The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos


São tantas as atitudes, decisões e escolhas a serem tomadas, sempre pensando naquela que seria a melhor opção, que acabamos nos perdendo no emaranhado de pensamentos, chegando ao ponto de não sabermos mais o que estamos fazendo ou, pior, não sabermos mais se é o certo ou errado o que fazemos; se é isso mesmo que queríamos; se é isso que escolhemos para nós. 

Laurent Lavoisier perambulava feito alma perdida por entre as ruas desertas e geladas da Citadelle, o obscuro bairro da Mayotte do Mundo Magnífico, o “mundo bruxo”. 

A Segunda Guerra entre Luz e Trevas estava tão presente que não se via mais as pessoas caminharem tranquilamente, mesmo sob o sol a pino do meio-dia... Menos ainda encontraria algum bruxo errante, em pleno último dia do ano, o último dia de um ano turbulento e desgraçado. 

Qualquer outro bruxo não arriscaria sua vida para caminhar a esmo por becos e ruas escuras. Mas Lavoisier não era um qualquer: era um Bruxo infeliz que vagava perdido pelas inóspitas ruas imundas daquela capital bruxa, em meio ao emaranhado complexo em que estava metido, no misto confuso de traição e obediência cega, promessas irrevogáveis e objetivos a serem alcançados a qualquer preço! 

Era uma noite enregelante de Inverno. Era a noite do último dia do ano em que cometeu o pior ato de sua vida, provando o quão estúpida pode ser a lealdade sem barreiras ao matar a única pessoa que lhe estendeu a mão em toda a sua vida: o revolucionário Dominique Hanon, que fora seu amigo e mentor. 

Seu arrependimento pela morte de Hanon só não era maior do que o seu arrependimento de ter prometido ao velho mago, há quinze anos atrás, quando se aliou às Forças Revolucionárias, que seria leal em todas as circunstâncias. 

Arrependia-se amargamente por ter feito a maldita promessa a Hanon, que lhe obedeceria a toda e qualquer ordem; a maldita promessa que ocasionou agora a sua desgraça, o seu eterno calvário. A promessa entre Bruxos não era uma coisa banal como no Mundo Incônscio, o “mundo dos não-mágicos”, cujas palavras eram carregadas pelo vento e dependiam apenas da boa vontade para serem cumpridas.  

Não. As promessas entre bruxos iam muito além da simplicidade ridícula do “povo não-mágico”. Promessas eram pactos magísticos que se rompiam apenas com a morte de uma das partes.  Quisera ele ter morrido antes que viesse tal trágico momento se tornar realidade! Quisera ele que em suas veias corresse apenas o sangue Incônscio de seu falecido pai! Qualquer coisa que o tivesse impedido de cumprir com a promessa de lealdade a Dominique Hanon, matando a sangue frio sob seu comando... um suicídio por mãos alheias! 

Porém, era tolice e covardia remoer o que passou e desejar que tudo tivesse sido diferente! Talvez fosse um tolo, talvez fosse mesmo um covarde como outros já haviam lhe dito com todo o ódio que havia em seus corações contra ele. 

Para o inferno os termos, rótulos, convenções! Neste momento, após sair de um ataque igualmente covarde e tolo do Exército das Trevas, queria vagar feito alma penada que era, pelas ruelas imundas e congeladas da Citadelle. Queria se congelar até a penada alma com o ar gelado e úmido que o cercava. Queria se congelar com a neve que caía, a única coisa branca e pura que havia perto dele numa extensão de quilômetros! 

Perambulando a esmo, reduziu seus passos ao notar um letreiro luminoso, que piscava com perseverança, embora nem todas as suas lâmpadas estivem funcionando ou a própria placa  estivesse bem fixada à parede - parecendo que desabaria a qualquer instante - ou que faíscas saíssem pelos bocais onde faltavam lâmpadas. O letreiro acendia e apagava, refletindo sua luz colorida no chão branco e molhado pela neve. A insistência do pobre objeto de aspecto tão miserável, a única coisa a parecer viva naquele lugar inóspito e sombrio, dava-lhe um ar de idiota alegria, como fosse um louco desgraçado, inconsciente de sua própria desgraça.

Continua... 

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