The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos

Só Resta O Começo

Quarto Ato: Lápides e Flores.
Dois anos.
Dois anos já se foram desde a última batalha entre Luz e Treva. Mais de setecentos dias sem as pessoas queridas. Mesmo a esperança não sobrevive a tanto tempo quando todos os fatos mostram de que nada ela adianta.
Num campo a quase se perder de vista, várias lápides em mármore branco se alinhavam formando uma perspectiva geométrica da grande tragédia que desestruturou completamente o Mundo Magnífico. O vento frio corria entre os blocos de pedras, brincando com a relva rasteira e algumas flores que insistiam em surgir entre os túmulos.
As árvores seculares da Floresta Dourada faziam-se guaridas para aquele cemitério de pessoas e destroços. Heras cobriam as ruínas do Instituto Hermes Trimegistus. Pequeninas árvores cresciam protegidas pelos escombros. Pássaros e pequenos animais faziam ninho onde antes fora um templo milenar de aprendizado. Mesmo em meio à morte, ironicamente a vida sempre surge. A vida sempre encontra seus meios de resistir e insistir.
Um imenso bloco de mármore negro erguia-se imponente no fim daquele cemitério, como fosse um guardião a zelar pelo descanso eterno de seus habitantes. Forjado em ouro havia o brasão de Hermes Trimegistus que encabeçava uma lista quase interminável de nomes... de todas as vítimas daquela guerra, dos que habitavam ou não aquele cemitério.
Um véu negro de esmeroso bordado se precipita com o vento, indo brincar entre as últimas lápides. Cachos longos e acobreados pousavam libertos pelos ombros daquela jovem de semblante tão triste.
Diante do bloco de mármore, ajoelha-se sobre a grama, depositando um grande buquê de flores brancas, erguendo-se novamente e postando-se firme diante daquela pedra negra e fria.
Seus delicados dedos percorriam pelas letras auto-relevadas em ouro, que formavam os nomes daqueles que lhe foram mais queridos em vida. Os nomes dispostos em ordem alfabética, e ela os lia seguida das lembranças dos momentos que compartilhou com cada um deles.
Laïs Luperco . . . Nelson Marillac . . . Roland Blanchot . . . Rosali Rendu . . . Thomas Dobermann . . . . . Ahriman Mainyu… seu nome sequer ali estava impresso, nem ali ela o encontraria! Seria isso algo bom, um tênue fio de esperança? Ou seria o vago que lhe restara, o nada para lembrar de sua existência, uma existência que se evaporou como uma leve neblina que sequer foi perceptível?
Recostou a testa no frio do mármore, cerrando os olhos, deixando sua mente e seu espírito vagar junto à brisa que soprava insistentemente, que brincava com seus longos cabelos e seu vestido negro que lhe cobria todo o corpo.
Mas às suas costas parecia surgir uma brisa morna, aconchegante. Rastos leves roçavam a gramínea. Uma áurea que transbordava luz preenchia de calor aquele ambiente frio e triste, silencioso e vago. Uma voz macia e terna a chamar seu nome...
— Ghillie...
A garota postou-se ereta e virou-se para voz. Um leve sorriso formou-se em seu rosto e ela precipitou-se até a pessoa que ali estava, também lhe sorrindo. Abraçou-lhe com fervor, como se abraça um pai ou irmão que há muito não se via. E ambos permaneceram ali, um nos braços do outro, por eternos segundos.
E o vento corria cada vez mais voraz, farfalhando as copas das árvores, varrendo a relva ondulante, espalhando pétalas e folhas por todos os lugares. No horizonte onde surgiam montanhas azuladas, o sol enviava seus últimos raios dourados naquele fim de tarde de outono, derretendo em ouro densas nuvens que cobriam como um manto o topo dessas mesmas montanhas.
Como se dançasse em volta, a brisa brincava de ir e vir com as vestes e cabelos longos daqueles dois personagens que destoavam naquela paisagem melancólica entre lápides e flores.
Arcoverde beija a testa de Ghillie, pousando-lhe as mãos sobre sua cabeça. Ela sorri um sorriso triste, as lágrimas davam um brilho adiamantado aos olhos cor de mel da moça.
—Que bom revê-la, criança...
—Eu digo o mesmo, Professor... e como vão as flores?
—Oh, belas, belas... germinando, crescendo, desabrochando para a vida. Se deixarmos que a Natureza faça seu trabalho sossegada, a vida é realmente flui e se torna bela e simples de compreender...
œœ*
—Eu sabia que o acaso me arranjaria um meio, uma vez que lhe dei todas as bases.. embora eu tenha esperado mais do que gostaria de ter feito!
