The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos



Parte 1 – Amargas Lembranças
O
s sinos da Catedral St. Paul soavam. Eram 6 da tarde, fim de expediente, fim de mais um dia de trabalho. Se não fosse por insistência de uma colega, dizendo que o expediente acabara por hoje, Dakini Shaitan passaria mais algumas horas ali, naquele escritório. Não que o trabalho burocrático que exercia era a coisa mais prazerosa do mundo, mas era a sua grande fuga da realidade e a certeza de estar livre das boas e más lembranças que se tornaram sua vida nos últimos anos: Boas lembranças de tempos que jamais voltarão. Más lembranças que poderiam levá-la à insanidade, à ruína total.
Dez anos se passaram depois da formatura no Instituto de Magia e Alquimia Hermes Trismegistus. Foram anos acadêmicos muito bem vividos, assim dizia seu lado aventureiro. Afinal, passar por tantas agruras, tantas batalhas, tantas emoções e ainda sair viva de tudo isso para contar história era quase tão irreal quanto os filmes Hollywoodianos que eram produzidos em massa para mero e descartável entretenimento. Ela saíra viva sim, mas não sem ferimentos profundos que ungueto alguma jamais cicatrizaria. Mas, enquanto ainda aluna de Hermes Trismegistus, seja pela sensação de segurança que o local lhe passava, comandado por um dos maiores magos da História, Casimiro Arcoverde, ou seja pela tenra idade, ou mesmo ambos, esses fatos e acontecimentos nunca lhe abateram como agora lhe abatiam, dez anos depois... dez anos mais velha. Já não era mais uma menina, embora jamais tenha sido uma menina igual às outras, sempre à frente de seu tempo, mas há coisas que só mesmo o tempo pode trazer: Como a consciência mais árdua e repressora, que trás a ponderação mais crítica sobre os fatos e atitudes.
Dakini já não era mais uma menina e, todos os sonhos e ambições que tinha, tornaram-se inalcançáveis. Não porque ela não teria capacidade de atingir todas as metas que planejou ao longo de seus nove anos de estudos na escola de Alquimagia, afinal, capacitação, competência e inteligência jamais lhe faltaram; mas porque ela própria riscou, definitivamente, toda e qualquer meta que envolvesse algo do mundo Bruxo, o Mundo Magnífico. As perdas de pessoas que lhe foram muito caras, seja para a morte ou mesmo para a própria vida, serviram de bússula a que rumo tomar. E, em suas análises, essas perdas jamais teriam acontecido se ela própria jamais estivesse envolvida com esse mundo.
Dessas perdas fatais, a mais irreparável e dolorosa foi a dos pais: mortos lenta, covarde e dolorosamente, simplesmente porque eram seus pais! Mesmo após a derrota do Mago Negro Anthrax, seus discípulos continuaram semeando sua doutrina e, ironicamente, os ataques de Soldados Escuros se tornaram ainda mais constantes e violentos. Como vingança, começaram a caçar as famílias de todos aqueles que se opuseram ao Mago Negro. Por motivos óbvios, aqueles cujas famílias eram de Inconscientes, como eram chamadas as pessoas sem dons magísticos, foram os mais perseguidos, sendo os mais fáceis de serem atingidos.
Pelo fato de Dakini ter lutado diretamente contra Anthrax ao lado de Pedro Garret, Dominique Hanon, William Lamport e Casimiro Arcoverde, seus pais tiveram a cabeça posta a prêmio, com suas vidas sendo um troféu para aquele Soldado que conseguisse encontrar e liquidar os Shaitans. Dakini descobriu tarde demais, chegou tarde demais até mesmo para saber qual o autor daquele crime bárbaro. O algoz de seu pai e sua mãe nunca foi descoberto e jamais pagaria pela barbárie que cometera! Muitos Soldados Escuros morreram pelas mãos dos Agentes de Lei e militantes do grupo paramilitar independente Resistência Autônoma: alguns, como uma ironia do destino, pereceram pelas mãos de Inconscientes, que não ficavam a espera da proteção divina para lhes salvar. Então, jamais saberiam se o assassino dos pais de Dakini estava vivo ou morto.
Esse pensamento infantil nunca lhe serviria como consolo, mas Dakini gostava de imaginar que o assassino pudesse ser um daqueles Soldados cegos de orgulho que foram mortos por Inconscientes: um por uma velha, mas eficiente arma de fogo nas mãos de um neurótico militar reformado; outros dois mortos numa explosão ao abordarem um terrorista que se preparava para detonar uma bomba no metrô de Londres - uma dupla ironia que seria cômica se não fosse trágica; e outros três que se divertiriam com aquele bando esquisito de jovens Inconscientes, não fossem eles uma violenta gangue que comercializava drogas e armas no subúrbio barra-pesada de Londres...
“Maldição! Por que toda a sexta-feira é isso?! Por que todas as sextas, nesta maldita hora, esses pensamentos teimam em poluir ainda mais minha mente?! Maldito inferno! Gostaria de enlouquecer de vez! Talvez conseguisse esquecer de uma vez por todas essa existência desgraçada! Talvez acabar com tudo de vez! Já desisti de tudo mesmo, já me...”
Alguém bate à porta do lavabo, interrompendo os pensamentos destrutivos da moça.
¾ Dakini! Tá tudo bem contigo? Vamos logo, menina! Senão vão trancar a gente dentro desse prédio!
¾ Tá tudo bem sim, Margareth! Só estou terminando de me maquiar...
¾ Anda logo! (Como se você fosse assim tão vaidosa!) - Margareth completa num sussurro para si, dando de ombros, já impaciente.
Dakini terminou de lavar o rosto, tentando esconder as suas lágrimas invisíveis, que sequer brotavam mais, mas que seus olhos inchavam e sua pele ruborizava do mesmo jeito.
¾  Nem chorar mais eu consigo... e isso dói tanto!
"Lágrimas que não são externadas tornam-se graves enfermidades..." Dakini ia com essa frase na cabeça, enquanto descia pelo elevador acompanhada de sua colega. Lera a frase há tempos numa revista feminina qualquer, mas ela não sabia se isso era uma forma literária - e até poética - ou se era algo realmente físico, comprovado cientificamente. Lembrou-se que, na época, não tivera nenhum interesse em ler a matéria cuja frase estava destacada em grandes letras. Fechou os olhos, jogou a cabeça para trás e suspirou fundo. Era mesmo o fim da picada! Ela, Dakini Shaitan, se preocupar com revistinhas sexistas femininas! Estava realmente vivendo o que chamaria de mazela existencial!
