The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos


Havia algo estranho acontecendo comigo e isso estava piorando! Depois do que presenciei de Romero Malakian no Jardim de Inverno e do encontrão que tive com ele no corredor principal, tudo tendia a aumentar e piorar! Não conseguia raciocinar direito o que acontecia comigo. Como pude permitir que ele me humilhasse daquela forma, quando nos esbarramos no corredor, e não ter respondido nada em minha defesa?! Que tipo de tola patética estava me tornando?! E, ainda por cima, pedi desculpas a ele?!!

Não, definitivamente, eu não estava normal, não mesmo! Eu senti pena de Malakian! Ele não merece isso! Não merece compaixão, compreensão, carinho... carinho?! O que se passava dentro do meu coração, afinal?! Eu estava a ponto de ter uma estafa! Tudo se chocava e se confundia dentro de minha cabeça e eu não conseguia esclarecer nada! Todos os livros que procurei não diziam nada. Doutora Feyerie disse que minha saúde era perfeita e não havia com que me preocupar. Apenas me aconselhou a estudar um pouco menos e descansar um pouco mais. Não tinha nenhuma amiga com quem desabafar, as únicas com quem conversava eram Emily e Zara; a primeira sempre muito preocupada consigo mesma, sempre sofrendo por Cayla nunca notar a sua existência; a segunda era ótima para se conversar sobre teorias da conspiração, mas nada além disso. Pensei em procurar a Professora Suzana, mas quando ela me olhou com toda aquela austeridade, percebi que ela não perderia seu tempo com as aflições de uma adolescente confusa nos seus 16 anos. Por fim, pensei em mamãe, mas ela estava tão distante e não tinha como nos comunicarmos... nunca consegui convencê-la em aceitar cartas entregues por um Silfo e não havia outra forma além de esperar as férias de Natal. Mas, qualquer ‘dia seguinte’ estava distante em uma eternidade! Por fim, pensei até em recorrer ao Cayla, mas ele também estava preocupado demais com as suas próprias teorias da conspiração, tanto que estava se tornando obsessivo em relação ao Malakian... Malakian?
Uma imensa tristeza se abateu sobre mim e cai em depressão profunda. Felizmente, era um domingo e não havia nada a se fazer, pois não tinha forças e nem vontade sequer de pegar um livro. Só o que queria era tirar aquela angústia do peito e chorar, chorar, chorar! Estava me sentindo completamente só, e Boré, com sua sensibilidade de trasgo, só fazia piorar as coisas. Passei a maior parte do dia escondida em meus refúgios, até ir para o Jardim de Inverno, na intenção de terminar o dia por lá. Embora eu negasse e tentasse sufocar isso, na esperança de rever Malakian... em sua “forma humana”, digamos assim.
Estava tão deprimida que fiquei horas sentada no chão ao fundo do jardim. Não conseguia dormir, não conseguia pôr em ordem meus pensamentos. Foi quando alguém abriu com raiva a porta, batendo-a com violência às suas costas. O som reverberou pelo vazio do lugar e aquilo me deixou com medo. Era Malakian. E ele estava possesso! O console, que tinha sobre ele, na parede, um imenso espelho, ficava logo de frente à porta de entrada. Malakian viu seu reflexo e aquilo parecia tê-lo ofendido muito. Um livro grosso que trazia na mão esquerda foi arremessado sem piedade contra o espelho, causando várias rachaduras imensas em forma de teia de aranha. Eu me senti acuada. Ele não havia percebido que eu estava lá e pensei em me esconder no gazebo. Não queria defrontá-lo naquelas condições. Mas, por ter passado horas sentada, imóvel, meus reflexos estavam quase nulos e, ao tentar me levantar, minhas pernas e braços fraquejaram e eu caí. Foi quando ele me percebeu e eu pude ver que seu rosto estava banhado em lágrimas.
Então não consegui ter mais nenhuma reação. Ver Malakian naquele estado era de petrificar! Fiquei lá parada, feito uma tonta, preza, hipnotizada por aqueles olhos cinzas que representavam a tempestade que deveria ir dentro dele. Ele também ficou imóvel, por não sei quanto tempo, segundos ou minutos, apenas me olhando: era como se ele não me enxergasse ou não compreendesse quem eu era, ou o que eu era. Cai em mim e, agora com as energias circulando novamente pelo corpo, consegui me erguer, me escorando na parede. Tentei fingir naturalidade, ajeitando minhas roupas amassadas e penteando rapidamente meus cabelos com os dedos. Cabisbaixa, fui caminhando para a saída, tentando a todo custo não encarar Malakian, que permanecia imóvel, me encarando, e sua expressão não era das mais amistosas. Porém, ele não me deixaria sair assim tão facilmente.
—Por que existem pessoas como você...? – Malakian perguntou numa voz embargada. A estranheza da pergunta se confundia com o tom em que falava.
—O quê? – Perguntei, num tom misto de inocência e indignação, pois não sabia se tinha entendido certo ou não.
—Por que, maldição, existem Despertos?! Por que maldição existem mestiços?! POR QUE MALDIÇÃO NÓS TEMOS QUE SER SUBJUGADOS POR AQUELES MALDITOS INCÔNSCIOS INÚTEIS?!
Eu tive medo. E estava sem o meu Bastão Magístico. Deveria sair correndo dali, mas eu estava paralisada, tentando entender o porquê daquelas perguntas... a verdade é que queria entrar na alma de Romero e descobrir o porquê daquela angústia que se mostrava tão transparente em suas palavras e atos. Eu queria entender e queria tirar aquilo dele! Pronto. Eu havia enlouquecido!
—Se você está... se tem alguma coisa que o está incomodando, Malakian, deveria ir buscar um auxílio, conversar com algum amigo ou...
Eu falava a ele num tom tão calmo e tão doce que surpreendeu até mesmo a mim! Só que ele não permitiu que eu terminasse, avançando pra cima de mim, segurando-me com raiva pelos braços e me prensando contra a parede. Aí sim eu tive muito medo e caí na real do quanto estava sendo tola e patética!
—O QUE VOCÊ ACHA QUE EU ESTAVA FAZENDO?! ACHA QUE SE ENCONTRA RESPOSTA NESSES MALDITOS LIVROS?! ACHA QUE EXISTE ALGUÉM DISPOSTO A LHE ESTENDER A MÃO QUANDO VOCÊ PRECISA?! NÃO, WILLIANS! NÃO EXISTE!
Os gritos dele ecoavam no jardim, tornando aquilo mais horrível. Ele estava tão próximo de mim que sentia sua respiração alterada. Eu mantinha os olhos fortemente fechados, na vã esperança de que aquilo sumisse... mas não era um sonho ruim, era a realidade! Encarei-o, finalmente. E consegui ver dentro de sua alma, através daqueles olhos cinzas de tempestade. E vi o quanto ele estava desamparado, acuado, com medo, embora suas palavras e ações demonstrassem exatamente o contrário.

—Você acha que não sei isso, Romero? Acha que não busco por respostas que nunca encontro? Acha que é fácil para mim, estar num mundo que não me pertence inteiramente e ter que me provar todo santo dia, provar que sou capaz e digna?!

Continua... 

Redenção é um conto presente na coletânea Romances em Fragmentos.

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