The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos



Havia algo estranho no ar. Já havia há algum tempo. Para ser mais exata, havia algo ruim desde o fatídico evento que ocorreu há quatro anos, quando Anthrax havia ressuscitado, renascido do próprio inferno. E seu reinado, pouco a pouco, se reerguia. O próprio Mestre das Trevas não havia dado às caras por dois anos, mas, como exímio estrategista que era, e crendo ter a eternidade à sua disposição, tramava oculto pelas sombras. E mandava seus peões ao jogo, até o tabuleiro ser dominado por suas peças negras e ele próprio entrar em cena para o cheque-mate.
Comigo também havia coisas estranhas. Aliás, muito estranhas. E eu não estava gostando nada disso. O pior é que não conseguia me desligar dessas coisas estranhas que estavam acontecendo dentro de mim e voltar a ser como antes, apenas me preocupar com meus estudos e com meu futuro no Mundo Magnífico. Estávamos no penúltimo ano e era para eu me preocupar exclusivamente com os provões finais e com minha formatura no próximo ano. E quem disse que eu conseguia, inteiramente?
E não era, a princípio, a preocupação com o destino de todos nós, agora que Anthrax estava de volta e seus Soldados mais ativos do que nunca. O mais humilhante é que a minha preocupação, a minha perturbação, vinha de nada menos que Eugéne Boré! Não sei o porquê, mas eu começava a confundir a nossa amizade. E sequer tínhamos lá uma grandiosa amizade como eu tinha com Cayla Hanon, neto do Revolucionário francês Dominique Hanon. Mas talvez isso se devesse à pressão de estar chegando ao fim dos estudos ou a minha luta diária para me impor ao mundo bruxo e provar que posso ser capaz como qualquer um daqueles bruxos de família tradicional. Ou mesmo, miseravelmente, apenas hormônios... não sei, realmente não sei! Já não sabia com exatidão àquela época, hoje é que não saberei mesmo! Mas foi a partir de sentimentos confusos, ciúme infantil e sem propósito, que o meu drama teve início. A minha quase morte e a descoberta de um sentimento puro e verdadeiro que pode ser mais forte que as tradições, mais forte que a segregação, mais forte que o ódio, mais forte e poderoso que qualquer outra coisa que há, e que hoje me proporciona toda a felicidade que se é possível ter neste mundo.
Foi mais uma daquelas brigas infantis e idiotas que tive com o Boré. A sensibilidade de trasgo que ele possuía, sempre me dilacerava. E a sua indiferença era como um ato de violência, uma bofetada! E ao invés de esquecer dessas situações pueris, inúteis, me pegava completamente perturbada. Minha mente se turvava a ponto de não conseguir me afogar em livros e esquecer. Somente as lágrimas que derramava em abundância me ajudavam a me aliviar desse peso morto, de um sentimento confuso e incômodo. As horas em que passava estudando ou lendo na biblioteca me distraíam, até me faziam esquecer momentaneamente, mas bastava me encontrar com Boré e vê-lo com qualquer garota para a minha placidez ir por água a baixo. Isso era ridículo! Sentia-me humilhada! E só depois percebi que a humilhação não vinha da insensibilidade e indiferença dele para comigo. A humilhação vinha por eu permitir sentir o que sentia, por permitir ser abatida por algo tão miserável e por alguém que realmente não valia isso!
Muitas horas vagas e antes de dormir, passei sozinha, escondida, entregue a mim mesma e as minhas lágrimas, me auto-analisando para entender o porque daquela angústia. Algo em mim acreditava ser um absurdo nutrir sentimentos carnais por alguém que poderia ser considerado um irmão. Mais tarde descobri que o amor que sentia por Boré era o mesmo amor que sentia por Cayla: amor fraternal. Mas quando somos demasiados jovens, inexperientes, os sentimentos tendem a se confundir uns com os outros.
Mas foi nessa época que me deparei por algo que, se eu própria não tivesse visto e ouvido, eu jamais acreditaria, fosse pela boca de quem fosse que tivesse me contado. Como já era parte do meu costume desde que entrei para o Instituto de Magia e Alquimia Hermes Trismegistus, um dos meus refúgios dentro do castelo era o Jardim de Inverno. Obviamente que havia outros locais mais agradáveis dentro e fora do castelo, mas o Jardim era o lugar onde eu poderia ter a certeza de que não seria importunada por ninguém, além do Espírito que lá rondava, mas que com o tempo e, talvez vendo em mim as mesmas angústias por quais passou em vida, ela – pois que o Espírito era de uma garota que aparentava mais ou menos a minha idade, passou a respeitar minha privacidade e já não me incomodava há anos. Ingênua como era, acreditava ser a única que sofria e que recorria aquele refúgio. Até que, certo dia, fui pega de surpresa. Por algum tempo acreditei que se aquilo não fora um sonho, ao menos fora uma alucinação de uma mente perturbada e cansada.