¾ Dakini! Tá no mundo da lua de novo? Afinal você vai ou não? - pergunta uma Margareth indignada e totalmente alienada quanto ao estado que a colega se encontrava - cada dia pior.
¾ Vou s-sim... não! Não, quero dizer, do que estávamos mesmo conversando?
¾ Putz, Dakini! Você é mesmo uma cabeça oca! Não sei como conseguiu ser a primeira contadora executiva da empresa! Eu estava perguntando se você vai mesm... - Margareth se interrompeu quando o elevador chegou ao térreo, abrindo as portas e vendo um rapaz bonito e elegante à espera na portaria, que lhe sorria com um grande buquê intencionalmente mal-escondido.
— Aaah! Não acredito! Bob?! - Margareth exclamou numa vozinha irritantemente rouca, num sorriso escancarado.
Margareth saiu numa corridinha arrastada por causa dos saltos finos de 10 centímetros, até se agarrar ao pescoço do belo rapaz, onde ambos grudaram num beijo cinematográfico... até um pouco demais!
Dakini sentiu os rosto corar, baixando a cabeça. Esse tipo de situação a deixava embaraçada, como se ainda tivesse 10 anos de idade... ou seria uma ponta de inveja? Por mais que se analisasse, não sabia o que responder - ou tinha medo da resposta! Gostaria muito de ter alguém por perto assim, com uma frase de carinho, mesmo que clichê, alguém que a esperasse chegar em casa ou mesmo saísse do trabalho. Não que suas colegas de trabalho vivessem um grande romance, mas talvez fosse interessante se entregar a um relacionamento boçal e despretensioso. Porém, não tinha coragem para tal. De certo modo, talvez realmente não quisesse isso. Seria descer demais ao subsolo de sua falência existencial.
¾ Ô, cabecinha de vento! Você tá demais hoje heim! - Falou Margareth, falsamente brava.
¾ O que foi agora, Margareth?
¾ Ah, quer saber? Mais tarde eu te ligo e a gente combina se vamos juntas ou não na festa da empresa amanhã!
¾ Tá ok, então! Estarei a noite toda em casa... - disse Dakini, sem muito interesse.
¾ Booom, não digo o mesmo de mim… - diz Margareth em tom malicioso, olhando para o namorado que a encarava da mesma forma. ¾...depois a gente se fala. - Completou, já saindo abraçada com o rapaz e dando um olhar de despedida com um largo sorriso para a colega.
***
Apesar de tudo, era um agradável fim de tarde, que trazia o vento fresco de fins de Verão. Os últimos raios de sol se confundiam com as luzes das ruas e prédios, num quase agradável tumulto de pessoas saindo do trabalho e lotando as ruas do principal centro econômico de Londres, o City. Pessoas falavam e riam alto, andavam rápido, desviando-se automaticamente uns dos outros. Os barzinhos e pubs começavam a lotar com o pessoal fazendo sua happy hour.
" ¾ Estou realmente num abismo sem fundo... Miss Sabichã Shaitan ser chamada de ‘cabeça oca’ e ‘cabecinha de vento’ por alguém como Margareth, num intervalo de menos de 5 minutos, é mesmo o fim do mundo!"
Dakini andava aparentemente tranquila, sem muito entusiasmo para chegar ao ponto final do ônibus. Era mais demorado chegar em casa assim, e ainda tinha que andar uns dois quarteirões a mais para chegar até seu prédio, mas era uma viagem mais agradável do que ir mais rápido pelo metrô. Talvez a palavra agradável não seja bem o termo. Achava-se sufocada no metrô lotado e gostava de olhar a mesma paisagem de prédios e carros engarrafados da janela do ônibus e, bem...
¾ Isso é o inferno! Não consigo mais nem sequer distinguir o que me é mais cômodo... pior ainda é eu estar me questionando de algo dessa natureza!”
Para espantar a ânsia de choro, Dakini ergueu sua cabeça, observando a multidão à sua volta: pessoas andando apressadas de um lado ao outro, como se a multidão fosse uma tempestade em alto mar; pessoas em grupos rindo abertamente, nas mesas externas dos bares; outros apressadinhos dentro do conforto de seus automóveis, buzinando para os 20 segundos de sinal vermelho; pessoas que entravam e saiam também apressadas de prédios e lojas; casais que passavam abraçados, outros que insinuavam algum beijo naqueles grupinhos de colegas de trabalho nos bares. " ¾ Por que isso me incomoda tanto? Droga, pelo menos essa resposta eu sei!"
Dakini voltou a caminhar cabisbaixa, lembrando-se de seus inseparáveis amigos do Instituto de Magia e Alquimia Hermes Trismegistus... Inseparáveis? Apenas vieram e se foram juntos com a Era Trismegistus. Desde a morte de seus pais, há 8 anos, nunca mais voltou a encontrar qualquer um de seus amigos ou qualquer outro com quem tenha convivido naquela escola. Havia decidido, definitivamente, abandonar o Mundo Magnífico que, no fim das contas, lhe trouxera mais amargura do que qualquer outra coisa. Roland, Virgínia, Noar, Pamela, Laís, todos os outros alunos de sua Casta ou das demais que auxiliou de alguma forma, seja na monitoria ou nas lições. Até mesmo Drákon Nagayuna, que decidiu tocar sua vida e sua fortuna ao invés de se aliar a Anthrax, como todos imaginavam... e Pedro...
Respirou fundo, fechando os olhos, sentindo-os arder. Choraria, mais uma vez, se ainda lhe houvesse lágrimas. O que terá acontecido? Secaram-lhe as lágrimas, como se isso fosse uma fonte limitada? Chorou tanto e por tanto tempo que agora não conseguia mais derramar uma pequena gota sequer? E isso doía o peito! Uma dor que subia para a garganta, indo direto à cabeça, formando uma pressão dolorosa por onde passava! Sabia que a dor aliviaria se conseguisse derramar essas lágrimas novamente, mas parecia que tinha perdido totalmente essa capacidade!
Lembrou-se novamente de Pedro, com aqueles olhos tão expressivos, tão belos e tão azuis, que mesmo seus inseparáveis óculos não conseguiam ofuscar. E o amou silenciosamente por tanto tempo, demonstrando apenas nos gestos mais singelos. E ele nunca percebeu - ou nunca se importou de verdade!
