The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos

Só Resta O Começo

Quinto Ato: O Começo.
No vidro da janela, gotas de chuva deslizavam e formavam uma pequena poça na jardineira suspensa logo abaixo. Mais à frente, um cipreste de tamanho mediano dançava de um lado para outro com o vento frio e cortante que soprava.
Mesmo sentindo um pouco de frio, Ghillie se recusava a fechar as grossas cortinas. Apreciava de sua escrivaninha a movimentação da tempestade que anunciava dias muito frios pela frente. Com um suspiro enfadado, joga a caneta que segurava sobre o caderno de estudos, abrindo em seguida a última gaveta da mesa, trancada com magia.
Retira de lá um porta-retrato de madeira e filetes de metal... a única fotografia que tinha dele era essa, do dia da sua formatura, com todos os seus colegas e os professores juntos... nem isso ela tinha dele, uma foto nítida exclusivamente com ele, Ahriman Mainyu.
Olhou por muitos instantes a fotografia, como fazia todos os dias, para logo em seguida abraçá-la contra o peito, fechando os olhos e tentando reviver mentalmente aquele passado tão distante, tão inalcançável.
E em sua mente, tentava, em desespero, sorver todo aquele precioso instante que ocorreu entre ela e Ahriman em seu quarto no Forte Danúbio, há mais de dois anos. E, naquele momento, tudo que pensava era repudiá-lo, por causa de seu raciocínio torto que a fez ter um julgamento totalmente equivocado, que a fez desperdiçar a grande chance de viver aquele amor intensamente.
Aqueles beijos, aqueles carinhos tão intensos, eram tudo o que ela desejava ter com Ahriman e quando finalmente aconteceu... ela, burra demais, negou tudo aquilo e tirou dele um motivo para continuar vivendo, ferindo-o com mentiras. Ferindo a si mesma.
"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã..."
Descobriu isso muito tarde... tarde demais.
Três batidinhas leves na porta de seu quarto, que se abre em seguida. Joanne, mãe de Ghillie, apenas coloca a cabeça e metade do corpo para dentro, chamando a filha para o jantar, aborrecendo-se logo em seguida ao ver aquela cena que se tornou tão típica nos últimos dois anos, mas não fazendo qualquer comentário a respeito.
—Vamos descer, Ghillie! Hora de jantar, filha.
—Hã? Ah, sim, já vou descer, mãe...
Joanne Dhu fechou a porta do quarto com uma expressão aborrecida, descendo as escadas de madeira em passos pesados, chamando a atenção do marido que ajudava a postar a mesa do jantar na copa.
—O que foi dessa vez, Jô? – perguntou Faber, terminando de arrumar os últimos talheres junto aos pratos.
—Eu gostaria muito, mas muito mesmo, que fosse qualquer outra coisa do que aquela mesma maldita cena de todo o santo dia!
—Ah, sei... novamente com aquele retrato, não é? Eu já falei para você não se preocupar com isso, que um dia passará... isso foi um imenso trauma para ela!
—Exatamente, Faber! Nossa filha não está bem! Esse 'um dia passará' já tem dois anos! Ela precisa de ajuda! Precisa de terapia!
Ghillie descia as escadas silenciosamente, até ouvir a voz alterada da mãe, parando em seguida e se apoiando no corrimão para ouvir o que ela dizia, embora soubesse exatamente o quê. Há meses que a conversa era a mesma. Ela não queria preocupar os pais e fazê-los sofrer com seu comportamento, mas ela, somente ela, sabia o que a faria mudar, melhorar... e isso era impossível.
— ...já falamos milhares de vezes sobre isso, Joanne! E você sabe muito bem qual é a posição dela a esse respeito! Ela sofre pelas mortes dos amigos, não há como resolver isso! Só o tempo cura coisas desse tipo.
—Há sim, Faber, talvez devêssemos enviá-la a uma clínica de repouso ou até mesmo um spa, um lugar onde ela possa esquecer isso tudo e se socializar um pouco. Pelo-amor-de-deus! Nossa filha está com vinte e dois anos e não tem uma amiga com quem sair, conversar... ela sequer tem um namorado!
—Está dizendo que Ghillie virou uma anti-social, mulher?
—E não é isso? Ela vive da faculdade para casa, de casa pra faculdade! Não sai, não se diverte, sequer assiste a tv ou ouve um rádio... isso não é normal, Faber, não é!