Um homem esbelto de cabelos negros e curtos olhava atentamente para a placa sobre um consultório com um sorriso jovial nos lábios. No andar de cima da loja, outra placa na janela indicava que a sala estava sendo alugada. Era tudo o que queria.
O bairro quase totalmente residencial era calmo e hospitaleiro. Havia pouco tráfego nas ruas e poucas lojas existiam naquele quarteirão, cuja maioria das construções era em estilo vitoriano. Algumas árvores bem podadas encarregavam-se de dar um pouco de cor e beleza às ruas. O dourado das folhas oxidadas formava um degrade que se repetia também no chão de pedras bem postas que formavam desenhos circulares nas calçadas.
Enquanto aquecia as mãos nos bolsos do sobretudo bege que trajava, o homem, ainda sorridente, continuava a apreciar aquele nome escrito em letras pequenas na placa que indicava que a loja abaixo tratava-se de um consultório dentário... “Dr. Dhu – Cirurgião Dentista”.
Dhu... o sobrenome que lhe trazia recordações, o sobrenome que aprendeu a apreciar, o sobrenome da única pessoa que amou profundamente em toda a sua vida.
—Se isso não for obra de Merlim, eu não sei mais o que poderia ser... mas essa loja será minha, nem que eu tenha que usar magia para persuadir o proprietário.
Anotando o número do telefone indicado na placa do aluguel num pequeno caderno com capa em couro, o homem, antes de se retirar, ainda dá uma última olhada para a placa do consultório dentário, e partindo logo em seguida, ainda com um sorriso em seu rosto.
Sentia que finalmente havia chegado a hora de recomeçar de fato sua vida... sentia que se aproximava o dia em que teria Ghillie Dhu finalmente para si. Era tudo novo, outros tempos, e não havia nada que pudesse impedir de ambos se aproximarem.
œ*
O tempo estava nublado e frio. Uma chuvinha fina e insistente caia sem parar, mas isso parecia não tirar o ânimo daqueles trabalhadores que carregavam pesadas peças de móveis a serem montados para o segundo andar do pequeno prédio comercial.
Um homem alto e magro, de cabelos negros e curtos, observava de perto toda a movimentação, aparentemente satisfeito com a forma eficiente que os trabalhadores faziam o serviço. Afinal, ele não poderia exigir muito daquelas pobres criaturas infelizes que eram obrigadas a trabalhos braçais por não disporem de magia.
Quando os dois últimos homens subiam cautelosamente carregando algumas vidraças para o que viria a ser o balcão e as prateleiras, Ahriman Mainyu preparava-se para também subir e fiscalizar a montagem de seus móveis, quando um carro pára próximo ao caminhão de mudança apenas para deixar seu passageiro e segue novamente seu rumo.
O homem que saltara do carro, aparentava entre 45 e 50 anos, e trajava roupas brancas debaixo de um casaco de lã marrom. Observou com curiosidade o caminhão parado em frente ao seu consultório, vendo que a movimentação era na loja do segundo andar, logo acima da sua.
Mainyu observava o homem, notando algumas familiaridades, como a forma curiosa de observar as coisas, o olhar aguçado que dava um ar inteligente e o sorriso otimista no rosto de quem já sabe dos fatos apenas por ver meras evidências.
Ele já tinha quase certeza de que se tratava do pai dela... no mínimo, algum parente próximo, mas com certeza com o mesmo sangue que o dela.
E aquilo lhe deu uma sensação de alegria que há muito tempo não sentia.
Dr. Dhu finalmente focalizou o rapaz esbelto e sisudo que parecia observar-lhe. Sem se intimidar, aproximou-se do estranho, com um sorriso cortês no rosto e a voz amigável.
—Bom dia! Então é o senhor que será o nosso novo vizinho?
—Oh, sim.. creio que sim.
—Bem, sou Faber Dhu, o cirurgião dentista daquele consultório ali... – dito isso, o Dr. Dhu apontou o polegar para sua loja, estendendo a mão em cumprimento a Mainyu logo em seguida. —É bom saber que o velho Robert Fish finalmente encontrou um inquilino que corresponde às suas exigências.. essa loja estava há muito tempo para ser alugada!
—É, sim, Sr. Fish, o proprietário, é um homem muito exigente sim, mas não foi tão difícil convencê-lo de que eu seria um bom inquilino... - “não quando se é persuadido com um pouco de magia, aquele velho gagá!”. ¾ A propósito, sou Ahriman Mainyu, farmacêutico.