Fez de tudo por ele. Tudo que estava ou não ao seu alcance. Tudo que fosse ou não possível! Arriscou sua vida diversas vezes e o fez unicamente por ele. O amou tanto e ele nem sequer ligava. Jamais sequer a convidou para qualquer um dos Bailes de Primavera. Nem em seu último baile, o da formatura, em que decidiu se declarar de vez, usando a linguagem verbal mesmo, para ele se tocar quanto aos seus sentimentos. Mas não o pode fazer, pois ele estava acompanhado de Virgínia Orzabal. Foi nesse momento que brotou em seu coração a mágoa que se enraizaria profundamente ao longo dos anos seguintes, regada a todas as coisas ruins que aconteceriam, firmando-se de vez com o assassinato de seus pais... e com o abandono daqueles que ela considerava como amigos, por não entenderem e não aceitarem a sua fraqueza diante do ocorrido.
Mas, neste momento, o que lhe angustiava era a constatação de que tudo que fizera, durante a época de Hermes Trismegistus, fora totalmente em vão: todas as horas de estudos, depositadas diante de livros; todo o esforço e concentração em todas as aulas, que fazia por si e por seus amigos desleixados, mas fazia o esforço e sacrifício dobrados, se fosse preciso, para auxiliar seu amado Pedro! Todas a vezes que teve de engolir desaforos e injustiças, seja de alunos ou daquele Mestre Alquimago estúpido! E para quê serviu tudo isso? Nada! Estava hoje sozinha, sem amigos e sem família, tendo abandonado o Mundo Magnífico a qual também pertencia, tendo que aturar um emprego burocrático chatíssimo e a companhia de pessoas mesquinhas e sem conteúdo!
Se, ao menos, quando mais precisou de apoio tivesse recebido... se os amigos não tivessem se afastado ao constatar que a Grande Sabichã Shaitan era também humana e sujeita às fraquezas, à depressão, ao desespero... Quando ela mais precisou! Se ao menos Pedro tivesse ficado por perto, mesmo como o amigo que fora por 9 anos em Hermes Trismegistus, mesmo a essa altura ele sabendo dos sentimentos dela... Mas, até mesmo o poderoso Pedro Garret fora mesquinho demais, não quis arriscar seu promissor noivado com Virgínia Orzabal, aquela tola sem noção! E, até mesmo Roland, a quem tanto auxiliou, preferiu apoiar a decisão do amigo e, obviamente, a irmãzinha, quando esta começou a dar irracionais demonstrações de ciúme barato!
" ¾ Meu Deus! Eu acabara de perder meus pais! Eles foram mortos porque estavam ligados a uma Bruxa que lutou contra Anthrax! E papai e mamãe ainda estariam aqui se eu não fosse essa Bruxa! Se eu não fosse Bruxa! E mesmo assim Pedro, Roland, Virgínia, optaram por seus mundinhos mesquinhos, colocando coisas amenas diante da tragédia que eu estava vivendo! Como sempre fui idiota! Eu só era importante na hora de auxiliá-los em algo que dissesse respeito às suas vidas!"
Dakini parou novamente, escondendo o rosto com as mãos, erguendo a cabeça como se quisesse esconder suas lágrimas invisíveis. O peito doía mais que nunca! A pressão em sua garganta quase fazendo sua cabeça explodir. Hoje sua perturbação estava extrapolando os limites!  Teria continuado dessa forma por um bom tempo mais se algum grosso mal-educado não tivesse lhe dado um esbarrão, o que fez voltar a si e olhar raivosamente quem havia esbarrado nela. Mas sua raiva e indignação desmanchou-se para surpresa e indagação, ao perceber que o som da rua voltava aos seus ouvidos e que as pessoas se acotovelavam e corriam em várias direções. Finalmente conseguiu assimilar a situação: as pessoas estavam em pânico. Muitas fugiam, outras, assim como ela, estavam paradas, tentando entender o que estava acontecendo, até que...
Ouviu palavras que não ouvia há muito tempo, faladas em altos brados. Vários raios multicolores atingiam postes, prédios, carros e pessoas. A multidão estava se dissipando, então Dakini pôde ver o que acontecia, não muito distante de onde estava: um grupo de três pessoas encapuzadas, em trajes negros, pareciam se divertir com o tumulto que provocavam, rindo alto e abertamente, enquanto lançavam feitiços de seus Bastões Magísticos. Viu pessoas caídas no chão; viu fachadas dos prédios circundantes destruídas; viu um homem carbonizado! Que diabos de maldição era essa?!!
Automaticamente, abriu a bolsa e retirou o seu próprio Bastão Magístico. Mesmo que tivesse abandonado o Mundo Bruxo, decidido nunca mais voltar para essa vida, ainda assim continuava a portar, para onde quer que fosse, o seu Bastão, que sempre lhe fora útil e jamais a decepcionou em qualquer momento.
Há anos não o utilizava, há 8 anos exatos não se utilizava da Magia. Talvez estivesse totalmente desabilitada, talvez nem sequer lembrasse mais das palavras cabalísticas, exatamente. Mas estava tão chocada com o que via à sua frente, com todo aquele pânico e com tudo acontecendo em questões de segundos. Estava chocada com a ousadia daqueles Soldados Escuros, que faziam sua festinha em pleno centro comercial de Londres, no local mais movimentado da Inglaterra! Eles teriam se tornado tão poderosos assim ou seriam apenas estúpidos demais? Todas essas questões passavam pela cabeça de Dakini em frações de segundos e, sem se importar com que estivesse em sua volta, apontou seu Bastão para os Soldados.
Lançou um feitiço atordoante contra o Soldado que atentava uma mulher carregada de sacolas, nocauteando-o e jogando-o longe, fora de combate.
Os dois outros Soldados procuraram, incrédulos e desesperados, por quem lançou o feitiço sobre o companheiro. Dakini não hesitou e outro caiu pesadamente, tão rígido quando uma rocha. Ela estava tão exasperada e tão fora de si, como se estivesse em um de seus pesadelos, que não pensou em se proteger ou esconder, ficando à mercê dos bandidos.
—CRUCIFICAÇÃO PELO FOGO!!
Um raio de filamentos vermelhos e negros atingiu certeiro o peito de Dakini. Tudo o que ela viu, antes de tombar com uma dor que parecia lhe rasgar e incendiar por dentro, foi um clarão branco, seguido por uma voraz escuridão que tomou conta de seus sentidos, parecendo a engolir por inteiro. O seu sangue parecia ferver nas veias, sentindo como se seus nervos estivessem se dilacerando.
E as trevas a devoraram por inteiro, até não mais perceber ou sentir nada mais, nem sequer a dor.

