The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos

Enquanto tomava o café que me foi trazido por um dos serviçais de Hermes Trismegistus, fui digerindo juntamente meus pensamentos sobre tudo que estava acontecendo em minha vida até aquele momento. Tudo mesmo! Desde a minha entrada para o Exército Negro de Anthrax ao final do último ano, até aquele amor repentino que passei a sentir por Juliette. E pensei muito no que havia feito a ela na noite anterior. Pensei demais, até me sentir completamente amargo e não conseguir mais tomar sequer um gole do chá preto.

Eu havia me tornado um Soldado Escuro. Eu era um Bruxo de Estirpe e pertencia a uma das mais antigas e tradicionais famílias bruxas da Europa. Descendia de duas grandes famílias de passados gloriosos nas Trevas: Malakian e Temba. Era o mentor que arquitetava o assalto à Hermes Trismegistus e o assassinato de Casimiro Arcoverde. Havia o peso do mundo em minhas costas, que me imputava uma grandiosa responsabilidade. A última coisa, naquele momento, que eu deveria fazer é me apaixonar por alguém. E a última coisa que poderia fazer nesta vida era me apaixonar justamente por uma pessoa que representava exatamente aquilo que tinha de pior no mundo bruxo e deveria ser expurgado... uma Desperta!

Levei a mão ao peito, sobre a minha longa e fina cicatriz em diagonal. Aquilo só não estava pior porque eu fui bem tratado e recebi os cuidados e o carinho de Juliette. Não havia motivo para a Doutora Feyerie inventar uma mentira como aquela, e eu vira com meus próprios olhos que Juliette estava mesmo velando o meu sono, que se preocupava comigo. E vi dentro de seus olhos o quanto ela se condoeu com minha violência contra ela, com minhas ameaças e palavras malditas!

Pus a bandeja de lado sobre a cama e procurei por meu manto, encontrando-o sobre uma mesa de cabeceira. Não importava, naquele momento, se eu era um Soldado, se eu era um puro-sangue, se eu era um Malakian. Não me importava se eu tinha uma missão pérfida a cumprir. O que me importava era Juliette Willians. Era saber como ela estava, agradecer-lhe, pedir-lhe perdão pelo que fiz a ela! Ao menos uma vez, uma única vez... depois trancaria para sempre esse sentimento impossível e me entregaria de vez às Trevas. Por mais que a amasse e quisesse jogar tudo para o alto e fazer as minhas vontades, eu não podia... eu era um refém, um prisioneiro, um escravo e deveria obedecer ao meu destino!

Àquela hora, todos os outros alunos e professores estavam em salas de aula, e o castelo estava deserto, apenas encontrava um ou outro perdido pelo caminho. Talvez Juliette estivesse em aula, talvez estivesse na Torre Sul da Ígnea, mas meu coração me guiava por outras sendas, não crendo na lógica. Eu sentia que ela estava arrasada, em algum lugar e crendo que, embora ela fosse o meu oposto, ela poderia buscar abrigo nos mesmos refúgios que eu buscava, e procurei em todos os lugares que acreditava poder encontrá-la. Por fim fui ao Jardim de Inverno e parei estupefato, olhando cegamente o estrago que foi feito na briga contra Hanon. Ninguém se atreveu a arrumar aquela bagunça! Havia mancha de sangue no chão e na parede... meu sangue! Sai do torpor e procurei ainda por Juliette ali dentro. Não a encontrei. Um desânimo horrível se abateu sobre mim, sentindo que jamais conseguiria consertar o erro que cometi contra ela. Talvez fosse o melhor assim. Talvez não devesse jamais me abrir a ela. Talvez devesse deixá-la crer que eu a odiava.

Saí cansado, cabisbaixo. Necessitava de ar. Necessitava de luz. E fui pros jardins externos do Instituto. E caminhei por entre as plantas e arbustos bem cuidados, pelo gramado sempre verde, até chegar à Lagoa das Carpas. Tencionava passar o resto do dia ali, espairecendo, mas estanquei quando a encontrei encolhida contra as raízes e o grande tronco da antiga figueira que ali havia. Ela parecia um bichinho frágil e acuado e isso me atravessou o peito como fosse uma lança afiada feita de gelo. Ela estava arrasada, inconsolável e era minha culpa!

Eu tive receios em me aproximar dela. Não suportava a ideia de ver novamente aqueles olhos lindos cor-de-mel repletos de medo e decepção. Mas esta também era a minha única e última chance de me reconciliar com ela e viver um momento que também seria único para toda a minha vida. E fui até ela, o mais cauteloso e desarmado que consegui.

—Juliette... – Chamei-a da forma mais gentil que conseguia. Ela levantou assustada sua cabeça e me dirigiu aquele olhar que não queria mais ver nela, de medo e decepção. Sua respiração se alterou e vi seus olhos se tornarem rasos d’água. Ela começou a se levantar para sair dali, fugir de mim, mas joguei-me de joelhos diante dela, pra impedi-la. Não a deixaria sair dali sem que me explicasse.

—Por favor, não! (Estas palavras me soaram muito, mas muito estranhas mesmo e mais estranho ainda foi o tom melancólico com que as pronunciei!) —Eu... eu preciso falar com você, Juliette!