—Oh, um farmacêutico? Isso é excelente! Muitos de meus pacientes me pedem que eu receite medicamentos homeopáticos aos alopáticos... é um ramo que tem se desenvolvido muito. Tenho certeza que terá muitos clientes. Há um clínico geral que só trabalha com homeopatia, a uns dois quarteirões daqui.. seria interessante conhecê-lo qualquer hora dessas.
“— Incrível, até a loquacidade é a mesma!” —É, eu realmente espero ter muitos clientes.
—E terá, meu caro, com certeza. Agora, se me der licença, preciso ir para o consultório antes que minha assistente tenha um chilique com meu atraso. Ela é terrível, mas muito eficiente! Qualquer coisa, estamos aqui. Seja bem vindo e boa sorte com a arrumação! – O Dr. Dhu já se adiantava para seu consultório, dando um tchauzinho para Mainyu por sobre o ombro, sem esperar pela resposta do novo vizinho.
Mainyu ficou observando o dentista até que ele desaparecesse porta adentro de seu consultório, quando girou em seus calcanhares rumo a pequena escadaria do prédio. Com um sorriso satisfeito no rosto, murmurou para si próprio...
—Certamente que Faber Dhu é o pai de Ghillie... o começo está cada vez mais próximo... muito obrigado, Merlim!

Só Resta o Começo - Conto em 5 partes, do livro "Romances em Fragmentos".

Só Resta o Começo
Terceiro Ato – Desistência.
Meio ano já havia se passado desde o fim da guerra entre Luz e Trevas. O Mundo Magnífico, aos poucos, ia se restabelecendo. Muitos bruxos, principalmente os que tinham alguma ligação com o mundo não-mágico, abandonaram tudo e partiram para viver entre os Incônscios. Havia ainda muita mágoa e muitos traumas por parte de todos.
Famílias tradicionais foram dizimadas. O orgulho caído por terra. Sobreviventes formavam novos laços para dar continuidade à família e a pureza da raça. Muitos deixaram o orgulho e a honra de lado e foram recomeçar a vida em outro mundo.
Numa cabana recentemente reformada, mas de aspecto antigo, uma moça descansava recostada numa grande poltrona estofada, depois de um dia inteiro de andanças. Lia um pequeno pedaço de pergaminho, que fora trazido por um Silfo, que tinha alguma plumagem esbranquiçada nas asas, demonstrando que já estava velhinho. O velho Elemental também descansava sobre o encosto da poltrona.
Com um suspiro de enfado, Ghillie deixou a mão que segurava o pergaminho cair pesadamente sobre o colo enquanto jogava a cabeça para trás. Manteve os olhos fechados por alguns minutos. A moça estava mais magra, a pele e os cabelos sem viço, os olhos opacos em profundas olheiras. A sua desesperada busca por Ahriman Mainyu estava lhe tirando o pouco da vivacidade que ainda lhe restava.
—Nada... absolutamente nada...
Ghillie leva a mão sobre o rosto. Seu semblante cansado e triste se desmanchou numa expressão de angústia. Soluçando, tentava em vão deter suas lágrimas. Tinha sido forte até então, desde o fim da guerra. Mas a cada dia que se passava mais a esperança abandonava o seu coração. Preferia a própria morte a admitir de que seu grande amor estava morto.
Deslizou o corpo até deitar-se no sofá, usando os próprios braços como travesseiro. Encolhia-se como um embrião, a fim de se proteger de um frio inexistente naquela época do ano. Não queria mais conter suas lágrimas que caíam dolorosamente. A dor era a constatação de que nada mais havia o que ser feito. Ela estava começando a admitir que Ahriman não mais existia.
O choro apenas se intensificou ao perceber que já não tinha mais qualquer esperança de encontrá-lo vivo, novamente. Ela fez de tudo, procurou em todos os lugares do Mundo Magnífico, contatou todas as pessoas que podia, até mesmo quando encontrava bruxos e bruxas que ela sequer conhecia pelas ruas. Gastou quilos de papel em cartas... e nada! Em nenhum lugar Ahriman Mainyu era encontrado. Ninguém sabia de seu paradeiro.
Muitos morreram na guerra. Nunca existiu tantos túmulos no Mundo Magnífico como agora. Mas muitos também haviam desaparecido sem deixar qualquer vestígio, como se tivessem virado pó, assim como virou o maior causador daquele holocausto: Anthrax.
E no fim ele cumpriu sua promessa. Anthrax destruiu o Mundo Magnífico. A maioria dos bruxos que morreu foi de mestiços e Despertos.
O forte pranto de Ghillie foi interrompido por duas batidas leves na porta de madeira envelhecida, e esta se abriu logo em seguida, dando entrada a uma senhora muito idosa, alta e robusta que carregava uma cesta de vime coberta com um pano branco de pequenas estampas.