Primeiro capítulo do livro Caleidoscópio.


Depois de um tempão revisando (levei dois meses revisando essa bodega >.<), finalmente consegui concluir as minhas multitarefas em relação à confecção do livro \o/ Agora está oficialmente lançado pelo Clube de Autores e disponível para venda, por enquanto apenas em seu formato impresso.

CALEIDOSCÓPIO é o terceiro volume da Série Contos de Snake, em que temos o descaramento de fazer remaker de antigas fanfics do Fandom Harry Potter, trabalhando o plano de fundo e os personagens, dando nova cara e roupagem para apresentar uma história 90% original - os 10% pertencem à ideia base, que não é original, hehe. Isso é plágio? Não. Plágio é o que a mãe de alguém faz quando tem gêmeos.

Tirando a ideia de um mundo paralelo povoado por bruxos, em um sistema político e social como o nosso, só que movido a Magia (ideia, aliás, muito badalada pela Literatura, Cinema e Quadrinhos), todo o restante é inédito, original. Confira:

Dakini Shaitan é uma Bruxa que renega sua própria natureza, refugiando-se no Mundo Incônscio, onde ela pensa que jamais lidará novamente com a Magia. Porém, um ataque terrorista de Magos Negros, os Novos Soldados Escuros, em pleno centro comercial de Londres, muda drásticamente a sua vida.
No Limbo, na Estação entre a Vida e a Morte, seu antigo Mestre Alquimago, Angra Hellmann, tenta convencê-la a retornar ao Mundo dos Vivos, após uma arriscada experiência que poderá matá-lo e, ainda assim, não conseguir trazer Dakini de volta à Vida.
Vida e Morte, Magia e Loucura. O que o Ser Humano é capaz de fazer por Amor ou Ódio?
Bem, taí mais uma missão cumprida. Escrita, revisada, diagramada, ilustrada, publicada e divulgada! Mais um livro para a Série Snake Stories (ou Contos de Snake), mais um livro para a vitrine do Clube de Autores e para a estante do Skoob... e, espero, mais um livro que você tenha o desejo de adquirir =)
 
Ainda postarei os capítulos para degustação, mas se quiser, no próprio Clube de Autores você poderá ler e ver a apresentação gráfica das 30 primeiras páginas do livro - basta clicar sobre a imagem da capa.
 

Características:

Número de páginas: 310
Edição: 1(2013)
Formato: A5 148x210
Coloração: Preto e branco
Acabamento: Brochura c/ orelha
Tipo de papel: Offset 90g 


Da esquerda para direita: Orelha da contra-capa, que serve como marcador, com divulgação do Blog Patriciado; contra-capa com a ilustração que serviu de capa para a fanfic em 2004; a capa oficial; a orelha da capa, que serve como marcador, divulgando os três livros da Série Snake Stories.



O conto a seguir está publicado na Coletânea Romances em Fragmentos, que pode ser adquirida no site Clube de Autores.

Assim como todos os textos que compõe a Série Contos de Snake (ou Snake Stories), Samhain é inspirado pelo mundo potteriano, criado por J K Rowling. Antes de Samhain ser um texto original, inclusive registrado no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional, ele era uma fanfic, cujo ship era Hermione Granger e Severus Snape. Em 2010, este conto foi readaptado, tornando-se um texto original, e publicado, primeiramente, na Antologia Beijos & Névoas.

