The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos

Só Resta O Começo

Quarto Ato: Lápides e Flores.
Dois anos.
Dois anos já se foram desde a última batalha entre Luz e Treva. Mais de setecentos dias sem as pessoas queridas. Mesmo a esperança não sobrevive a tanto tempo quando todos os fatos mostram de que nada ela adianta.
Num campo a quase se perder de vista, várias lápides em mármore branco se alinhavam formando uma perspectiva geométrica da grande tragédia que desestruturou completamente o Mundo Magnífico. O vento frio corria entre os blocos de pedras, brincando com a relva rasteira e algumas flores que insistiam em surgir entre os túmulos.
As árvores seculares da Floresta Dourada faziam-se guaridas para aquele cemitério de pessoas e destroços. Heras cobriam as ruínas do Instituto Hermes Trimegistus. Pequeninas árvores cresciam protegidas pelos escombros. Pássaros e pequenos animais faziam ninho onde antes fora um templo milenar de aprendizado. Mesmo em meio à morte, ironicamente a vida sempre surge. A vida sempre encontra seus meios de resistir e insistir.
Um imenso bloco de mármore negro erguia-se imponente no fim daquele cemitério, como fosse um guardião a zelar pelo descanso eterno de seus habitantes. Forjado em ouro havia o brasão de Hermes Trimegistus que encabeçava uma lista quase interminável de nomes... de todas as vítimas daquela guerra, dos que habitavam ou não aquele cemitério.
Um véu negro de esmeroso bordado se precipita com o vento, indo brincar entre as últimas lápides. Cachos longos e acobreados pousavam libertos pelos ombros daquela jovem de semblante tão triste.
Diante do bloco de mármore, ajoelha-se sobre a grama, depositando um grande buquê de flores brancas, erguendo-se novamente e postando-se firme diante daquela pedra negra e fria.
Seus delicados dedos percorriam pelas letras auto-relevadas em ouro, que formavam os nomes daqueles que lhe foram mais queridos em vida. Os nomes dispostos em ordem alfabética, e ela os lia seguida das lembranças dos momentos que compartilhou com cada um deles.
Laïs Luperco . . . Nelson Marillac . . . Roland Blanchot . . . Rosali Rendu . . . Thomas Dobermann . . . . . Ahriman Mainyu… seu nome sequer ali estava impresso, nem ali ela o encontraria! Seria isso algo bom, um tênue fio de esperança? Ou seria o vago que lhe restara, o nada para lembrar de sua existência, uma existência que se evaporou como uma leve neblina que sequer foi perceptível?
Recostou a testa no frio do mármore, cerrando os olhos, deixando sua mente e seu espírito vagar junto à brisa que soprava insistentemente, que brincava com seus longos cabelos e seu vestido negro que lhe cobria todo o corpo.
Mas às suas costas parecia surgir uma brisa morna, aconchegante. Rastos leves roçavam a gramínea. Uma áurea que transbordava luz preenchia de calor aquele ambiente frio e triste, silencioso e vago. Uma voz macia e terna a chamar seu nome...
— Ghillie...
A garota postou-se ereta e virou-se para voz. Um leve sorriso formou-se em seu rosto e ela precipitou-se até a pessoa que ali estava, também lhe sorrindo. Abraçou-lhe com fervor, como se abraça um pai ou irmão que há muito não se via. E ambos permaneceram ali, um nos braços do outro, por eternos segundos.
E o vento corria cada vez mais voraz, farfalhando as copas das árvores, varrendo a relva ondulante, espalhando pétalas e folhas por todos os lugares. No horizonte onde surgiam montanhas azuladas, o sol enviava seus últimos raios dourados naquele fim de tarde de outono, derretendo em ouro densas nuvens que cobriam como um manto o topo dessas mesmas montanhas.
Como se dançasse em volta, a brisa brincava de ir e vir com as vestes e cabelos longos daqueles dois personagens que destoavam naquela paisagem melancólica entre lápides e flores.
Arcoverde beija a testa de Ghillie, pousando-lhe as mãos sobre sua cabeça. Ela sorri um sorriso triste, as lágrimas davam um brilho adiamantado aos olhos cor de mel da moça.
—Que bom revê-la, criança...
—Eu digo o mesmo, Professor... e como vão as flores?
—Oh, belas, belas... germinando, crescendo, desabrochando para a vida. Se deixarmos que a Natureza faça seu trabalho sossegada, a vida é realmente flui e se torna bela e simples de compreender...
œœ*
—Eu sabia que o acaso me arranjaria um meio, uma vez que lhe dei todas as bases.. embora eu tenha esperado mais do que gostaria de ter feito!
Um homem esbelto de cabelos negros e curtos olhava atentamente para a placa sobre um consultório com um sorriso jovial nos lábios. No andar de cima da loja, outra placa na janela indicava que a sala estava sendo alugada. Era tudo o que queria.
O bairro quase totalmente residencial era calmo e hospitaleiro. Havia pouco tráfego nas ruas e poucas lojas existiam naquele quarteirão, cuja maioria das construções era em estilo vitoriano. Algumas árvores bem podadas encarregavam-se de dar um pouco de cor e beleza às ruas. O dourado das folhas oxidadas formava um degrade que se repetia também no chão de pedras bem postas que formavam desenhos circulares nas calçadas.