Ghillie levantou-se do sofá secando o rosto das lágrimas que ainda caiam. A senhora colocava a cesta sobre a mesa de centro próxima à poltrona, e olhava tristemente para a moça de aspecto doentio.
— Sra Marillac... não era preciso se incomodar! A senhora está tendo muito trabalho comigo! Eu... eu não preciso... eu estou bem, juro!
— Criança... não vê que está definhando dia após dia? – Com uma expressão muito doce e triste ao mesmo tempo, a velha senhora leva a mão forte sobre a cabeça de Ghillie, acariciando-lhe os cabelos secos e desgrenhados.
— Eu não tenho mais porque continuar... eu gostaria de ter morrido junto com todos durante a guerra.
— Não diga isso, filha! Você ainda é tão jovem... – A Sra Marillac sentava-se no sofá onde antes Ghillie havia se deitado. — Há muito ainda para se viver, querida!
— Mas... sem as pessoas que tanto amo, de que vale continuar vivendo? Estou tão cansada... cansada de sentir essa dor!
As lágrimas voltavam a cair em abundância. Ghillie mantinha a mão na boca, tentando silenciar-se. Marillac passou o braço por sobre os ombros da moça, puxando-a para junto dela e a deitando em seu colo.
Ghillie encolheu-se, soluçando baixinho sobre o colo da idosa, que se detém por alguns minutos em acariciar-lhe os cabelos, deixando que a ela chore tudo que precisava chorar, esperando pacientemente que ela se canse e se acalme.
Distraindo-se nas tramas da cesta posta diante dela sobre a pequena mesa retangular, suas lembranças vão se firmando através do entrelaçamento do vime, a remetendo para um tempo não muito longe, mas que parecia, agora, pertencer a uma outra existência.
œ*
A guerra estava em sua plenitude. Havia muitos ataques e muitos já tinham tombado até então. Uma atmosfera pesada e pessimista pairava sobre todos que estavam presentes diante daquela enorme mesa antiga de madeira. Thomas Dobermann, Juliano Blanchot, Evangelina Dracena, alguns de seus antigos colegas de escola, o Sr e a Sra Blanchot... Ahriman Mainyu recostado à parede. Casimiro Arcoverde, numa expressão muito séria e fechada, mantinha-se calado após pronunciar a última estratégia de contra-ataque.
Tudo estava um caos. Tudo estava fora de controle. A violência e insanidade devoravam o mundo bruxo. Não havia outra estratégia de combate que o contra-ataque suicida. Teriam que enfrentar as Trevas frente a frente. Teriam que se defrontar na mesma proporção de violência e insanidade. Era uma época insana e era necessário manter-se no mesmo nível do inimigo para derrubá-lo.
Ghillie estava tão centrada em sua angústia, em seu sofrimento antecipado, que não percebia um par de olhos negros que a fitava com carinho e tristeza. Ela fazia parte daquele grupo seleto de bruxos kamikazes que enfrentaria as forças de Anthrax no mano a mano. Ela era um dos poucos bruxos do mundo mágico que poderia executar tal missão com algum sucesso.
Olhava tristemente o tampo de madeira da mesa. Tudo que passava por sua mente eram os últimos dias em que esteve com seus pais antes de partir para essa guerra. Lembrava-se dolorosamente da tristeza e desespero deles. Ela era a única filha, a razão e orgulho na vida de ambos.
— Seria tão bom se papai e mamãe tivessem outra filha... não foi falta de pedir um irmãozinho... – Dizia quase num sussurro, mas com o silêncio mórbido que reinava naquela sala, o sussurro foi ouvido claramente por todos os presentes, que desviaram sua atenção para a jovem de apenas vinte anos.
— Por.. por que está dizendo isso querida? – Falava-lhe Marie Blanchot, pondo as mãos carinhosamente sobre os ombros tensos de Ghillie.
A menina olha por sobre o ombro, para alcançar a expressão amarga da boa Sra. Blanchot. Intoxicada pela insanidade que já começava a afetar todos que lutavam naquela guerra, Ghillie respondia num tom tristemente alegre, com um largo sorriso nos lábios.
— A senhora e o Sr. Blanchot têm sorte por terem tantos filhos... gostaria que meus pais tivessem essa mesma sorte, mas minha mãe não pôde mais engravidar.
— Sim, querida, mas seus pais têm muita sorte de tê-la como filha... e tenho certeza de que têm muito orgulho de você. – Marie forçava um sorriso, tentando passar confiança à moça. — Acha que eles podem estar decepcionados com você, de estar aqui ao invés de com eles? Tenho certeza de que eles compreendem e orgulham-se disso.
