The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos


 
TEATRO MÁGICO
HOJE A PARTIR DAS VINTE E QUATRO
SÓ PARA LOUCOS
ENTRADA AO PREÇO DA RAZÃO
PARA OS RAROS SO-
MENTE.*
(*Hermann Hesse, in O Lobo da Estepe) 

Lavoisier inspirou fundo e, em passos decididos, avançou à porta. Num rompante, girou a maçaneta, abrindo-a com força. 

Dentro estava escuro como breu, mas foi clareando aos poucos até ser nitidamente perceptível a presença de um objeto grande e sólido logo à entrada. A fúria de Lavoisier se desmanchou em surpresa e a respiração tornou-se falha... diante dele estava o imponente Espelho da Alma, criado através de Magia por Dominique Hanon. 

Antes mesmo que pudesse se recompor da inesperada surpresa, a superfície do Espelho tremulou ao centro como fosse a água de um lago, e quando tornou-se plácida, imagens se formaram. 

Primeiro, uma única imagem que permaneceu por muito tempo. Depois, começou a ser substituída por outras diversas, e a substituição dava-se numa velocidade crescente até que todas as imagens dividissem e se sobrepusessem na superfície do espelho, sempre sumindo uma e aparecendo outra. Perplexo, Lavoisier via a si mesmo no espelho. O seu Eu, os seus vários Eus, seus milhares de Eus! 

O primeiro era Lavoisier tal qual ele era naquele momento, numa fisionomia angustiada e sofrida que, assim como a alegria, alguém tão frio quanto ele jamais permitiria que aflorasse em seu semblante os sentimentos, mesmo se estivesse sozinho. 

Porém, o Lavoisier refletido no Espelho da Alma tinha o rosto vincado pela dor e derramava lágrimas abundantes. A imagem se desmanchou e outra se formou no lugar, que por sua vez desvaneceu e foi sucedida por outra. Logo, eram dezenas de imagens que se acotovelavam na superfície do espelho. 

Lavoisier jovem, Lavoisier criança, Lavoisier tal qual era, Lavoisier velho, Lavoisier muito velho... todos aparentando tristeza profunda e sofrimento. Exceto um: ao Lavoisier jovem, um rapaz em seus 16, 17 anos, que transpirava vivacidade e alegria, embora o próprio jamais tivesse sido, a qualquer época de sua vida, de tal forma. Mas aquele garoto, de olhos negros e vivos, transpirava muita força interior, repleto de ideais e de soluções. 

No meio daquela multidão de velhos, crianças, adultos, este Lavoisier jovem, em particular, sobressaiu-se aos demais, portando um sorriso faceiro e decidido. Num instante transpôs os limites do espelho e estava parado diante do atual e real Lavoisier, aturdido num turbilhão de pensamentos que o impedia de ter qualquer outra ação além de olhar com perplexidade ao que se passava à sua frente. 

O garoto sorriu mais largamente e correu até o centro da sala circular, fazendo o real Lavoisier sair de seu aturdimento e dedicá-lo extrema atenção. Neste momento, não sabia dizer o que se passava em seu âmago com exatidão. O Espelho da Alma mostra aquilo que vai ao coração daquele que se vê refletido, e o coração do Bruxo era um tumulto de emoções, sentimentos, desejos, ideais e esperanças oprimidas. Ele sabia bem disso, embora houvesse se esquecido por muito tempo.

O garoto sorridente e decidido à sua frente era ele mesmo. Era ele há vinte anos, quando encontrou no Exército das Trevas a sua grande chance de mudar as coisas, mudar sua vida, mudar seu destino, fazer as coisas acontecerem, conquistar seus ideais! 

O caminho que tomou foi o mais tortuoso e equivocado, mas os seus ideais eram nobres e corretos no princípio, e foram esses mesmo ideais que lhe valeram a confiança cega de Hanon! Lavoisier via naquele garoto o que ainda era, e então percebeu que para chegar ao Paraíso era necessário trilhar pelos caminhos do Inferno... e finalmente entendeu o que queria dizer o provérbio “O Grande Mago escreve certo por linhas tortas!” 

O caminho que tomou foi o errado, foi aparentemente o errado, mas os seus sentimentos eram verdadeiros, certo, justos! E ainda eram! Mesmo que esses sentimentos justos impusessem atos injustos e dolorosos, eles não podiam ser desvirtuados. 

Sempre quis que o Povo Bruxo tivesse a vida digna a que merecia, que não houvesse mais perseguições, segregações, diferenças... queria uniformidade! Era uma questão de mudança de pensamento que ultrapassava gerações e estava disposto a fazê-lo cair por terra e ser enterrado para sempre! O fato de ter nascido de pai Incônscio não o fazia um Incônscio, mas um Bruxo como sua mãe! O Destino assim o quis. 

Ele era um Bruxo, o seu espírito era elevado por isso, e não poderia ser a sua condição física, material, perecível e temporária que deveria decidir se ele era ou não digno de pertencer à raça dos bruxos! Esse era o princípio de seus ideais, vindo da indignação que sentia ao presenciar atos e preceitos de mesquinhos que apenas se ocupavam com uma condição temporária: a do invólucro passível de putrefação, o corpo. 

Um Bruxo não poderia ser classificado de acordo com o tipo de sangue que corria em suas veias ou com a quantidade de ouro que corria em seus cofres! Ele queria a unificação, onde todos eram iguais, bruxos, sejam nascidos numa família de séculos de Magia ou numa família cuja Magia era vista apenas em shows de ilusionistas; fosse nascido de uma raça com outra raça; fosse nascido em berço de ouro ou colchão de palha.

Continua... 

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