The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos



Desde as minhas últimas férias que eu não sabia o que era um momento de paz. De uma hora para outra, o Mestre das Trevas achou que eu era uma peça fundamental para a sua causa e passou a me pressionar a todo instante para servi-lo como ele queria. Jamais houve um convite. Sempre foi pura e simplesmente intimação. Ele sequer me deixava ter uma noite tranquila de sono. Entrava em minha mente, me exigindo ações. Assim como todos da minha idade, cresci ouvindo histórias sobre ele. No meu caso, suas ações terríveis eram glamourizadas. O Mestre era visto com o Salvador da Raça Bruxa, que nos devolveria o poder pleno sobre a Humanidade e purificaria a raça. Apenas os bruxos verdadeiros, como nós, minha família, prevaleceríamos. Eu confesso que o admirava, até meu pai ir para Papillon... e até que minha família passou a ser Casimiro de ameaças caso eu não fizesse o que o Mestre queria: preparar uma armadilha para tomar Hermes Trismegistus e derrubar de vez Casimiro Arcoverde.
Eu não queria. Preferia me formar e viver minha vida. A nossa fortuna garantiria diversão por mais três gerações. Depois que entrei para Hermes Trismegistus, vi que não era assim tão terrível conviver com impuros e Despertos. Passei a acreditar que eles podiam viver a vida miserável deles à vontade, desde que bem longe de mim! E a fortuna que herdaria, me garantia viver onde e como me aprouvesse. Mas o Mestre não aceitava de forma alguma isso. É engraçado, chega até ser irracional! Afinal, o próprio Mestre não era um sangue-puro, mas sim um mestiço! E mesmo o seu lado materno, que era o bruxo, não lhe garantia grandes vantagens, pois, apesar de ser o último descendente de São Cipriano, sua família já estava mais que apodrecida! Tanto que a família de seu pai Incônscio tinha mais honra e dignidade que a família bruxa de sua mãe. Talvez esse fato incontestável o fazia odiar tanto os impuros e Despertos. Mas, ao invés dele próprio fazer o que queria, assim como um general covarde que odeia mas se esconde atrás de seus tolos e ingênuos soldados, ele mandava seus peões agirem. Ele sequer se importava se era servido de boa ou má vontade. Ele somente decidia e mandava fazer. Se você não quisesse, simplesmente morreria.. e sua família também, claro!
Passei a dormir tarde e acordar cedo, antes que todos no colégio. Não havia uma noite em que não tinha pesadelos. Minha mente sofria sempre invasões e temia que isso me enlouquecesse. Não havia com quem contar, a quem pedir auxílio. Então pensei em buscar auxílio através de livros, um amigo verdadeiro que me daria soluções sem exigir nada em troca ou fazer perguntas. Algo que eu pudesse aprender sobre defesa mental. A hora pela manhã, antes do café, era a ideal para me enfiar na biblioteca e buscar o que queria sem a intromissão daquela velha antipática, a bibliotecária.
Foi quando eu caminhava distraído, absorto em mim mesmo, em meus pensamentos, que ouvi baques secos sobre o chão de pedras. Alguém estava apressado no corredor de cima. Mas, do momento em que ouvi a corrida e algo me atingir com força, assim que eu me aproximei da esquina do corredor principal, foi apenas um segundo. Senti o impacto e só não caí porque me segurei à parede, mas o que me atingiu se desequilibrou e foi direto ao chão, espalhando coisas que devia estar carregando. Fui pego de surpresa, desarmado, tanto que minha preocupação com o que me atingiu foi maior que a raiva de ter sido atingido. Me virei, ainda me apoiando com a mão à parede, e levou ainda alguns instantes para entender o que tinha acontecido.
Vi cadernos e livros espalhados no chão e um amontoado de pano negro de se remexia nervoso, juntando o material. Somente quando ela se virou para pegar o último livro, que estava caído próximo a mim, que pude ver que se tratava de Juliette Willians. O ódio que senti então, foi o suficiente para querer chutá-la ali mesmo! Mas me contive, sem saber o porquê. Decerto, palavras ferinas machucariam ainda mais, e sempre achei que praticar violência física era um ato inferior, nojento, coisa de Incônscio.
—Tinha que ser você, Willians! Começar o dia já esbarrando com uma maldita Desperta é o pior que eu poderia ter!
Ela parou de catar o material e me fitou com aquele olhar penetrante, repleto de ódio. Estava esperando por sua resposta. Era divertido trocar farpas com alguém inteligente, que entendia o que lhe falava e respondia à mesma altura. Mas ela apenas ficou me observando, e seus olhos se desanuviaram, e seu rosto se tornou sereno, lentamente. Ela nada disse até estar calma o suficiente para juntar o último do seu material no colo, e respondeu baixinho um singelo ‘desculpe-me’. Confesso que aquilo me tirou mais ar que o esbarrão que ela me deu! Ela se levantou, mantendo a cabeça abaixada, os livros e cadernos sobraçados ao peito. Eu não consegui dizer nada! Apenas fiquei olhando feito idiota para ela, até ela me dirigir novamente o olhar: um olhar que ficou em minha memória por alguns dias e que me deu ainda mais ódio da Desperta. Ela me olhava com piedade!
—Espero que não tenha se machucado, Malakian. Eu sinto muito pelo esbarrão.
Calmamente, ela voltou ao seu caminho. Aquela demonstração de humildade, de piedade ou sei lá que diabo era aquilo, se abateu sobre mim como uma afronta, como um escárnio! Não podia deixar ela ir embora dessa forma!
—Tá de sacanagem com minha cara, Willians! Acha que engulo esse teatrinho?! Quero que vá para o inferno com essa sua máscara de bondade e justiça, Ígneana nojenta!
É, me exaltei, desci demais. No mesmo instante, me senti ridículo e envergonhado por tamanha demonstração de infantilidade. Ela parou e percebi que ficou tensa. No momento, pensei que tinha ganho a parada e que ela mostraria a sua verdadeira face, mas apenas me olhou por sobre o ombro e o que me disse, num tom baixo e melancólico, me fez pensar por muitos dias.
—Nem todos que esbarram com você tem a intenção de afrontá-lo, Malakian. Se eu não estivesse tão preocupada comigo mesma, teria percebido que você estava aí e teria evitando esse acidente, tenha certeza disso! – E completou, dizendo num sussurro que só me foi permitido ouvir devido ao silêncio mórbido do lugar: —Nós já temos demais para nos preocuparmos com essas coisinhas também...
        Ela sumiu pelo corredor logo em seguida, e eu fiquei, ainda por algum tempo, encostado à parede, remoendo o ocorrido.

Continua...

Redenção é um conto presente na coletânea Romances em Fragmentos

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