The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos



Lavoisier sentiu-se curioso e atraído pelo letreiro, cuja distância não permitia ler com clareza o que ali estava escrito, e pelas débeis lâmpadas que jogavam uma iluminação sobre o mesmo de forma estúpida e ineficiente. Tentou decifrar as palavras ao longo do caminho, nos passos que apressou inutilmente, pois  só conseguiria ler com nitidez assim que se postasse imóvel frente ao letreiro preste a despencar do muro de tijolos encardidos. E assim o fez, parando rigidamente em frente ao painel, espalhando neve e lama para os lados e sobre seus próprios coturnos e barras de sua calça. 

O luminoso de lâmpadas falhas deu um último suspiro e, como que prendendo a respiração, manteve-se acesso pelo tempo que foi necessário para Lavoisier ler e compreender as palavras ali descritas.
 
TEATRO MÁGICO
HOJE A PARTIR DAS VINTE E QUATRO
SÓ PARA LOUCOS.
ENTRADA AO PREÇO DA RAZÃO.
PARA OS RAROS SOMENTE. *
(* Hermann Hesse, em O Lobo da Estepe) 

 Eram frases estranhas e aparentemente sem nexo. Lavoisier não se lembrava de haver algum teatro naqueles lados da Citadelle, e era muito improvável que houvesse inaugurado agora, em plena guerra. Apesar disso, era uma frase estranha demais para ser ignorada. 

 O letreiro, que permaneceu aceso pelos instantes necessários à compreensão do Bruxo, apagou-se num súbito, com um ruído estridente, assustando o homem, fazendo-o materializar imediatamente seu Bastão Magístico de Vidoeiro, pondo-se em defensiva e afastando-se em dois passos, quando um novo letreiro, menor e mais simples, se acendeu abaixo do outro, próximo ao chão.
 
“Eu, Lobo da Estepe, vago errante
Pelo mundo de neve recoberto.
Por que de mim há de afastar-se tudo 
quanto faz esta vida mais alegre?
Ouço o vento soprar na noite fria,
com neve aplaco o fogo da garganta
e levo para o Diabo a minha alma.” *

(* Hermann Hesse, in “O Lobo da Estepe”) 

 Apreensivo com as frases, uma porta que não parecia existir ali até aquele momento, abre-se com violência como se alguém a tivesse arrombado. O baque maciço fez Lavoisier se sobressaltar, levantando o punho com o Bastão à altura dos olhos, em defensiva. 

 O baque violento foi a única coisa a ressonar por ali. Antes, apenas o chilrear do vento que soprava encanado pelas ruas estreitas. Depois, a mesma coisa, como se nada tivesse acontecido. 

 Lavoisier esperou, ponderando por instantes, olhando com muita desconfiança para as trevas que estavam após a porta que se abrira. Ponderou seriamente até que baixou a guarda, descansando o braço do Bastão ao lado do corpo. 

 — “... E levo para o Diabo a minha alma”... 

 Sem pestanejar, decididamente irrompeu pela negritude cega do interior daquele edifício. Apenas os baques abafados do seu caminhar, como pisados sobre pedras, quebravam o silêncio mórbido daquele ambiente sinistro. O lugar era quente, muito quente em relação à temperatura abaixo de zero do lado de fora, e não tardou para que Lavoisier desabotoasse sua gola alta, sentindo-se sufocado pelo ar rarefeito e abafado que ali se respirava. 

 Mais alguns passos no escuro total e o baque violento da porta se fechando o fez parar de imediato, virando-se para trás, voltando-se quando luzes foram acessas, uma após a outra, iluminando o que seria uma sala circular onde ele estava, parado exatamente sobre um círculo que indicava o centro. 

A sala se iluminou a ponto de cegá-lo. Levou as mãos aos olhos e manteve-se assim por longos segundos, a fim de preparar a sua vista para aquele transbordamento de luz. 

Quando finalmente deu-se por preparado para enxergar dentro daquela súbita e violenta claridade, abriu seus olhos lentamente, e sua vista foi focalizando aos poucos até conseguir enxergar com absoluta nitidez dentro daquela estranha e muito peculiar sala, que mais parecia com uma arena de circo. 

 A sala circular era dotada de várias portas exatamente iguais umas às outras, não havendo meios de saber por qual havia entrado, embora supunha-se que fosse pela porta às suas costa. 

 Já perdendo a paciência por tamanho espetáculo, furioso, Lavoisier virou-se sobre os calcanhares, avançando até a passagem que supunha havia entrado. Ao girar a maçaneta e abrir a porta, dá de cara com um muro em tijolo maciço e o letreiro luminoso, que se mostrava com algumas palavras trocadas.
 
TEATRO MÁGICO
ENTRADA PARA OS FELIZES
SOMENTE PARA LOUCOS RAROS
ENTRADA PROIBIDA!


 Lavoisier recuou, pensando em diversos feitiços que poderiam pôr o muro encardido abaixo, mas quis poupar seu tempo e paciência. Tentou teleportar... nada! Tentou novamente, controlando seus ímpetos, novamente postando-se calmo e frio... e novamente nada! Não conseguia teleportar-se dali! O lugar estava trancado com algum feitiço antiteleporte, é claro! 

 Voltou-se furioso para as outras portas. Talvez ele tivesse se confundido, porém, todas davam para muros encardidos de tijolinhos maciços e débeis placas luminosas.
 
TEATRO MÁGICO
ENTRADA PARA OS IGNORANTES
SOMENTE PARA LOUCOS COMUNS
ENTRADA PROIBIDA!
 
TEATRO MÁGICO
ENTRADA PARA OS IMACULADOS
SOMENTE PARA LOUCOS OPCIONAIS
ENTRADA PROIBIDA!
 
TEATRO MÁGICO
ENTRADA PARA OS PIEDOSOS
SOMENTE PARA POUCOS LOUCOS
ENTRADA PROIBIDA!


 Lavoisier tentou em vão, repetidas vezes, lançar feitiços contra os infames muros, mas tudo que saía de seu Bastão eram raquíticas fagulhas como fossem bombinhas de São João. Já desesperado, ofegante e suado, o Bruxo levou sua mão à testa, afastando com raiva seus cabelos molhados pela neve, segurando-os em punho fortemente fechado sobre a nuca. Irado, olhau para o teto abobadado, gritando a plenos pulmões: 

 — MALDITO! QUE ARMADILHA IDIOTA É ESSA! PARE COM JOGUINHOS E MOSTRE QUEM É, COVARDE! 

 Por instantes, a voz descontrolada de Lavoisier reverberou pelo ambiente circular, causando-lhe uma estranha sensação de calafrios pela espinha dorsal. O eco de suas palavras desvaneceu e o silêncio imperou pelo que pareciam instantes eternos, até que o ruído da eletricidade fez-se novamente presente às suas costas. Virou-se num sobressalto. Sobre uma porta, que ele tinha certeza de também ter aberto e dado de cara com um estúpido muro e seu estúpido letreiro, surgiu um outro que ali não existia. Apesar das palavras serem as mesmas de antes, o letreiro estava impecável, inspirando até mesmo seriedade.

Continua... 

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