Se você está aqui pela primeira vez, deve está achando muito estranha essa conversa, e se perguntando intimamente: "Mas, isso não é plágio?". Eu posso lhe responder a essa indagação: Não, não é plágio. Isso que apresento é uma obra inspirada em outra obra existente. E sendo um texto original, a inspiração fica por conta da ideia base, de "um mundo mágico e paralelo, onde bruxos e bruxas têm um sistema social parecido com o nosso, mas que vivem ocultos ao nosso conhecimento".

Mesmo uma fanfic não é considerada plágio (o correto é afirmar que se trata de uma Intertextualidade), e uma prova contundente disso é que o maior portal de fanfics do mundo, o Fanfiction.net, continua ativo até hoje, mesmo após a grande limpeza que o governo dos EUA e o FBI fizeram pela internet, com sites que violavam direitos autorais.

Então, deixe suas desconfianças e preconceitos de lado e descubra um mundo literário diferente, que trás histórias alternativas às suas leituras preferidas.

E, ao contrário de muitos por aí, nós aqui não negamos as nossas inspirações e Intertextualidades.


Samhain, Dia das Almas

O Bar Green Man estava adornado com enfeites espalhafatosos e animados. Abóboras iluminadas por velas eram as fontes de luz que davam um ar aconchegante ao lugar. Tigelas de cristais, repletas de doces de formas engraçadas, estavam a disposição nas mesas espalhadas pelo salão do bar.