—Não, não é, mas vamos dar mais um tempo a ela... cedo ou tarde isso vai passar, eu tenho certeza. Nossa filha é muito forte, você sabe disso.
Com os olhos cerrados e cabeça baixa, Ghillie solta um longo suspiro de enfado, pensando que talvez os pais estivessem mesmo certos... talvez ela esteja mesmo desperdiçando sua vida... mas saber disso é uma coisa; o que ela sentia e tinha vontade de fazer era totalmente diferente.
Ela voltou a descer as escadas, desta vez ruidosamente, para anunciar a sua chegada. Seus pais estavam terminando de pôr a mesa quando ela adentrou a copa.
—Hoje temos suflê de queijo, douradinho como você gosta, querida... – falava o pai com um sorriso sincero no rosto, enquanto a mãe ainda se mostrava um pouco aborrecida.
—Oh, isso é ótimo pai... – Ghillie respondia sem qualquer entusiasmo, forçando o esboço de um sorriso.
Os três sentavam-se à mesa e serviam-se num silêncio quase incômodo, quebrado apenas pelo barulho da chuva forte de caía naquela noite. Como era em todas as refeições, Ghillie havia colocado muita pouca comida em seu prato, o que incomodava muito a sua mãe.
—Só isso novamente, Ghillie? Você deve estar uns dez quilos abaixo do seu peso ideal... por acaso pretende se tornar manequim, é? – Perguntava a mãe com um palpável tom irônico na voz.
—Até que isso seria uma boa idéia... linda como é, faria muito sucesso no mundo da moda. – Completou marotamente o pai, com seu típico sorriso.
Ghillie retribui o sorriso, mas voltou seu olhar rapidamente para seu prato, onde brincava com a comida.
—Não, não.. quem dera... só estou sem fome hoje.
—Como sempre, aliás, não é Ghillie? – perguntava a mãe, já muito aborrecida.
Faber apenas segurou e apertou levemente a mão da esposa, para que ela parasse de pressionar a menina. Ele sabia que, como mãe, Joanne agia certo, mas ele acreditava que nesse caso precisava mesmo dar mais um tempo à Ghillie. Afinal, eles não tinham uma idéia exata da tragédia dessa guerra... o que eles entendiam por guerra era o que viam na tv, mas nada que pudesse dar uma ideia exata do que seria uma "guerra mágica"... apesar de serem pais de uma bruxa, eles não conseguiam assimilar com precisão tudo que envolvia a magia.
Mesmo a contragosto, Joanne se calou e voltou sua atenção ao seu próprio prato. Ghillie agradecia intimamente por seu pai ser ainda muito mais compreensivo que sua mãe... não que lhe desagradasse a constante intromissão dela em seus assuntos particulares, pelo contrário, sentia-se muito querida e amada por isso, mas não se sentia pronta para contar sobre tudo o que havia acontecido, inclusive sobre a morte de seu primeiro, único e grande amor.
Faber e Joanne conversavam sobre os acontecimentos do dia, já que ambos trabalhavam em consultórios diferentes. Ghillie mantinha-se alheia a tudo, apenas degustando lentamente a sua refeição, até o pai tocar num assunto que lhe chamou a atenção, principalmente por ela estar numa fase em que detestava este tipo de idéia.
— ...então, finalmente, o velho Fish encontrou um inquilino que lhe agradasse... então teremos uma farmácia de manipulação perto de casa!
—Isso é ótimo, os pacientes é que irão adorar isso! Sabe como é, todo mundo tá aderindo a essa moda de naturalismo, coisa e tal...
— ...então estava pensando em oferecer um jantar de boas vindas ao novo vizinho... também seria interessante estreitarmos um laço, comercialmente falando, é claro... afinal, o cliente de um bem poderá ser o cliente de outro!
—Só não vá querer exigir minha presença nesse jantar, está bem, pai? – Finalmente Ghillie quebrou o seu silêncio, lançando um olhar fulminante para o pai.
—Que absurdo é esse agora, menina? Você faz parte da família, como pretende não participar de um jantar na sua própria casa? – Perguntava a mãe, largando o talher sobre o prato e cruzando os braços sobre a mesa.
—Não é nenhum absurdo, mãe... só não quero estar presente em nenhum tipo de comemoração ou coisa parecida. – Ghillie respondia aborrecida, partindo um pedaço do suflê com um pouco mais de força do que deveria.
