The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos

Só Resta O Começo

Primeiro Ato – O FIM
 Em fundo de tristeza e de agonia
O teu perfil passa-me noite e dia.
Aflito, aflito, amargamente aflito,
Num gesto estranho que parece um grito.
E ondula e ondula e palpitando vaga,
Como profunda, como velha chaga.
E paira sobre ergástulos e abismos
Que abrem as bocas cheias de exorcismos.
Com os olhos vesgos, a flutuar de esguelha,
Segue-te atrás uma visão vermelha.
Uma visão gerada do teu sangue
Quando no Horror te debateste exangue,
Uma visão que é tua sombra pura
Rodando na mais trágica tortura.
A sombra dos supremos sofrimentos
Que te abalaram como negros ventos.
E a sombra as tuas voltas acompanha
Sangrenta, horrível, assombrosa, estranha.
E o teu perfil no vácuo perpassando
Vê rubros caracteres flamejando.
Vê rubros caracteres singulares
De todos os festins de Baltazares.
Por toda a parte escrito em fogo eterno:
Inferno! Inferno! Inferno! Inferno! Inferno!
 (fragmentos de ‘Pandemonium’ - Cruz e Souza)

O céu parecia querer desabar com a tempestade violenta. Raios cortavam por entre densas nuvens quase negras enquanto trovões ensurdecedores brandiam como metais pesados se chocando. Gotas grossas e pesadas caiam na terra como bombas em miniatura. O inferno da Terra parecia se refletir no céu.
O temporal lavava um corpo jogado na Terra, formando uma poça de lama e sangue. Embora ainda fosse fim de tarde, as nuvens baixas tampavam toda luminosidade, fazendo parecer altas horas da noite.
O corpo inerte ainda apresentava um suspiro de vida. Nem o Inferno na Terra, nem a fúria dos Céus tirariam a felicidade ensandecida daquele homem quase afogado na lama de seu próprio sangue.
Numa risada engasgada, o homem em trapos reúne toda a força que ainda lhe restava, virando-se de costas sobre a lama, caindo num baque surdo, encarando o céu violento.
Graves ferimentos espalhados pelo corpo continuam a jorrar sangue. A chuva forte machucava ainda mais suas chagas, mas isso já não importava. Pela primeira vez na vida estava livre. E poderia até morrer, pois experimentaria a morte em liberdade. Uma dádiva! Enfim, havia sido perdoado por todos seus erros e seus crimes. Os Céus lhes davam a benevolência de morrer livre... a liberdade que jamais tivera em vida. Mas isso já não importa.
Com um último suspiro de suas forças exauridas, rasga com gosto a manga esquerda de sua veste, deixando a mostra um braço branco e frio como cadáver, recortado em vários ferimentos, mais nada além disso. A tatuagem em seu corpo que escravizara sua alma desapareceu completamente sem deixar qualquer sombra de vestígio. Desapareceu como se jamais tivesse existido.
—ACABOU!! HAHAHAH!! ACABOU!!!
O último rastro de violência vinha do céu que desabava numa furiosa tempestade, lavando a Terra do sangue e da maldade de uma batalha encerrada, onde todos perderam. Enfim, toda a guerra é vã... só resta aos Céus chorarem pela ignorância de seus filhos, a Terra devorar os restos de um festim diabólico e o Tempo apagar todas a marcas deixadas pela estupidez de muitos.
—THOMAS!! THOMAS!! Por favor, acorda! ACORDA!!!
—Acabou, filha... ele não vai voltar...
—Não, professor!! Isso não pode ser!! Ele tem que voltar! Agora, mais do que nunca, ele precisa viver! Acorda, Thomas!!
—Ghillie, acabou, filha... acabou...
—Isso não, professor! Isso não é justo! Thomas não pode ter vivido só para destruir aquele maldito! Isso não, isso não!!
Ajoelhado e em farrapos, Casimiro Arcoverde apertava contra seu peito numa proteção paternal uma Ghillie Dhu totalmente inidentificável, derramando toda a dor e angústia em soluços descontrolados. Roupas esfarrapadas. Corpo ferido. Alma dilacerada.
Thomas Dobermann jazia inerte à sua frente. Seus olhos azuis jamais foram tão opacos. O corpo ferido, ensanguentado. A alguns passos à frente, um cadáver esquelético, carbonizado, desfazia-se em pó pelo vento que corria por entre ruínas e destroços.
“Do pó ao pó. Das cinzas às cinzas. Do pó viemos, ao pó retornaremos...”
E é a cinza a única lembrança física daquele que causou todo o holocausto que tirou as vidas de milhares que lutaram numa guerra tola. Perda de ambos os lados. Mortos os prós. Mortos os contras. Dois anos de história e conquistas destroçados, arruinados. Acabou. O fim para os dois pólos. A liberdade recém-nascida encontraria poucos corações para habitar.
Muitos corpos espalhados por entre os destroços daquele que fora uma magnífica fortaleza, um verdadeiro templo de sabedoria e conhecimento. Corpos mortos. Corpos vivos. O fim havia chegado. Agora só resta recomeçar.

Só Resta o Começo - Conto em 5 partes, do livro "Romances em Fragmentos".

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