—Acho que você já falou por demais esta noite, Malakian! (Sua voz saiu embargada e não continha mais àquela doçura com que me falou nas últimas vezes.) —Eu já ouvi demais de você! Eu lhe juro que não tive nada a ver com o que Cayla lhe fez, mas se você não quer acreditar na verdade, não posso fazer nada pra isso!

Ela se ergueu e tentou fugir de mim, mas também me ergui e segurei-a pelo braço, não poderia perdê-la! Sentia que se ela fosse embora naquele momento, seria para sempre!

—Juliette, me perdoe!

Ela estancou o movimento e voltou seu rosto lívido para mim. Certamente, ela não acreditava no que ouvia.

—Não pretendo me defender. Sei que agi muito errado com você e isso é irremediável. Mas quero, pelo menos desta vez, buscar seu perdão! Não espero que compreenda e aceite o motivo de eu ter agido daquela forma com você, apenas quero, por um momento sequer...

Não consegui completar a frase. Sabia que aquilo era o início e o fim ao mesmo tempo. Aquilo deve ter caído sobre ela como um impacto. Eu mesmo não me reconhecia! Ela se apoiou no tronco da velha figueira e fitou-me por longos instantes, até falar-me em sua voz serena, mas também melancólica:

—Não entendo o que aconteceu comigo... desde que lhe vi.. em desespero.. no Jardim de Inverno, que... mas agora entendo que há uma muralha entre nós e nunca... nunca poderemos ultrapassá-la!

Eu a olhava dentro de seus olhos. Queria dizer que poderíamos, sim, ficarmos juntos, se quiséssemos, que o que importava era apenas nós dois e nossos sentimentos... mas não era isso, eu não possuía livre arbítrio, eu não era senhor de minha vontade. E fiquei calado. Não havia como negar sua afirmativa.

Mas eu queria, ao menos naquele momento, ceder aos caprichos do meu coração. E, por uma única vez em minha vida, deixar-me amá-la...

Passei os braços por ela, apoiando minhas mãos no tronco da figueira, prendendo-a entre eles. E me aproximei de seu rosto e a beijei, calmo e sem pressa. Ela estava tensa e não cedeu de imediato. Mas ela também queria aquilo e aceitou, se entregando enfim. A sensação daquele momento foi indescritível. Não era apenas um beijo, mas aquilo representava a minha vontade sobrepujando os grilhões que me prendiam à minha condição. E pela primeira vez me permiti um ato de carinho, de ternura. Eu queria aquilo para mim, para sempre! Senti as suas mãos suaves e vacilantes deslizaram por meu rosto até se enterrarem em meus cabelos. Puxei-a para junto de mim, envolvendo-a em meu abraço, aprofundando o beijo, até faltar-nos oxigênio, mas não queria me separar dela, sentia que se o fizesse ela evaporaria, tudo sumiria como fosse um sonho! Mantive-me abraçado a ela e mergulhei meu rosto em seus cabelos perfumados, sorvendo e me inebriando com aquele perfume floral, querendo que aquilo nunca mais se findasse... mas, como já havia dito, vivíamos em margens oposta de um abismo intransponível. Tentei ignorar, mas a dor queimando em meu braço esquerdo aumentava à medida que eu não lhe dava a devida atenção, até uma dor terrível se apoderar de mim e me fazer afastar abruptamente de Juliette, que ficou atônita me olhando sem entender o que acabava de acontecer.

Tentei disfarçar, mas a dor queimava demais. Era a tatuagem em meu braço! Aquele maldito miserável estava me convocando! Não podia permitir que Juliette visse aquilo, mas já era tarde demais. Impetuosa, ela avançou sobre mim, segurando com firmeza meu braço esquerdo, erguendo a manga do meu manto e deixando descoberta aquela marca horrenda! A região já estava muito vermelha, quase em carne viva. Ela me soltou e me olhou daquela forma que me machucou muito: decepção, incredulidade, torpor.

Ali havia sido nosso início e o nosso fim.

Segurei minha tatuagem, postei-me ereto e olhei-a com firmeza. Queria deixar claro que havia sido sincero, mas também deveria deixar claro que um romance entre nós era terminantemente impossível.

Essa dor foi a mais dolorosa que senti. Pois era a impossibilidade de eu realizar meus desejos que abria caminhos para todo o resto, inclusive ao de não seguir o Mestre das Trevas.

—Eu sou o que sou, Juliette, não há como mudar isso. O que sinto por você é verdadeiro, mas eu não tenho o direito de viver isso... Eu te amo, mas isto é proibido e é impossível dar continuidade...

Não pude dizer mais nada, não pude dizer tudo o que queria dizer a ela. Eu precisava atender ao Mestre. Eu era obrigado a obedecer ao meu destino. Saí dali o mais rápido que pude, deixando para trás a minha única chance de seguir o destino que queria. Foi o início, mas também foi o fim...

É o que pensei naquela época.

Escrito em Janeiro de 2006. Remasterizado em 2012.
Redenção é um conto presente na coletânea Romances em Fragmentos.

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