The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos

Quando ouvi aquilo, naquele tom que era um misto de doçura e aflição, eu senti que algo dentro de mim se quebrou. Ela havia me desarmado. E, pela primeira vez, eu a percebi como era, eu a olhei diretamente e vi que era alguém como eu, vivendo a mesma angústia, e percebi o quanto deveria ser opressor alguém como ela viver num meio a que não pertence por inteiro, a ter que lutar para se impor aos preconceitos, que eram muitos, mas muitos mesmo! E pensei que o Mundo Incônscio, de onde ela vinha, não devia ser mais fácil: afinal, ela era alguém que pertencia a dois mundos e a nenhum ao mesmo tempo. Então me perdi dentro daqueles olhos de cor tão incomum entre os bruxos de sangue-puro, castanhos de frisos dourados... Contive o impulso de esquecer todas as convenções que faziam parte de minha vida para conhecê-la ainda mais. Algo que me era terminantemente proibido, pois seria manchar a honra da minha família, que apenas o pensamento e o desejo de tal curiosidade já maculavam.
Afastei-me dela, embora quisesse o contrário. Não interessava a minha vontade, como meu pai sempre me instruía. O importante era manter as tradições, as raízes, os ideais. E eu não era ninguém para ir contra isso.
—São Hanon e o discípulo fiel Boré ficarão muito satisfeitos em saber que estive num jardim abandonado, tendo ataques de fúria feito uma mulherzinha com TPM! Corra e vá contar a eles, Willians! Hanon anda me perseguindo, tendo ideias idiotas ao meu respeito! Ele vai gostar de saber disso!
(Por que, quando estou perto dela, me descontrolo e falo tanta besteira?!)
—Não seja bobo, Malakian! Pelo que me toma, afinal?! Posso ser uma maldita Desperta como gosta de dizer, mas não sou nenhuma fútil e alcoviteira que se compraz com o infortúnio alheio!
(É, ela também deve achar que só falo besteiras...)
Eu a ofendi. Também me sentia ofendido com minhas palavras tão infantis. E me sentia envergonhado por dizê-las justamente à aprendiz mais inteligente de Hermes Trismegistus do nosso ano.
Fiquei em silêncio por instantes. Ela também. Pelas costas, sentia o quanto ela estava aborrecida com minhas palavras. Então, por que não fiquei contente com isso? E por que ela não ia embora logo, simplesmente? Por fim, olhei-a de esguelha por sobre o ombro. Uma conversa meio civilizada com uma bastarda não me tiraria pedaço.
—Por que estava aqui, Willians? Hoje é domingo. Deveria estar com seus amigos, deveria estar no seu salão comunal ou qualquer outro lugar mais agradável que esse jardim assombrado.
—Eu poderia lhe fazer a mesma pergunta, Malakian... mas... nós não temos nada a ver com a vida um do outro!
Sua voz ficou embargada ao fim da frase, e ela finalmente abriu a porta e saiu o mais rápido que pode. Era como se aquelas palavras finais a tivessem ferido... “nós não temos nada a ver com a vida um do outro...” E essas palavras pareciam também me machucar, pois a pressão que então senti no peito, comprimindo dolorosamente meu coração, era muito diferente do que sentia até entrar ali. Antes era apenas frustração e raiva... e agora, o que era?

Continua...
Redenção é um conto presente na coletânea Romances em Fragmentos

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