sua vida para caminhar a esmo por becos e ruas escuras. Mas Lavoisier não era um qualquer: era um Bruxo infeliz que vagava perdido pelas inóspitas ruas imundas daquela capital bruxa, em meio ao emaranhado complexo em que estava metido, no misto confuso de traição e obediência cega, promessas irrevogáveis e objetivos a serem alcançados a qualquer preço! 

Era uma noite enregelante de Inverno. Era a noite do último dia do ano em que cometeu o pior ato de sua vida, provando o quão estúpida pode ser a lealdade sem barreiras ao matar a única pessoa que lhe estendeu a mão em toda a sua vida: o revolucionário Dominique Hanon, que fora seu amigo e mentor. 

Seu arrependimento pela morte de Hanon só não era maior do que o seu arrependimento de ter prometido ao velho mago, há quinze anos atrás, quando se aliou às Forças Revolucionárias, que seria leal em todas as circunstâncias. 

Arrependia-se amargamente por ter feito a maldita promessa a Hanon, que lhe obedeceria a toda e qualquer ordem; a maldita promessa que ocasionou agora a sua desgraça, o seu eterno calvário. A promessa entre Bruxos não era uma coisa banal como no Mundo Incônscio, o “mundo dos não-mágicos”, cujas palavras eram carregadas pelo vento e dependiam apenas da boa vontade para serem cumpridas.  

Não. As promessas entre bruxos iam muito além da simplicidade ridícula do “povo não-mágico”. Promessas eram pactos magísticos que se rompiam apenas com a morte de uma das partes.  Quisera ele ter morrido antes que viesse tal trágico momento se tornar realidade! Quisera ele que em suas veias corresse apenas o sangue Incônscio de seu falecido pai! Qualquer coisa que o tivesse impedido de cumprir com a promessa de lealdade a Dominique Hanon, matando a sangue frio sob seu comando... um suicídio por mãos alheias! 

Porém, era tolice e covardia remoer o que passou e desejar que tudo tivesse sido diferente! Talvez fosse um tolo, talvez fosse mesmo um covarde como outros já haviam lhe dito com todo o ódio que havia em seus corações contra ele. 

Para o inferno os termos, rótulos, convenções! Neste momento, após sair de um ataque igualmente covarde e tolo do Exército das Trevas, queria vagar feito alma penada que era, pelas ruelas imundas e congeladas da Citadelle. Queria se congelar até a penada alma com o ar gelado e úmido que o cercava. Queria se congelar com a neve que caía, a única coisa branca e pura que havia perto dele numa extensão de quilômetros! 

Perambulando a esmo, reduziu seus passos ao notar um letreiro luminoso, que piscava com perseverança, embora nem todas as suas lâmpadas estivem funcionando ou a própria placa  estivesse bem fixada à parede - parecendo que desabaria a qualquer instante - ou que faíscas saíssem pelos bocais onde faltavam lâmpadas. O letreiro acendia e apagava, refletindo sua luz colorida no chão branco e molhado pela neve. A insistência do pobre objeto de aspecto tão miserável, a única coisa a parecer viva naquele lugar inóspito e sombrio, dava-lhe um ar de idiota alegria, como fosse um louco desgraçado, inconsciente de sua própria desgraça.

Continua... 

Os capítulos seguirão por postagem, para facilitar a leitura. Se quiser adquirir o Romance em formato de livro, poderá fazê-lo através destes links:

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 Data: 20/09/2016


Em 2 de março deste ano, fiz uma postagem comentando que em "breve" teríamos novidades para anunciar aqui no blog... bem que deveria ter, mas acabou sendo apenas uma ironia, pois de lá para cá não consegui mais escrever e, consequentemente, terminar os textos pendentes.

Então, resolvi aqui com os meu botões, passar a postar meus textos nos blogs, como agora estou fazendo com o livro 1 de Raptores, no blog Série Encantados... e aqui farei a postagem dos livros da Série Snake Stories. Como as vendas dos livros no Clube de Autores e dos ebooks na Amazon despencaram a zero, e a nossa intenção sempre foi a de conseguir leitores (já que ganhar dinheiro com trabalho é piada), poderei agora ir postando os textos gratuitamente nos blogs e, com isso, espero ganhar novos leitores - espero muito!!

Portanto, a partir de amanhã você terá aqui no blog The Snake Stories, um livro inteirinho para ler, capítulo por capítulo, que será publicado por postagens a cada dois dias.

E se quiser fazer uma colaboração, poderá adquirir o livro impresso no Clube de Autores, ou o ebook na Amazon ou simplesmente fazer um donativo com o valor que quiser.

Aguarde :) ...
 


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