The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos


Mas, para ela, toda essa alegria já havia se excedido... Ninguém percebera sua repentina desolação. Despediu-se silenciosamente de todos, com um sorriso triste no rosto cansado, correndo seus olhos dourados por aquela turba de boêmios, já com a mão na maçaneta da porta de saída. 

Ganhou a rua deserta em menos de um segundo. As risadas, falações e músicas ficaram abafadas quando a porta bateu às suas costas. O ar estava álgido. Ainda era Outono, mas as estações nunca mais seriam as mesmas após a guerra que violentou até mesmo a natureza da Terra. Uma rajada de vento a fez tremer e se encolher, balançando seus cachos avermelhados que caíam soltos às suas costas. Uma névoa se formava com sua respiração. 

Maeve ergueu os olhos para o céu parcialmente encoberto, onde ainda era possível ver uma formosa e imponente lua cheia e algumas estrelas que cintilavam como diamantes ao fogo. As nuvens finas, que cobriam boa parte do céu noturno, anunciavam uma chuva igualmente fina que, provavelmente, se condensaria em cristais de gelo com a atmosfera anormalmente fria para aquela época do ano. 

O luar intenso iluminava bucolicamente uma das principais cidades do Mundo Magnífico, que fora totalmente destruída e que agora gabava-se de seu renascimento como se jamais tivesse tombado alguma vez. Os lampiões das calçadas brilhavam como lágrimas na noite, um vapor produzido por seu próprio calor pairava e se dissolvia no ar. 

Maeve, de cabeça baixa e braços cruzados com força sobre o peito, caminhava decidida, em passos firmes. Seus sapatos baqueavam os paralelepípedos. Seus passos e sua respiração forte juntavam-se aos sons naturais da noite, ao vento que cortava as copas de árvores e telhados. Nuvens lanosas passavam apressadas sob a lua, criando sombras movimentadas pelo caminho. 

Sem se importar com o frio que a castigava, subiu com perseverança a colina que começava após o término das construções de tijolinhos maciços, que caracterizavam a cidade que se parecia com um vilarejo medieval. Os lampiões se escasseavam e o caminho começava a ser iluminado apenas pelo luar. Apesar do céu ter sido encoberto por nuvens de chuva, a lua cheia jogava seus fortes raios sobre aquele manto lanoso que refletia e potencializava sua luz, tornando a noite quase tão clara quanto o amanhecer do dia. 

Continua...

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