Ghillie volta seu rosto para o tampo da mesa e acena negativamente com a cabeça, ainda mantendo o sorriso no rosto.
— Não é isso... sou a única filha deles... como pai e mãe, eles terão perdido tudo quando eu morrer.
Thomas soca a mesa com as duas mãos, levantando-se furiosamente da cadeira, deixando-a cair, fazendo um baque agudo que ecoou por todo o ambiente.
— VOCÊ NÃO VAI MORRER! – Gritava Thomas, debruçado diante de Ghillie, sobre a mesa.
— Não existem garantias para isso, Thomas. É mais certo se acreditar nisso do que... – Ghillie respondia com a maior calma do mundo, com seu sorriso infantil no rosto, quando foi interrompida pela Sra. Blanchot, que a abraçou por trás, tampando-lhe a boca com uma das mãos.
— Não diga mais isso, filha! Nunca mais! Todos nós viveremos, todos estaremos bem muito antes do que imagina. – Algumas lágrimas rolaram da face de Marie, caindo sobre o ombro da menina. Ghillie, muito carinhosamente, acariciou o braço daquela senhora, afastando a mão de sua boca.
Quando se viu liberta dos fortes braços da Sra. Blanchot, Ghillie levantou-se calmamente. Mantinha a expressão serena e o esboço de um sorriso. A essa altura ela já havia aceitado o seu destino.
Todos apenas observavam curiosos a moça apontar o Bastão Magístico para a mesa e conjurar uma caixa simples de papelão. Guardando o Bastão, retira com as duas mãos a tampa da caixa, deixando a mostra apenas o fundo vazio.
Saca uma adaga escondida nas costas sob a veste. Todos se sobressaltam com isso, mas Ghillie mantém a mesma expressão serena de antes. Levando a mão esquerda atrás da cabeça, segura firmemente seus belos cachos sedosos e brilhantes que estavam presos num rabo de cavalo.
Com a mão direita que segurava a adaga, num movimento rápido e ágil, corta num só golpe seu longo cabelo encaracolado, deixando-os curtos, na altura da nuca.
Todos se sobressaltam ainda mais com a atitude de Ghillie. Apreensivo, Mainyu aproxima-se da mesa, olhando com desconfiança para ela. Marie dá um gemido baixo enquanto Thomas encara a amiga com olhos arregalados, incrédulo.
— Você está maluca, Ghillie?!
— Maluca, Thomas? E quem não está louco com tudo isso?
— Por que fez isso? – Depois de alguns minutos em silêncio, Casimiro Arcoverde externa sua voz mais uma vez, mas, ao contrário de todos naquela sala, mantém seu ar sério, intocado.
— ...se eu morrer, talvez isto seja a única coisa que restará de mim... talvez não haja um corpo para meus pais enterrarem, mas haverá esta parte de mim.
Ghillie depositava com cuidado seus longos cachos dentro da caixa negra vazia, como algo muito precioso de si. Pegando papel e caneta, escreve uma pequena carta e a coloca sobre os cabelos, fechando a caixa em seguida, conjurando um feitiço para que está seja aberta apenas por seu pai ou sua mãe.
— Somos kamikazes, não somos? Como minhas unhas estão tão curtinhas, então mando meus cabelos... agora que eles finalmente ficaram bonitos e bem tratados, seria um pena que se dissolvessem junto comigo em algum ataque.
Dito isso, Ghillie caiu numa gostosa gargalhada, totalmente alheia à gravidade do que dissera. Todos estavam pasmos, inclusive Arcoverde e Mainyu, que segurava firmemente o tampo da mesa, impedindo a si mesmo de ir até ela e envolvê-la em seus braços.
A moça logo pára de rir, mas mantém um sorriso alegre no rosto. Definitivamente, naquele instante, ela estava totalmente alienada de tudo, havia atingido o grau máximo da insanidade.
Pegou a caixa e abraçou-a contra o peito. Pediu licença aos presentes para se retirar, dizendo que iria enviar a caixa por teletransporte dentro de instantes. Ninguém havia pronunciado nenhuma palavra. Marie Blanchot chorava copiosamente, seu instinto materno gritando mais alto. Os amigos de seus filhos eram como seus próprios filhos, e com Ghillie não era nada diferente.
Thomas jogou-se sentado no chão, encostando-se na parede. Leva as pontas dos dedos abaixo dos óculos redondos, prensando com força os olhos, tentando impedir que as lágrimas rolassem, mas não conseguindo suplantar seus soluços.
Mainyu gira em seus calcanhares, desaparecendo daquela sala e da vista de todos.