A garçonete de curvas voluptuosas corria de um lado ao outro alegremente, equilibrando a si mesma em altos saltos agulhas, enquanto fazia malabarismo com uma grande e pesada bandeja de prata, com várias canecas enormes de Stout, a cerveja escura irlandesa, cuja espuma cremosa transbordava farta pelas bordas.
Após um ano de intensas lutas contra as forças das Trevas, que custou muitas vidas e muito sofrimento, o Povo Místico voltava a viver uma vida tranquila, sem medos e sem receios. As forças do mal foram dissipadas e a Paz instaurada. Portanto, tudo agora era motivo de comemoração! E a comemoração era ainda maior quando a ocasião era muito especial. No caso, não havia data comemorativa mais importante para o Mundo Magnífico do que o All Hallows Eve, a Noite de Todos os Santos.
Neste primeiro ano sem a ameaça das Forças do Mal e seu Exército das Trevas, homenageavam-se os mortos, especialmente aquele que morreram na guerra, com respeitosa alegria.
Alegria, sim, pois a morte faz parte da vida, e graças aos sacrifícios de muitos, milhões agora podem continuar a viver e perpetuar a força daqueles que deram suas vidas em prol de algo tão valioso quanto a Paz e a Liberdade. Lastimar-se seria desonrar aqueles que entregaram suas vidas para que as vidas de outros prosseguissem harmoniosamente. Havia, sim, a saudade, mas a alegria era uma silenciosa obrigatoriedade para honrar e agradecer aos mortos por seus sacrifícios.
Já passava da meia-noite e a festa não dava mostras de terminar. As pessoas dentro do Green Man cantavam em coro desafinado, riam, gargalhavam, algumas dançavam. Um irlandês de juba vermelha, tão alto quanto largo, sobraçava o outro mais mirrado, e ambos, muito entusiasmados, puxavam o coro com as faces rubras e os olhos estatelados devido a algumas dezenas de canecas de cerveja. O bar era a materialização da alegria. As pessoas se divertiam de forma saudável, felizes e aliviadas por poderem retornar às suas vidas, comemorando cada segundo de Paz que lhes fora concedido após anos de segregação racial e liberdade tolhida e vigiada.
Mas, para ela, toda essa alegria já havia se excedido... Ninguém percebera sua repentina desolação. Despediu-se silenciosamente de todos, com um sorriso triste no rosto cansado, correndo seus olhos dourados por aquela turba de boêmios, já com a mão na maçaneta da porta de saída.
Ganhou a rua deserta em menos de um segundo. As risadas, falações e músicas ficaram abafadas quando a porta bateu às suas costas. O ar estava álgido. Ainda era Outono, mas as estações nunca mais seriam as mesmas após a guerra que violentou até mesmo a natureza da Terra. Uma rajada de vento a fez tremer e se encolher, balançando seus cachos avermelhados que caíam soltos às suas costas. Uma névoa se formava com sua respiração.
Maeve ergueu os olhos para o céu parcialmente encoberto, onde ainda era possível ver uma formosa e imponente lua cheia e algumas estrelas que cintilavam como diamantes ao fogo. As nuvens finas, que cobriam boa parte do céu noturno, anunciavam uma chuva igualmente fina que, provavelmente, se condensaria em cristais de gelo com a atmosfera anormalmente fria para aquela época do ano.
O luar intenso iluminava bucolicamente uma das principais cidades do Mundo Magnífico, que fora totalmente destruída e que agora gabava-se de seu renascimento como se jamais tivesse tombado alguma vez. Os lampiões das calçadas brilhavam como lágrimas na noite, um vapor produzido por seu próprio calor pairava e se dissolvia no ar.
Maeve, de cabeça baixa e braços cruzados com força sobre o peito, caminhava decidida, em passos firmes. Seus sapatos baqueavam os paralelepípedos. Seus passos e sua respiração forte juntavam-se aos sons naturais da noite, ao vento que cortava as copas de árvores e telhados. Nuvens lanosas passavam apressadas sob a lua, criando sombras movimentadas pelo caminho.
Sem se importar com o frio que a castigava, subiu com perseverança a colina que começava após o término das construções de tijolinhos maciços, que caracterizavam a cidade que se parecia com um vilarejo medieval. Os lampiões se escasseavam e o caminho começava a ser iluminado apenas pelo luar. Apesar do céu ter sido encoberto por nuvens de chuva, a lua cheia jogava seus fortes raios sobre aquele manto lanoso que refletia e potencializava sua luz, tornando a noite quase tão clara quanto o amanhecer do dia.
Do alto da colina do pequeno Castelo, podia se avistar toda a extensão da cidade mística e sua floresta densa. Correndo os olhos pela área a sua volta, Maeve via algumas fogueiras¹ crepitando ao longe, nas pequenas propriedades rurais da cercania urbana. Olhou para trás, para o vilarejo que podia ser avistado quase na sua totalidade daquela colina. Viu sem alardes vultos de luz prateada que deslizavam pelas calçadas e ruas desertas. Já não era mais possível ouvir qualquer ruído do Green Man.
O vento gelado que soprava insistentemente era o único a ressonar por ali. Maeve, contemplativa, voltou-se para frente, abandonando a cidadezinha às suas costas.
O vento frio fazia ir e vir os seus cachos. Olhava a imensidão escura que se desnudava à sua frente. Ela estava distante, absorta em seus pensamentos, mal ouvindo os passos mansos e cautelosos que se aproximavam, amassando a grama quase seca pela geada temporã. Sentiu que alguém parou próximo. Um calafrio percorreu seu corpo e que não foi provocado pela temperatura que caia vertiginosamente. Sua respiração se alterou e, sabendo que de nada lhe adiantava fugir – pois, por mais que quisesse, não poderia fugir de si própria, de seus sentimentos, de seu coração... – com certo temor, virou-se por sobre o ombro e o calafrio gelou seu peito.
— Michael...
Michael Collins apenas deu um leve sorriso sarcástico, uma de suas marcas registradas, desviando seus olhos para a ponta de seus sapatos. Cabelos ruivos e longos caiam por seu rosto, ocultando parcialmente sua fisionomia abatida. O ex-revolucionário do Mundo Magnífico estava mais magro e pálido do que de costume.
— Eu não me importaria de passar toda a noite aqui, mas prefiro não ser mais ignorado por você, Maeve...
— Eu não... – Maeve interrompeu-se, voltando-se tristemente para o horizonte noturno.
O silêncio dela o machucava, ele se permitia admitir isso. A sua vida inteira fora forjada para derrotar as Trevas custasse o preço de sua alma se necessário, e jamais poderia permitir que qualquer coisa ou até mesmo alguém desviasse sua atenção e suas energias desse objetivo. Agora que tudo havia se acabado, ele se permitia viver aquilo que seu coração desejava...
Olhou para o céu recoberto por nuvens que se tornaram densas, ocultando a lua cheia que ainda refletia seus raios sobre elas, deixando a noite clara. O frio se intensificou, fazendo com que sua respiração formasse uma neblina tênue. Logo começaria a nevar.
— O senhor não quis participar das comemorações? – Perguntou Maeve, sonsamente, apenas para quebrar aquele silêncio que a incomodava.
Collins voltou sua atenção à mulher. Perdia-se em divagações enquanto observava Maeve, que parecia se proibir de lhe dirigir um olhar que fosse. Passados alguns minutos, achou por bem responder a pergunta dela.
— Eu não seria bem vindo... Mesmo que tudo tenha se esclarecido, jamais serei perdoado por ter levado tão longe tudo aquilo que o nosso líder planejou por tantos anos...
— Porque se a morte é a última opção desesperada, então é possível tomar outras atitudes e tentativas. A morte é o fim, não há segunda chance! – Maeve respondeu, como se a completar os pensamentos de Collins, com um tom rancoroso em sua voz.
Ele inspirou profundamente, demonstrando todo o seu pesar. O preço de sua extrema lealdade ao líder intelectual da Força Revolucionária e herói do Povo Místico, William Lamport, seria a cruz que carregaria por muito tempo em solo acidentado. Sabia disso e não buscaria modificar essa consequência que previu e aceitou. Porém, jamais previu que seu coração reclamaria pelo perdão de alguém.