—Se você fizer isso, Ghillie, deixará a mim e ao seu pai constrangidos perante o convidado... ou prefere que escondamos o fato de termos uma filha?
—Faça como quiser, mãe, eu é que não estarei aqui nesse dia. – Ghillie largou com raiva o guardanapo sobre o prato e levantou-se, saindo apressada para não dar chance de resposta à mãe.
Joanne levou as mãos à testa como apoio à cabeça. Faber acaricia o ombro da esposa, tentando confortá-la. A expressão de ambos é de muito cansaço.
—E você ainda me diz que não devo me preocupar, que devo manter a calma!
—É, e ainda acho que deva ser assim por mais um tempo, Jô.
—Esse medo dela de conhecer novas pessoas, falar com outras pessoas... está se tornando irracional! Sempre que falamos em convidar alguém para um jantar ou um almoço, ela fica dessa forma: hostil!
—Eu sei... ela tem medo de criar novas amizades e vê-las morrer novamente. Vamos esperar só mais um pouco, está bem?
œœ*
Alguns dias se passaram e Ahriman Mainyu já estava totalmente estabelecido com a sua farmácia de manipulação. Não estava sendo difícil conseguir clientela, uma vez que o bairro carecia desse tipo de serviço e comércio. Mesmo estando ainda no princípio, o negócio parecia que daria muito certo. Mas não era isso que o interessava de fato.
Tudo o que queria era reencontrar Ghillie. Seria muito simples e fácil ir até a casa dela, agora que ele sabia onde ela morava graças às conversas quase diárias com o Dr. Dhu. Mas o que tinha de fácil, também tinha de estúpido. As palavras dela, naquela noite no quarto do Forte Danúbio, ainda lhe comprimiam dolorosamente o coração.
Desde então ele ficou muito dividido. Ele sentia que seu amor por ela era correspondido, mas depois de tudo aquilo que ouviu, ele não tinha a certeza que tanto precisava!
Então, a alternativa que lhe restava era essa, desde o fim da guerra: começar tudo de novo, desde o início! Já que só lhe restava o começo, queria mesmo partir do princípio: conhecê-la de novo e tentar conquistá-la.
E talvez ela não tivesse mais o que odiá-lo...
Mainyu limpava e guardava os seus últimos utensílios de preparos dos remédios. Já era início de noite e o Dr. Dhu lhe fazia companhia com uma conversa animada – ao menos da parte dele.
— ... então você é novo até mesmo aqui na cidade?
—Sim... estive fora do país nos últimos dois anos, aprimorando a técnica.
— Hum... seria um jantar de boas vindas em dose dupla, eu diria... – Faber falou num tom mais baixo como fosse apenas para si mesmo, coçando o queixo, pensativo.
—Como, Dr. Dhu?
Faber dá seu sorriso cortês, aproximando-se em dois passos de Mainyu que acabava de lavar alguns recipientes de cerâmica.
—Estive falando com Joanne, minha esposa, e pensávamos em lhe oferecer um jantar de boas vindas nesta sexta-feira... hã... claro, se não tiver nenhum compromisso mais importante!
Mainyu abriu um raro sorriso de satisfação com o convite. Tudo caminhava melhor do que esperava! E não esperava reencontrar Ghillie ainda tão cedo! Agora, a menos de duas semanas que chegara à Inglaterra, estava prestes a revê-la em sua própria casa!
—Sequer sonharia com tal desfeita em recusar um convite de boas vindas! Estou honrado com sua gentileza. Muito obrigado.
—Ora, não seja tão formal, Sr. Mainyu... é apenas um jantar em família, mas que espero que aprecie muito.
—Certamente que sim!
—E se não se importa, será algo bastante informal, coisa de família mesmo. Serão apenas você, eu e minha esposa... duvido muito que minha filha vá querer participar do jantar. – Faber terminou a frase quase num sussurro, desviando-se até a janela da farmácia, olhando a rua para se distrair. Qualquer coisa que o fazia lembrar do atual estado psicológico da filha lhe causava uma grande tristeza que mal conseguia disfarçar.
Mainyu sentiu gelar por dentro... algo que ele não havia cogitado até então era a possibilidade de Ghillie não estar realmente bem, com sequelas da guerra. Justo ele, sempre tão frio e calculista, não havia se permitido pensar em qualquer coisa negativa em relação ao estado de Ghillie. Esperava reencontrar a moça como ela sempre fora: feliz, alegre, cheia de vida... tola ingenuidade!