œœ*
Ghillie estava sentada sobre as pernas em sua cama, com os braços apoiados no batente da janela, apreciando a noite nublada que já ia alto. Ao longe, um vulto desaparecia pela negritude do céu. Ela já havia despachado a sua herança para os pais.
Encontrando a porta entreaberta, Mainyu observou a moça entretida olhando para fora da janela. O quarto estava mergulhado na penumbra, iluminado apenas por um pequeno lampião e pela pouca luz que vinha do exterior. A pequena labareda do lampião brincava com as sombras e jogava feixes dourados sobre a moça que ainda não tinha percebido a chegada de alguém.
Ela havia retirado seu balandrau e estava trajando apenas um leve vestido branco de alças finas e tecido delicado, cuja maciez pousava sobre as curvas bem definidas. A saia estava levemente levantada, deixando à mostra a perna bronzeada e bem torneada dela.
Mainyu respirou fundo, fechando os olhos para controlar seus impulsos. Dá duas batidas de leve no porta já aberta, chamando a atenção da garota.
Ghillie virou-se rápido pelo barulho inesperado. Seu coração batia freneticamente, a princípio pela surpresa, mas os batimentos se intensificaram ao ver de quem se tratava.
— M-Mainyu? O que houve?! – perguntou um pouco nervosa. De todas as vezes que Mainyu se dirigiu a ela, sempre fora para passar instruções, mas aquela era a primeira vez que ambos estavam a sós desde que a guerra iniciara.
— Não é nada, senhorita... já enviou a caixa aos seus pais? – Entrando cautelosamente no quarto, Mainyu está igual ou até mais nervoso com a situação do que Ghillie, embora ele não demonstrasse isso externamente. Seu coração batia tão forte que poderia jurar que o estava ouvindo.
— Sim, já... – Ghillie voltava-se novamente para a janela, desviando o olhar de Mainyu. Ela não poderia deixar transparecer o que vinha dentro de si, sequer poderia demonstrar a alegria que sentia naquele momento por ele estar ali, tão próximo dela... definitivamente, o momento em que todos estavam vivendo não era o mais apropriado para deixar que sentimentos aflorassem. Já era doloroso o suficiente ver tantas pessoas, muitas até desconhecidas, tombarem naquela guerra, quanto mais perder um grande amor para os braços da morte numa batalha.
Essa era uma das poucas vezes em que Mainyu não sabia exatamente o que fazer, quando estava na presença daquela garota. — Vejo que já está totalmente preparada para o que está por vir... e parece ter aceitado de bom grado o seu destino... – Não era a melhor coisa a se dizer, mas era tudo que poderia falar naquele momento, embora tudo que quisesse era tê-la em seus braços, beijá-la e amá-la ali mesmo naquela pequena cama, naquela hora.
Sentou-se sobre uma das pernas na cama, próximo o suficiente de Ghillie para tocá-la, mas longe demais daquilo que realmente queria. A moça mais uma vez desviou seus olhos da noite escura e encaravou com certo receio o homem sentado em sua cama.
Naquele momento sentiu seu coração falhar em uma batida. A respiração difícil doía em sua garganta. Uma batalha quase tão terrível quanto a que estavam envolvidos era travada em seu íntimo: a de se entregar naquele momento àquele homem que tanto amava, e seu outro lado, totalmente ensandecido, o mesmo que enviara aos pais seus cabelos julgando veemente que seriam a única coisa que restaria de si após a batalha, a fazia querer enxotá-lo dali, esbravejar por ele estar invadindo a sua intimidade naquela alcova.
Após alguns breves segundos de surpresa e silêncio, Ghillie respira fundo, controlando seus ímpetos. Um leve sorriso afetado forma-se em seu rosto bronzeado.
— Dr. Spok falou que o bem estar de muitos vale mais que o bem estar de um único ser...
— Quem?
— Star Trek... é um seriado antigo.. coisa de Incônscios, sabe... vida próspera e longa – a isso, Ghillie faz a típica saudação volkana, juntando os dedos do meio com os das extremidades. Mainyu riu, desviando seu olhar para a noite que se derramava após a janela.
— Um por muitos... vida longa e próspera... interessante. É o que nós fazemos, não é mesmo? Nos sacrificamos pelo bem estar de todo o resto.
— É, mas não teremos vida longa e próspera... – Ghillie voltava a apoiar os braços no batente da janela, descansando o queixo sobre eles, olhando tristemente para as nuvens ora recortadas pelo luar escondido sobre elas.
— Teremos sim, Ghillie... tudo isso logo acabará e sairemos bem dessa. Ao menos, alguma vez nessa vida, temos que ter essa sorte!