O motivo tinha sido o mesmo, naquele sexto ano: Eugéne Boré. Depois que se tornou goleiro do time de Rockey da Casta Ígnea, ele achou que poderia brincar com quantas garotas quisesse, inclusive comigo! Naquele dia eu fiquei com tanta raiva, tanta frustração e mágoa de Boré, que por muito pouco não o transfigurei num rato e tranquei-o numa gaiola de hamisters! Mas isso seria muito errado e eu não poderia deixar que o ódio momentâneo me dominasse, e tudo que pude fazer foi sair correndo, tentando em vão segurar as lágrimas que derramavam teimosas pelo meu rosto. Acho que havia alunos pelo caminho que passava, pois ouvi murmúrios e risadinhas, mas não prestei atenção a nenhum deles. Busquei um atalho e consegui chegar ao inóspito Jardim de Inverno. Também não reparei se a garota-fantasma estava lá ou não, tudo que queria fazer – e mecanicamente fazia – era me trancar no gazebo e chorar até secar a fonte. E foi o que fiz. Sentei sobre uma das prateleiras, dobrei os joelhos à altura do rosto, sobraçando as pernas, e chorei tudo o que tinha direito a chorar. Chorei até cansar. E assim eu adormeci, exausta. Não lembro quanto tempo fiquei ali, talvez só alguns minutos ou uma/duas horas. Acordei com sussurros intercalados por um choro baixinho, algo tão doloroso e angustiante que me comprimiu o peito. Ainda zonza pelo sono, fiquei de pé e, com muito cuidado, abri a porta do gazebo, sem fazer um ruído sequer, e o que vi me gelou o estômago... e algo despertou dentro de mim a partir daquele dia.
De esguelha, oculta pela porta de vime entrelaçado, vi dois vultos; um era alto e magro, trajando preto, o outro era etéreo, acinzentado, não possuía pernas e pés, e logo percebi que se tratava do Espírito. Fiquei surpresa em vê-lo agindo seriamente, falando ao outro num tom carinhoso. Mas essa surpresa não foi nada quando vi que o outro vulto, que era uma pessoa viva de carne e osso, era Romero Malakian!
Mesmo apurando os ouvidos, não conseguia entender exatamente o que ele dizia, mas pude ver com clareza que ele chorava e sofria! Ele estava de cabeça abaixada, as mãos apoiadas na borda do console de pedras, que ele apertava com os dedos como se quisesse arrancá-lo da parede. E ele se desabafava com o Espírito! Mas a garota-fantasma falou algo que o desesperou e, num ato violento, se ergueu socando o console, virando-se até a parede oposta, socando-a em ira. Cansado, ele apoiou a cabeça sobre o braço que ficou recostado à parede, a altura de sua cabeça, e desses seus sussurros pude entender alguma coisa.
—Por quê?! Isso não é vida! ... Por que tenho que ser obrigado a fazer o que não quero?! Por que, simplesmente, não posso escolher o meu caminho, mas tenho que seguir o que eles escolheram?!
O Espírito, um pouco assustado, respondeu: —V-você n-não precisa seguir o mesmo caminho de seus pais... e-eles fizeram a escolha deles.. e você tem que fazer a sua. Eles não vão deixar de te amar só porque você não quer ser como eles...
Romero encostou-se à parede de azulejos encardidos, rindo baixinho, deixando-se escorregar até o chão, sentando-se e mantendo os braços esticados sobre os joelhos dobrados e a cabeça baixa. Na sua voz não havia o tom manhoso de menino mimado que sempre ouvi dele, mas havia resquício do sarcasmo tão típico dos Acquarinos. Ele parecia rir de si mesmo, rir da sua situação. Provavelmente, se achava ridículo por estar dentro de um jardim abandonado, desabafando suas mágoas para um fantasma.
—Eu não tenho escolha, não posso escolher meu caminho... tudo que sou é um escravo das circunstâncias! Sempre achei que a pureza do sangue e a fortuna da família me dariam toda a liberdade que quisesse... – Romero riu-se, silenciando-se em seguida num suspiro de exaustão. —Agora eu tenho que fazer o que não quero, para que ninguém...
Ele não completou a frase. Parou e ficou olhando cegamente à sua frente por algum tempo, até que se levantou do chão, se recompôs e saiu, batendo a porta sem ao menos olhar para o Espírito, que ficou ainda alguns instantes olhando para a porta fechada até flutuar e desvanecer.

      Eu voltei a sentar sobre a prateleira, dentro do gazebo. Estava estupefata. Não sabia o que pensar! A princípio, achei que ainda estava sonhando, mas a pressão dolorosa que havia em meu peito me lembrava que estava e muito bem acordada! Naquele momento, tudo o que eu já havia visto, ouvido e presenciado de Romero Malakian, passou pela minha cabeça como um filme em velocidade vertiginosa. E a partir deste dia me peguei a pensar nele, a pensar muito nele... e, finalmente, passei a enxergá-lo como um ser humano, uma vítima do meio em que vivia. Um escravo das circunstâncias, como ele próprio se denominava. E passei a refletir o quanto devia ser opressor seguir um modo de vida somente porque seus pais e sua família seguiam, todos escravos de tradições caducas e ideias preconcebidas que violentavam muito mais àqueles que as seguiam do que àqueles que lhes eram segregados.

Continua...

Redenção é um conto presente na coletânea Romances em Fragmentos

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