— Já falamos sobre isso... carregar para sempre o peso desse ato é o pior castigo que eu poderia ter! Mas a guerra requer grandes e dolorosos sacrifícios. O de Lamport foi sua vida, o meu é o assassinato dele!
Por um momento, ao ver Maeve passiva, Collins pareceu se desesperar e sua voz saiu próximo de um suplício.
— Você conhece a verdade, Maeve... a entende... por que é tão difícil de aceitá-la?!
O céu tornou-se ainda mais branco quando a chuva fina começou a cair, mas o ar frio era tanto que condensava as gotículas muito antes de elas tocarem o chão. Então, delicados flocos de neve caíam lentamente e logo tudo se tornou esbranquiçado. Sobre as duas figuras solitárias no alto da pequena colina, os flocos começaram a se acumular em seus cabelos e ombros.
— Todos sabem da verdade... foi com muito custo que todos a entenderam... mas, aceitar?! Francamente, Sr. Collins, isso é quase inconcebível!
— Dói ouvi-la me chamar com tanta polidez, sabia? – Collins inquiria num tom misto de tristeza e zombaria. —Eu realmente não me importo com o que todos pensam de mim, mas você...
Maeve se irritou com aquele “mas você”, virando-se abruptamente em direção à cidadela. Lutava contra seus desejos que se opunham às suas convenções. Uma luta dolorosa, mas o ‘certo’ deveria prevalecer, sempre!
— Isso é loucura! Tudo foi uma loucura! E o que aconteceu entre nós não foi diferente! Esqueça tudo isso! Aquilo foi um erro! Um erro!
A moça, em passos largos, tentou fugir, descer a colina rumo à rua de pedras e lampiões gotejantes. Precisava sair o quanto antes dali! Não permitiria que sua mente e sua razão fossem dominadas por emoções tolas que teimavam em lhe contradizer, mandando-a que ficasse, que baixasse completamente a fortaleza que guardava seu castelo de atitudes certas, lógicas e ponderadas. Não poderia amar um homem que fora o assassino de William Lamport, mesmo que sob a lealdade inquebrantável que Collins estava preso ao líder revolucionário!
Seu coração perdoava e entendia, mas sua mente não conseguia aceitar tal fato! Em ação rápida e furtiva, Collins impede que Maeve prossiga, segurando-a pelo braço esquerdo. Temia machucá-la com a força que empregava, mas não poderia correr mais uma vez o risco de perde-la novamente, de deixá-la fugir. Não lhe restava mais tempo para isso. A moça virou-se assustada, mas sua expressão de quase desespero se esvaeceu ao encontrar clemência e doçura naqueles olhos castanhos que costumavam ser tão frios, como se não pertencessem a um ser vivo.
— Essa maldita guerra já tirou demais de todos nós! Perdemos demais!
Collins trouxe Maeve para junto de si, enlaçando-a com os braços. A moça não reagiu. Apenas continuou a olhar em expectativa, como que hipnotizada.
— Chega de perdas! – Sussurrou Collins em sua voz grave.
O sussurro foi calado por um beijo suave e calmo. Collins temia piorar a situação dessa forma, mas necessitava provar seu amor por Maeve e receber sua absolvição. Ele precisava alcançar a sua paz e só poderia fazê-lo através de sua amada. A moça relutou e lutou temporariamente. Não queria ceder ao beijo. Mantinha-se rija, ainda sustentando desesperadamente as muralhas de sua fortaleza. Apesar da neve fria que caía cada vez mais intensamente, fazendo a paisagem noturna ter um aspecto fantasmagórico, o calor da emoção os envolvia como um manto quente, feito um abraço invisível.
O vento que soprava no alto da colina trazia consigo uma melodia longínqua, baixa, o farfalhar da vegetação. Conforme a sensação de tempo e espaço se esvaecia para Maeve, e o calor invisível intensificava seu abraço, a moça foi cedendo finalmente aos apelos de seu coração, entregando-se aos beijos e carinhos de Collins.
Suas últimas defesas caíram por terra e Maeve enlaçou com força o pescoço de Collins, escondendo seu rosto no ombro dele que, por sua vez, num suspiro de alívio, intensificou ainda mais seus braços em torno do corpo esguio dela, perdendo-se pelo emaranhado de cachos avermelhados e absorvendo todo o perfume que conseguia; aquele mesmo perfume floral que experimentou por uma única vez, por uma noite que poderia ter durado uma vida inteira, mas cujas horas se passaram como segundos... Porém, essa única noite de amor foi o suficiente para firmar para sempre em sua alma o seu sentimento por Maeve e nem a batalha final da insana guerra foi capaz de apagar o mínimo que fosse daquela impressão que carregaria pela eternidade.
— Eu te amo demais, Michael... – Maeve sussurrava com voz embargada, mantendo-se firme, enlaçada ao pescoço de Collins, como a temer que ele se fosse dali como a pequena neblina dos lampiões. — Eu entendo o porquê das atitudes que tomou... entendo o fardo que carregava... entendo que não havia escolha para você... eu entendo que você havia se tornado escravo de um pacto... eu te perdôo, Michael... eu já havia te perdoado há muito tempo!
Collins suspirou exasperado, mas aliviado. Afastou-se apenas um pouco de Maeve para poder encará-la, enxergar dentro da alma dela através dos olhos dourados que luziam pelas lágrimas. Suas defesas também haviam caído por terra e sua alma nunca esteve tão visível através de seus olhos castanhos que, ironicamente, mostravam uma grande fonte de vida, como jamais estiveram antes.
— Obrigado, Maeve... muito obrigado...
Tentando em vão conter seu pranto, Maeve respondeu em voz chorosa, quase se desesperando;
— Não! Por favor... não diga isso!
— Eu preciso... – respondeu Collins, com uma expressão plácida e feliz, que Maeve presenciou apenas uma única vez... na noite de amor que tiveram, antes da última batalha, quando descobriu que o assassinato do líder fora um plano arquitetado pelo mesmo.
— Você não pode! Não pode ser assim! – Dizia já em prantos, agarrando com força as mangas da veste negra de Collins.
— Concordo... não deveria ser assim, mas...
Collins se silenciou com um novo beijo, sentindo o gosto levemente salgado das lágrimas da mulher, que caiam em seus lábios. O vento soprava mais insistentemente. Suas veste e seus cabelos se misturavam como se bailassem. Os flocos de neve caiam em espiral, lançando pequenos brilhos difusos como se portassem luz própria.
— Obrigado, Maeve... obrigado por me conceder o descanso para minha alma, por me conceder a paz que eu buscava...
Collins afastou-se sem desviar seus olhos dos de Maeve, que permanecia prostrada, imóvel, apenas suas lágrimas escorriam abundantes e silenciosas por sua face corada. Ela levou suas mãos ao peito, como se quisesse conter as batidas dolorosas de seu coração.
— Eu te amo, Maeve... e o que sinto não mudará aqui deste lado... obrigado por permitir que isto seja a única coisa que levarei deste mundo...
Com um sorriso singelo, Collins esvaeceu-se como uma luz que se apaga lentamente. Sua forma se desmanchou em milhares de pequenos pontos brancos e luminosos, subindo ao céu através da luz que surgia por uma brecha nas densas nuvens de chuva, formando um espiral que se confundia com os flocos de neve que ainda caiam.
Somente quando a luz finalmente se apagou e o céu voltou a ser encoberto por nuvens compactas, que Maeve deixou-se cair de joelhos no solo forrado pela neve que refletia a tênue claridade do céu. Suas lágrimas escorriam de seu rosto e formavam pequeninos côncavos na neve que derretia ao contato morno. O vento começava a diminuir sua intensidade e a nevasca a ceder, mas ainda os flocos de neve brincavam se espalhando leves pelo ar frio. Ao longe, na cidadela e no vale, luzes prateadas surgiam e evaporavam, piscavam como vagalumes perdidos na imensidão noturna.
Samhain, o Dia das Almas... era 31 de Outubro, o primeiro Halloween após o fim da guerra entre Luz e Trevas. Muitas vidas preciosas se perderam. Mas a Paz fora instaurada tanto aos que  ainda permaneciam na Terra quanto àqueles que partiram. E Michael Collins finalmente conseguiu a redenção que tanto buscava e que apenas lhe fora possível a Paz através da luz de Maeve.
Fim
Escrito em 2005. Remasterizado em 2010.