Mainyu erguia a mão, levando-a aos cabelos, agora curtos, de Ghillie. A garota sobressaltou-se com o gesto. Naquele momento, seu coração finalmente parou. Olhou assustada para seu ex-adversário em Hermes Trismegistus, encontrando no rosto dele uma expressão totalmente desconhecida. Seu semblante estava plácido, que lhe dava um aspecto jovial, quase de menino, e seu olhar continha muita ternura.
— Até que a senhorita ficou muito bem de cabelos curtos...
Acariciando os cabelos de Ghillie, Mainyu desliza a mão até o pescoço, trazendo-a levemente para mais perto de si ao mesmo tempo em que aproxima seu rosto do dela. Com a mão livre, laça a cintura da garota, trazendo-a para junto de seu corpo.
— Seria redundância dizer que eu a amo, Srta. Dhu?
A frase sussurrada terminou num sorriso, que iniciou um beijo apaixonado. Mainyu a envolvia ainda mais em seus braços. Ghillie não foi capaz de esboçar qualquer reação, sequer retribuía ao beijo.
Em sua mente passava um turbilhão de pensamentos que se chocavam e se confundiam. Várias emoções inundavam em seu coração... e havia o medo. Medo de que aquilo estivesse mesmo acontecendo. Medo de que seu maior sonho estivesse se realizando... a de que Ahriman também a amava.
Mainyu puxou a garota para mais perto, deitando-a em seu colo. Era loucura o que fazia, ele sabia muito bem disso, mas sentia que se não o fizesse, talvez nunca mais teria outra chance. Queria deixar bem claro o quanto a amava. Queria dar-lhe um grande motivo para manter-se viva.
Ele a beijava com certa urgência, beijando-lhe o rosto e descendo pelo pescoço. Ghillie mantinha-se ainda estática, relutante. As mãos fechadas em punhos sob o peito de Mainyu. Aquilo era mesmo real. Aquilo estava mesmo acontecendo! Queria se entregar completamente a ele. Queria esquecer todo o mundo que estava fora daquele quarto e viver intensamente aquele amor que acabava de se confirmar.
Mainyu beijava com ternura o pescoço de Ghillie, deslizando seus lábios para o colo bronzeado dela, inebriando-se com o perfume floral que vinha de sua pele, o calor de seu corpo abafado pelo tecido macio e fino do vestido.
Mas na mente de Ghillie latejava um doloroso pensamento: o de que ela estaria preste a morrer numa batalha. Via seus pais sofrendo com sua morte... via seus amigos... não queria partir e deixar pessoas sofrendo por sua causa. Não queria que ninguém sofresse... não sabia, mas imaginava o quão doloroso poderia ser sofrer a morte de alguém que tanto se ama...
E Ahriman a amava e demonstrava claramente isso naquele momento, em seus beijos e carinhos cada vez mais apaixonados e sensuais. Sabia que ele já sofrera muito na vida... não queria que ele sofresse com sua morte, já que ele a amava, como dizia, como demonstrava... não queria isso para ele, não queria isso para ninguém...
— ...não... NÃO QUERO!
Com o grito repentino de Ghillie, Mainyu parou de sobressalto, levantando sua cabeça para encará-la. Viu nos olhos marejados por lágrimas uma raiva contida, enquanto os punhos dela empurravam com força seu peito.
Mainyu afrouxou os braços que prendiam Ghillie a ele. Ela levantou-se bruscamente, pondo-se sentada na cama, de costa para ele. Ela apertava com força a barra do vestido, forçando-se a conter as lágrimas. Mas ao contrário do que Mainyu poderia pensar se a visse chorar, não eram lágrimas de raiva, mas de frustração.
Frustração por ambos não poderem viver aquele amor. Frustração por estarem numa maldita guerra que os impedia de se aproximarem. Frustração por tudo isso ter acontecido tarde demais!
Ela não queria vê-lo sofrer por sua morte. Não queria que ele sentisse a dor de perder alguém que amava, justamente ele que não deve ter permitido a floração desse sentimento outras vezes em sua vida.
Ela o queria feliz. Queria fazê-lo feliz! E se ele a odiasse e assim que ela morresse, Ahriman ficaria feliz com isso e não sofreria!
— Como ousa? Quem você pensa que eu sou, Mainyu? Como se atreve a me agarrar desta forma?! Você ficou LOUCO?! – Ghillie virava-se para olhar Mainyu por sobre o ombro, sem conseguir conter as lágrimas que caiam em abundância, machucando-se com suas próprias palavras.
— NÃO! Não estou louco! Estou muito ciente do que estou fazendo! Não suporto mais vê-la naquele estado como esteve agora há pouco! Não suporto mais vê-la sofrer e ter surtos psicóticos por causa dessa maldita guerra!