—Sua filha? Algum problema com ela? – Perguntou vacilante.
—Sim... quer dizer, não... bem, coisas da idade, entende? Ela é uma menina maravilhosa, mas não está sabendo lidar com algumas situações, responsabilidades, coisas desse tipo.
Faber se desviou da janela para olhar de relance o farmacêutico, encontrando em seu rosto uma expressão de tristeza e preocupação, que o fez tentar consertar o que acabava de falar. Uma coisa que jamais poderá fazer em sua vida é comentar o fato de sua filha ser uma bruxa e sobrevivente de uma guerra que nenhum outro lugar no mundo presenciou além do próprio mundo bruxo.
— ...creio que seja paranóia de pai, sabe? Quando se têm filhos, qualquer coisinha que acontece a eles parece que o mundo vai acabar! Se eles dão um espirro você já pensa em pneumonia, se eles gritam ou choram você se desespera e se ficam calados por muito tempo você se desespera ainda mais!
—Acho que entendo o que quer dizer... – Mainyu voltou seu olhar cabisbaixo para o balcão onde arrumava seus utensílios. Seu semblante estava mergulhado numa tristeza profunda e agora sentia, mais do que nunca, a necessidade de estar junto de sua amada.
œ*
Sexta-feira. Ghillie costuma chegar da faculdade por volta das sete da noite, por causa de alguns tempos extras de aula. Logo ao abrir a porta, se depara com deliciosos aromas vindos da cozinha, mas que perdeu o interesse segundos depois, assim como era com tudo.
Chegou até a entrada da copa-cozinha e encontrou Joanne e Faber ocupados com vários afazeres. Ghillie mal notou a mesa bem arrumada, com uma decoração mais requintada. Apenas cumprimentou os pais e se retirou rapidamente para seu quarto.
Na cozinha, os pais se entreolharam, com certa tristeza.
—Você não acha que deveríamos ter contado sobre o jantar bem antes, Faber?
—Que diferença iria fazer, Jô? Ela só iria ficar aborrecida com antecedência... assim, ao menos, temos a chance d’ela acabar aceitando em participar do jantar conosco!
—Sei não... é melhor eu ir falar com ela o quanto antes.
Ghillie já tinha entrado no banho quando sua mãe sobe até o quarto, para tentar convencê-la a participar do jantar de boas vindas ao novo vizinho comercial de seu pai. A mulher sabia que seria inútil, mas precisava, ao menos, deixar a filha sobreavisada.
Joanne entrou na suíte, onde Ghillie relaxava dentro de uma banheira de água quente.
—Filha.. posso falar com você um instantinho?
—Claro, mãe... algum problema? Vi que vocês estavam aprontando na cozinha... estamos comemorando algo? Não é aniversario de casamento de vocês, é? Ou será que finalmente vou ganhar um irmãozinho?
A mulher riu com o aparente bom humor da filha, sentando-se na beirada da banheira. Ghillie mantinha o esboço de um sorriso nos lábios. O vapor quente que subia corava as faces dela, dando-lhe um saudável tom rosado à pele.
—Errou todas, querida... e acho que estou na idade de ser avó e não mãe de novo.
—Isso foi alguma indireta? Olha que isso não vai funcionar comigo, heim?
—Pode interpretar isso como uma alfinetada, sim! Mas vim falar de outra coisa e fico aliviada que pelo menos você tenha percebido que estamos preparando algo especial para esta noite.
—Também não estou assim tão alienada a ponto de não notar algo diferente dentro da minha própria casa! E aí, vai ficar enrolando muito ou vai me contar o que você e papai estão preparando de tão especial assim?
—É um jantar... um jantar de boas vindas que seu pai ofereceu ao novo vizinho dele, o tal que abriu a farmácia de manipulação.
—Aaah, não, que ótimo! E por que vocês não me avisaram antes? Eu não teria sequer vindo pra casa!
—Ghillie! Não diga isso! Você iria fazer o quê? Ficar zanzando pelas ruas até de madrugada?
—Poderia passar a noite toda pelas lojas e livrarias do centro que ficam abertas vinte e quatro horas! Aliás, é isso mesmo que vou fazer!
Ghillie levantou-se abruptamente da banheira, respingando água na perna da mãe. Enrolou-se numa longa toalha rosada com flores bordadas e saiu rapidamente para o quarto, sob protestos da mãe.
—Você está sendo infantil, Ghillie! Custa muito você tentar ser o mínimo cortês com um convidado do seu pai?
