The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos

Só Resta O Começo

Segundo Ato – Um Mês Depois.
Um mês depois. Constatava-se a perda irreparável do Mundo Magnífico. Anthrax fora morto por Thomas Dobermann, que veio apenas para cumprir uma profecia. O menino que uma vez sobreviveu a uma primeira guerra, só veio a existir para ser a destruição do mais ambicioso Bruxo da História. Ambos vítima e algoz um do outro. E a profecia se cumpriu. Lados opostos se atraíram e se anularam. Pouco restou depois disso.
Os ferimentos externos foram curados sem quase restar cicatrizes. Mas o coração continuava a sangrar. A alma dilacerada em dores. Muitos dos que amou e odiou estavam mortos. Seus irmãos de coração padeceram nas garras ferinas da guerra. Sua mãe de alma também. Mas o lenitivo de sua existência estava desaparecido.
Precisava encontrá-lo.
De seu grande amor restou apenas as lembranças de sua existência. Os sonhos e desejos que não foram concretizados. A declaração não externada. O sentimento permaneceu guardado, oculto em seu coração. Nada dele fora encontrado. Ainda havia uma breve esperança.
—Você tem certeza de que quer fazer isso, filha? O Mundo Magnífico foi praticamente dizimado... não vejo onde ele poderia estar... e por que estaria escondido.
—Eu sei, Prof. Arcoverde, mas é algo que preciso fazer. É vital que eu faça. Essa maldita guerra nos consumiu a ponto de nos fazer inimigos de nós mesmos! Para proteger o meu amor e evitar o seu sofrimento, fiz com que ele me odiasse nos últimos tempos... e como me arrependo disso agora!
—Esse é um erro que cometemos sem que possamos evitar... o egoísmo às avessas. Maltratar quem amamos para que não sofram com nossa perda. É um erro natural. Não se culpe por isso, Ghillie.
—É, sei... talvez eu esteja sendo prepotente, mas penso que se Ahriman soubesse o quanto eu o amava.. amo... seria um motivo para continuar...
—Se você só ficará em paz consigo mesma desta forma, então faça isso, querida. Também sinto que nosso amado Ahriman está vivo, em algum lugar. Mande lembranças minhas quando o encontrar e diga para vir me visitar, algum dia.
—Para onde você pretende ir, professor?
—Vou aceitar um convite de uma velha amiga, um convite de muitos e muitos anos... irei para a Holanda, cultivar flores na Comunidade Findhorn. E plantarei uma árvore para cada um dos nossos, para cada um de nós... depois do fim, só resta o começo, mesmo.
—Para mim, é só depois do fim, apenas... minha vida só recomeçará quando o encontrá-lo. Tudo o que quero é vê-lo vivo e bem. Não me preocupa se ele irá me hostilizar, se desdenhará e zombará de meus sentimentos... tudo que quero é encontrá-lo...
 “Quero voltar ao meu ninho,
Onde não devo morrer
Das roseiras entre o espinho,
Nos destroços do moinho
Rolas ouvindo gemer;”
(1º verso de “Desiderium” – Sousândrade – 1832~1902)
— O senhor está completamente recuperado, o que eu diria que é quase um milagre. Quando a ambulância do corpo de Bombeiros o trouxe para cá semimorto, acreditávamos que não iria se recuperar!
— Fico feliz que não tenham me tratado como um semimorto mesmo. Agradeço tudo que fizeram por mim... “embora não tenham sido muito eficientes! Se fosse no Hospital Holístico St. Germain, eu teria ficado curado em 3 dias e não em um mês... Incônscios, enfim...”
— É a nossa obrigação, Sr. Mainyu. O senhor já pode ir para casa, está de alta.
“— Casa... nunca mais. A antiga vida chegou ao seu fim há um mês, agora só resta o começo. Nova casa. Nova vida...”
Não há mais casa a qual retornar. O mundo ao qual pertencia já não mais existe. Mas ainda há a vida... uma longa vida pela frente, ao que hoje parece. Como um pagão recém-nascido, deverá procurar novo abrigo fora do mundo intra-uterino, uma nova religião a qual rezar.
É tudo absolutamente novo. E é tudo absolutamente possível. É o pacote básico que vem junto com a liberdade adquirida. A existência continua, porém a vida mudou. Seu passado parece agora ainda mais distante. É uma outra vida, é como se a outra não tivesse existido. É como um filme longo e memorável, mas agora apenas isso.
Recomeçar... ou começar de fato?
Liberdade de ir e vir, de fazer aquilo que se quer, de se experimentar novos sabores, de partir para novas conquistas. E isso lhe trazia uma certa felicidade.
Mesmo que muitos que estimava tenham tombado na guerra, ainda assim sentia uma irracional felicidade de poder continuar a respirar neste mundo. Ou seria uma profunda amargura de ainda continuar quando quase todos se foram? Não dá para distinguir.
Só lhe resta seguir adiante, continuar a vida que não lhe foi tirada. Só resta o começo.
E é o que fará. Começar. E partir do zero, do ponto em que sua vida se encontrava naquele momento.
E se, por alguma benevolência divina, pudesse ter de volta algo de seu passado, apenas iria querer ELA, embora jamais a tivesse alguma vez... embora ela lhe odiasse, como havia deixado bem claro! Mas era uma nova vida da qual esse amor impossível em seu passado poderia ser alcançável neste seu novo futuro.
E o que faria agora seria se estabelecer em seu novo mundo. Construir seu novo alicerce. E buscá-la seria... bem, esperava que o ‘acaso’ lhe arranjasse um meio, uma vez que lhe daria todas as bases.

Só Resta o Começo - Conto em 5 partes, do livro "Romances em Fragmentos".

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