Começando muito bem a primeira semana de 2013! Temos um belo presente surpresa, providenciado pela amiga Escritora e parceira Jossi Borges.

Trata-se da primeira resenha do livro de contos Romances em Fragmentos, da Série Snake Stories.

Jossi resenhou cada um dos cinco contos, além de ter feito uma postagem caprichada, repleta de fotos de muito bom gosto de casalzinhos, só para dar mais água na boca por ter um romance desses, rs! Literalmente ou não falando!

Confira a linda resenha da Jo, no Blog Romance Sobrenatural.
:)

Esta postagem é um "Arquivo-resenha", em que compilo a resenha feita para algum livro meu e disponibilizo nos blogues: ou no PatriciaDo, ou quando o livro é da Série Snake Stories.

O Arquivo-resenha de hoje é do livro Tempo Paralelo, e a resenha foi feita pela escritora romântica Márcia Pimentel, em seu blog pessoal, publicado em 25 de novembro de 2012.

Fico muito feliz em ver que todas as resenhas de TP foram sempre positivas. É legal saber que as pessoas gostam da história. Vivemos hoje uma era de efemeridades e banalizações, que ter milhares de coisas à mão é muito fácil e, por isso mesmo, mais difícil em se desenvolver qualquer afeição, principalmente por livros, que agora se tornaram mais uma indústria de entretenimento descartável.

Confira a resenha da nossa amiga ;)

Resenha do Livro: Tempo Paralelo - Pat Kovacs

Essa semana fui presenteada com três livros da autora Pat Kovacs. Não a conhecia e estou muito feliz e encantada de conhecê-la e de poder ler seus livros. Obrigada Pat pelos livros, vou lê-los com muito carinho. Esses são os livros que ganhei de presente: Tempo Paralelo, Contos sem Classe e Romances em Fragmentos. Assim que recebi os livros escolhi um e comecei a lê-lo. Escolhi o livro Tempo Paralelo para ler primeiro porque fala de um tema que gosto muito, viagem no tempo. O livro é MARAVILHO, já li e fiz minha resenha.
Minha Resenha:
Eu amei a leitura. A Pat consegue nos colocar dentro da história e viver cada momento junto com a Evangelina e Lobo. Ela descreve cada cena com tantos detalhes que conseguimos visualizar cada lugar como se estivessemos lá, é emocionante. Eu consegui viver com Lobo do Futuro cada momento que ele passou ao lembrar do que tinha acontecido com ele e com Evangelina no passado. Era como se ele estivesse passando por aquelas experiências naquele momento. Com isso tínhamos duas visões da mesma cena, pelo mesmo personagem. Um que vivia tudo pela primeira vez e o outro que estava lembrando desses momentos vividos no passado. Fiquei muito feliz com o final dos dois.

Evangelina é uma militante da Resistência Autônoma, um grupo que luta contra o Exército Negro,  liderado  por Anthrax, um Mago Negro extremamente poderoso. Evangelina viaja no tempo e conhece o Lobo jovem, que nessa época era um soldado Escuro, que matava os bruxos impuros, como ela. No futuro Lobo é um agente duplo, trabalha para Resistência Autônoma dentro do Exército Negro. Ninguém sabia porque Lobo havia mudado de lado a 21 anos atrás. Ficamos sabendo, quando Evangelina viaja no tempo. Lobo já não se sentia bem sendo um soldado Escuro, nao gostava das coisas ruins que fazia, das matanças que cometia para o Exército Negro. Quando Evangelina apareceu em sua vida, lhe mostrando o lado da luz e o amor, ele resolveu deixar as trevas. No passado eles viveram um grande amor, que por algum motivo Lobo teve esquecer. No futuro, Lobo correrá contra o tempo para salvar a vida de Evangelina e nesse momento Lobo vai lembrando de sua vida à 21 anos atrás, quando conheceu Evangelina. Lobo sabe que deixou as Trevas com a ajuda de uma garota, mas nao lembrar seu nome e nem com ela era, mas agora ele começa a lembrar e enquanto o Lobo jovem vive seu romance com Evangelina no passado, o Lobo do futuro lembra desses acontecimento, que por algum motivo ele esqueceu, que só ficamos sabendo lá para o final do livro. ele começa a sofrer por ter tratado mal a pessoa que o salvou das trevas. Depois de salvar Lobo das trevas, Evangelina tem que voltar ao seu tempo. Ao voltar para o seu tempo, Evangelina fica sabendo que esteve todo esse tempo em coma, então sofre ao pensar que tudo o que passou com o Lobo jovem, foi só um sonho enquanto estava em coma. Mas, Lobo lhe mostrará que o que eles viveram foi real, e que o amor que sentem é real.

Uma leitura mais do que recomendada, recomendadíssima!!!


Para saber mais sobre a autora e seus livros acessem seu blog:
O próximo que vou ler é Contos sem Classe, assim que terminar farei minha resenha.

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