—Custa sim, mãe, custa muito! Não entende que não quero ver a cara de ninguém, não quero conhecer ninguém? Já me basta ser obrigada a conviver com aqueles idiotas lá da faculdade! Não quero ter contato com mais ninguém além do necessário!
Ghillie já estava quase completamente arrumada, com uma saia jeans longa até os tornozelos, um twin-set listrado de lã em tons de sépia, e tênis. Escovava de qualquer jeito seus cabelos, prendendo apenas a parte da frente com uma larga faixa de mesmo padrão do casaquinho, pegando sua mochilinha e jogando-a nas costas.
—Ghillie! Não faça essa desfeita, filha! Está frio lá fora! Pode ser perigoso ficar andando pelas ruas a esta hora da noite!
—Não me importa! Se tivessem me contado antes, eu teria me programado melhor! Isso foi golpe baixo, sabia?
Ghillie descia às pressas a escada, voando para a porta de entrada quando a campainha é acionada. A moça solta um muxoxo de raiva, abrindo a porta apressadamente. Quanto antes ela saísse dali, menos falta dariam por ela! E o tal convidado poderia se contentar com uma desculpa qualquer de seus pais, isso não era problema dela!
— Se veio falar com o Sr. Faber, ele está lá na cozinha. Agora, com licença que eu tenh...
Quando finalmente encarou a pessoa que estava à sua porta, Ghillie sentiu o coração falhar e a respiração cessar. O corpo fraquejou de repente e ela teve que se apoiar no batente da porta, para que não desabasse no chão.
Diante dela um homem ainda jovem, trajando um sobretudo negro. Os cabelos, agora bem mais curtos e alinhados, eram tão negros quanto seus olhos. Olhos que possuíam um brilho ímpar, uma expressão de felicidade e carinho. Na tez morena se desenhava um sorriso sincero, o mesmo sorriso que viu nesse mesmo rosto há dois anos atrás, naquela alcova em que quase se amaram.
—Boa noite, Srta. Dhu... é um grande prazer reencontrá-la depois de tanto tempo! – A mesma voz macia e firme, mas desta vez com um tom não de sarcasmo, mas de muita ternura.
Ghillie não conseguia pronunciar qualquer palavra, sequer conseguia crer que aquele momento estava mesmo acontecendo de verdade. Devia ser um sonho, só podia ser um sonho! Aquilo seria perfeito demais! Seria maravilhoso demais! Aquilo chegava a ser divino!
Levou as mãos ao rosto. Os olhos cor de mel brilhavam em rasos d'água. A respiração ofegante fez com que suas palavras saíssem sussurradas e falhas de sua boca.
—Ahriman... isso.. isso está mesmo acontecendo? Você está aqui? Você está mesmo aqui...?
A emoção era tamanha que só era possível para Mainyu sorrir o seu mais belo e raro sorriso de satisfação. Não era mais sonho: era cru, real, concreto! O maior desejo de ambos se tornava realidade naquele momento.
Não havia mais qualquer medo ou receio e tudo que eles queriam era ter um ao outro, sentir fisicamente a presença real um do outro. Ghillie enlaçou com fervor ao pescoço de Mainyu, que retribui o abraço prontamente, apertando-a com força contra seu corpo, para tentar senti-la o máximo possível por inteira, para ter a plena certeza de que não era mais um sonho, que desta vez era mesmo realidade.
Entre lágrimas e sussurros, Ghillie externava tudo aquilo que vinha em seu coração há tantos e tantos anos! Finalmente havia chegado esse dia, o dia em que se entregaria completamente ao seu grande amor, sem se preocupar com qualquer coisa que pudesse interferir e mantê-los separados.
E um beijo longo e apaixonado selaria aquele romance que tanto sofreu para existir, que resistiu à guerra e ao tempo. E nada mais os separariam, nada mais os fariam mentir e esconder seus sentimentos...
Quando tudo havia terminado, apenas o amor resistiu ao fim...
E o que restou foi apenas o começo...
E finalmente eles começariam novamente suas vidas e, desta vez juntos e para sempre!


Venha, meu coração esta com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça:
Venha, que o que vem é perfeição...
(Perfeição – Aldir Blanc)




œFIM
 Escrito em 2004. Remasterizado em 2012.

Só Resta o Começo - Conto em 5 partes, do livro "Romances em Fragmentos".

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