— Ah, claro! Então o senhor, por bem, vem até meu quarto tentando me estuprar como um conforto ao meu sofrimento!?
Ghillie levantava-se da cama, andando nervosamente pelo quarto, evitando olhar diretamente para Ahriman. Sabia que se o fizesse, ele poderia ver que ela estava mentindo. Ele precisa acreditar que ela o odiava! Se ele a odiasse, não sofreria com a sua morte!
— Por Merlim, Ghillie! Isso é um absurdo! Jamais lhe faria qualquer mal! Eu te amo, garota! E sei.. que você também sente o mesmo...
Ghillie gelou com aquelas palavras. Ela sempre fez o impossível para ser discreta com seus sentimentos... mas Mainyu era muito perspicaz, era provável que tivesse notado isso. Mas não era hora para vacilar. O que estava em jogo era o sofrimento dele, o sofrimento que terá com a morte dela.
— Você está mesmo louco, Mainyu! Eu o amo?? Não meu caro, eu o ODEIO! Como eu poderia amar alguém como VOCÊ?! Eu o odeio e SEMPRE O ODIEI! Tudo o que sinto por você é DESPREZO!
Mainyu levanta-se irritado da cama, indo até Ghillie e a agarrando pelo braço, virando-a para que o encarasse.
— Você quer mesmo que eu acredite nisso? Então diga que me odeia olhando diretamente para mim!
Não havia o que ser feito. Como resposta, Ghillie defere uma forte bofetada com a mão liberta, desvencilhando-se de Mainyu. Agora sim havia ódio queimando dentro dela, mas era um ódio por si própria.
— Não me interessa se você acredita ou não! Não me interessa o que venha de você! Qualquer outra gracinha sua e acabo de uma vez com a sua reputação, seu desgraçado! Eu não ficarei quieta! Eu acabo com você!
Com uma mão sobre a face atingida, Mainyu dá seu típico sorrisinho de escárnio, olhando de forma mordaz para a moça tensa e de punhos cerrados à sua frente.
— Eu a amo, Ghillie... e sempre amarei, quer queira, quer não! E também sei o que você sente de verdade. Não será essa encenaçãozinha que mudará alguma coisa.
Dando as costas à Ghillie, Mainyu retira-se do aposento, fechando calmamente a porta às suas costas. Ao ver a porta completamente fechada e não mais ouvir passos, a garota deixa-se cair de joelhos no chão, externando em lágrimas toda a dor que sentia. Toda a angústia que se formou com aquelas suas mentiras, que lhe dilaceravam o coração...
œœ*
Afundando o rosto no colo da bondosa Sra. Marillac, Ghillie torna a chorar forte novamente, tentando em vão engolir o pranto. A mulher acariciava seus cabelos que hoje chegavam à altura dos ombros, mas sem a beleza de seus cachos de outrora.
— ...se eu tivesse... se eu tivesse sido sincera... se eu tivesse aceitado o amor de Ahriman naquela hora... eu sou burra, BURRA! Por que eu fiz ele pensar que o odiava?! POR QUE FIZ ISSO??!
Ghillie arranhava com força o estofado do sofá, enterrando seus dedos no tecido. Ela havia cometido um erro. Acreditou que sua morte era certa. Acreditou que se ele a odiasse ele não sofreria quando ela morresse. Mas o que ela fez foi totalmente equivocado; ela tirou de Ahriman um motivo para manter-se vivo!
— Eu já revirei todo o mundo mágico diversas vezes... ele não está aqui! Ele não existe mais, não existe!
— Oh, criança... todos nós perdemos pessoas que amamos... mas você precisa viver, querida! Precisa recomeçar sua vida... volte para casa, volte para seus pais que estão sofrendo com sua ausência...
— Professor Arcoverde falou que depois de tudo acabado só resta o começo... será que devo mesmo fazer isso? Começar tudo de novo?
— Você sabe que Casimiro é um sábio... e é lógico que você faça isso. Você ainda é muito jovem, tem muito que viver... e já que experimentou de tudo, só o que lhe resta agora é recomeçar e ser feliz.
Ghillie levanta-se, enxugando as lágrimas. Encarou a velha Marillac com sua expressão austera e serena ao mesmo tempo, mas que transmitia muita força.
— Como poderei ser feliz sem as pessoas que amo... sem Ahriman?
— Como eu disse, você ainda tem muita vida pela frente. Volte para casa. Volte para os seus pais. Desista de procurar um fantasma... e espere que a felicidade venha até você.
— Se é só o que me resta agora... tentarei recomeçar...

Só Resta o Começo - Conto em 5 partes, do livro "Romances em Fragmentos".

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Santa Tranqueira Magazine