Enquanto aquecia as mãos nos bolsos do sobretudo bege que trajava, o homem, ainda sorridente, continuava a apreciar aquele nome escrito em letras pequenas na placa que indicava que a loja abaixo tratava-se de um consultório dentário... “Dr. Dhu – Cirurgião Dentista”.
Dhu... o sobrenome que lhe trazia recordações, o sobrenome que aprendeu a apreciar, o sobrenome da única pessoa que amou profundamente em toda a sua vida.
—Se isso não for obra de Merlim, eu não sei mais o que poderia ser... mas essa loja será minha, nem que eu tenha que usar magia para persuadir o proprietário.
Anotando o número do telefone indicado na placa do aluguel num pequeno caderno com capa em couro, o homem, antes de se retirar, ainda dá uma última olhada para a placa do consultório dentário, e partindo logo em seguida, ainda com um sorriso em seu rosto.
Sentia que finalmente havia chegado a hora de recomeçar de fato sua vida... sentia que se aproximava o dia em que teria Ghillie Dhu finalmente para si. Era tudo novo, outros tempos, e não havia nada que pudesse impedir de ambos se aproximarem.
œ*
O tempo estava nublado e frio. Uma chuvinha fina e insistente caia sem parar, mas isso parecia não tirar o ânimo daqueles trabalhadores que carregavam pesadas peças de móveis a serem montados para o segundo andar do pequeno prédio comercial.
Um homem alto e magro, de cabelos negros e curtos, observava de perto toda a movimentação, aparentemente satisfeito com a forma eficiente que os trabalhadores faziam o serviço. Afinal, ele não poderia exigir muito daquelas pobres criaturas infelizes que eram obrigadas a trabalhos braçais por não disporem de magia.
Quando os dois últimos homens subiam cautelosamente carregando algumas vidraças para o que viria a ser o balcão e as prateleiras, Ahriman Mainyu preparava-se para também subir e fiscalizar a montagem de seus móveis, quando um carro pára próximo ao caminhão de mudança apenas para deixar seu passageiro e segue novamente seu rumo.
O homem que saltara do carro, aparentava entre 45 e 50 anos, e trajava roupas brancas debaixo de um casaco de lã marrom. Observou com curiosidade o caminhão parado em frente ao seu consultório, vendo que a movimentação era na loja do segundo andar, logo acima da sua.
Mainyu observava o homem, notando algumas familiaridades, como a forma curiosa de observar as coisas, o olhar aguçado que dava um ar inteligente e o sorriso otimista no rosto de quem já sabe dos fatos apenas por ver meras evidências.
Ele já tinha quase certeza de que se tratava do pai dela... no mínimo, algum parente próximo, mas com certeza com o mesmo sangue que o dela.
E aquilo lhe deu uma sensação de alegria que há muito tempo não sentia.
Dr. Dhu finalmente focalizou o rapaz esbelto e sisudo que parecia observar-lhe. Sem se intimidar, aproximou-se do estranho, com um sorriso cortês no rosto e a voz amigável.
—Bom dia! Então é o senhor que será o nosso novo vizinho?
—Oh, sim.. creio que sim.
—Bem, sou Faber Dhu, o cirurgião dentista daquele consultório ali... – dito isso, o Dr. Dhu apontou o polegar para sua loja, estendendo a mão em cumprimento a Mainyu logo em seguida. —É bom saber que o velho Robert Fish finalmente encontrou um inquilino que corresponde às suas exigências.. essa loja estava há muito tempo para ser alugada!
—É, sim, Sr. Fish, o proprietário, é um homem muito exigente sim, mas não foi tão difícil convencê-lo de que eu seria um bom inquilino... - “não quando se é persuadido com um pouco de magia, aquele velho gagá!”. ¾ A propósito, sou Ahriman Mainyu, farmacêutico.
—Oh, um farmacêutico? Isso é excelente! Muitos de meus pacientes me pedem que eu receite medicamentos homeopáticos aos alopáticos... é um ramo que tem se desenvolvido muito. Tenho certeza que terá muitos clientes. Há um clínico geral que só trabalha com homeopatia, a uns dois quarteirões daqui.. seria interessante conhecê-lo qualquer hora dessas.
“— Incrível, até a loquacidade é a mesma!” —É, eu realmente espero ter muitos clientes.
—E terá, meu caro, com certeza. Agora, se me der licença, preciso ir para o consultório antes que minha assistente tenha um chilique com meu atraso. Ela é terrível, mas muito eficiente! Qualquer coisa, estamos aqui. Seja bem vindo e boa sorte com a arrumação! – O Dr. Dhu já se adiantava para seu consultório, dando um tchauzinho para Mainyu por sobre o ombro, sem esperar pela resposta do novo vizinho.
Mainyu ficou observando o dentista até que ele desaparecesse porta adentro de seu consultório, quando girou em seus calcanhares rumo a pequena escadaria do prédio. Com um sorriso satisfeito no rosto, murmurou para si próprio...
—Certamente que Faber Dhu é o pai de Ghillie... o começo está cada vez mais próximo... muito obrigado, Merlim!

Só Resta o Começo - Conto em 5 partes, do livro "Romances em Fragmentos".

0 comentários:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Santa Tranqueira Magazine