The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos


O seu verdadeiro ideal, a essência de tudo, pura, imaculada, ali estava representada naquele garoto sorridente e cheio de esperanças. 

  Lavoisier se sobressaltou mais uma vez quando o garoto lhe falou jovialmente numa voz grave que lhe era tão conhecida. 

  — O caminho foi errado, mas a estrada não era única e infinita... conseguimos encontrar um desvio e conseguimos sair daquela estrada errada. Muitas coisas... coisas demais aconteceram durante todo este tempo até aqui, agora, mas  sei que você sabe que Hanon preservou em você o  nosso ideal, assim como fora concebido no início. Dominique Hanon sempre considerou todas as possibilidades, até mesmo sua própria morte, seu suicídio necessário. E também quero lembrá-lo que você o amava e por amor prometeu-lhe tirar a vida quando chegasse a hora! Porém, você não poderia sê-lo leal apenas durante a vida e você sabe disso! Agora, Laurent, mais do que nunca, você precisa continuar leal a Dominique Hanon e levar até o fim tudo que foi planejado por todos esses anos! 

  — Eu... eu – Lavoisier balbuciou, baixando sua vista para o chão, inconsolável. — ... creio, fui longe demais! Quando prometi que faria tudo que me pedisse, não imaginei que teria de matá-lo ao seu próprio pedido! Eu não queria, não podia, mas fiz! Como pode uma lealdade chegar a um ponto tão crítico, tão irrevogável?! Eu errei por ser fraco! Talvez por ser mesmo um covarde! 

  O garoto aproximou-se de Lavoisier, com uma expressão  de compreensão no rosto, num sorriso singelo. 

  — Não, não errou... como também não errou ao seguir as Trevas. O caminho é que foi errado, não nós, não você, Laurent! Não errou porque você nunca, em nenhum momento, se desviou de seus verdadeiros ideais! 

  —  É fácil para você dizer isso...  – Lavoisier sorriu com amargura, encarando seu jovem Eu à sua frente.  — Você é a materialização de tudo que eu acreditava, da esperança que eu possuía... não é o assassino da pessoa mais fabulosa que existiu em nosso tempo! Ao matar Hanon, morreu também o pouco da razão que eu ainda dava aos meus ideais e na necessidade da guerra... agora é tudo vão, sem sentindo!

  O jovem levou a mão ao ombro esquerdo de Lavoisier, ainda sorrindo. 

  — Não, não é. Se a razão do nosso ideal tivesse morrido, eu não estaria aqui, meu querido! 

  Com uma piscada de olhos e um estalar de dedos do jovem Lavoisier, a porta à frente de ambos se abriu e o garoto desvaneceu-se até sumir por completo. A passagem escancarou-se, dando visão a uma nova placa luminosa, porém agora com uma nova frase que fez o Bruxo gelar da cabeça aos pés.
 
TEATRO MÁGICO
HOJE A PARTIR DAS VINTE E QUATRO
SÓ PARA LOUCOS
ENTRADA AO PREÇO DA RAZÃO
PARA OS RAROS SOMENTE. *
JULIENNE ESTÁ NO INFERNO!
(* Hermann Hesse em O Lobo da Estepe) 

  — Julienne? Julienne Jouvin?! 

  Lavoisier piscou algumas vezes, não crendo em seus próprios olhos; não devia estar enxergando direito! Por que Julienne era citada naquele luminoso?! O que tudo isso tem a ver com a jovem?! Por que está dizendo que ela está no Inferno?! Mas, qual inferno?! 

  — Isso é uma armadilha! Eu não podia ter deixado transparecer minha apatia! Maldição! Isso é uma armadilha de algum Soldado das Trevas! Talvez até mesmo do próprio Mestre Negro!  – Lavoisier sibilava por entre os dentes, desesperado pelo imprevisto, com o sentimento doloroso de uma iminente tragédia! 

  Tentou, a todo custo, manter oculto o seu abatimento pela morte de Hanon. Mesmo quando estava completamente sozinho, isolado, não se permitia fraquejar. Engolira todas as lágrimas. E no desamparo dessa maldita solidão, foi que seu coração o traiu mais uma vez. Sentia-se doente pela falta que Julienne lhe fazia! Não sabia como, por qual fenda de suas muralhas espessas, esse sentimento em relação à jovem bruxa havia penetrado  em sua alma... e não sabia quando. Mas foi somente quando esteve completamente desamparado que descobriu o quanto ela lhe era valiosa! E agora um estúpido letreiro luminoso dizia que ela estava no Inferno!? 

  Não era hora para auto-analise, para tentar descobrir como seus sentimentos foram expostos ao Mestre Negro, apesar de sua muralha psíquica que guardava o refúgio de sua mente e seu coração. Seja lá o que tenha acontecido, a merda estava feita! Ele fora desmascarado e Julienne pagava por isso! Agora estava claro que ele caíra, de forma muito idiota, numa armadilha! 

  Possesso, com o Bastão Mágico em punho fechado com ódio, Lavoisier avançou em passos largos pelo corredor indicado pelo letreiro, a fim de acabar com tudo aquilo o mais rápido possível. Sua vida já não valia absolutamente mais nada e venderia sua alma ao Diabo, se necessário, para tirar Julienne daquele Inferno! 

  Já havia perdido, deixado perder demais naquela vida! Perdeu a família. Perdeu amigos. Perdeu Hanon. Perdeu a todos para as Trevas sem que conseguisse impedir. Não perderia Julienne, nunca! 

  O final do corredor surgiu e o homem entrou na sala mecanicamente, levando o Bastão à altura dos olhos, apontando para o vulto que estava parado diante do que parecia ser um balcão de bar. A sala estava muito mal iluminada por uma luz avermelhada. 

  — Acabou a brincadeira! Quero a mulher e quero agora! 

  O vulto se remexeu desconfortável, incerto por sua segurança, mas não saiu de onde estava, apenas continuou observando em silêncio ao Bruxo em posição de ataque. A luz fraca e incômoda não permitia ver nada com nitidez, mas ainda era possível sentir, e o que se sentia era um espírito violento e armado que partia de Lavoisier que, impaciente, gritou pela segunda vez:

  — COVARDE MISERÁVEL! QUE MALDITA ARMADILHA É ESSA?! CANALHA! COMO OUSA SE ESCONDER ATRÁS DE UMA MULHER QUE NADA TEM A VER COM ESSA MALDITA HISTÓRIA!? 

  — Nada?  – A voz fina soou fracamente, fazendo um alto contraste com a fúria de Lavoisier. 

  — O quê?! – Lavoisier perguntou incrédulo. A surpresa fez com que baixasse por instantes a sua guarda. 

  — Perdoe-me o exagero, Mestre... mas isso tudo já havia me sido orientado... 

  O vulto se afastou do balcão. Lavoisier havia baixado totalmente a guarda, baixando seu braço e o Bastão de Vidoeiro rentes ao corpo. 

Respirando com exaustão, o homem continuou a olhar perplexo, observando atentamente o vulto que tomava as forma de uma silhueta conhecida. Sua vista, aos poucos, começava a se acostumar à horrível iluminação avermelhada.

Continua... 

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