The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos



O conto a seguir está publicado na Coletânea Romances em Fragmentos, que pode ser adquirida no site Clube de Autores.

Assim como todos os textos que compõe a Série Contos de Snake (ou Snake Stories), Samhain é inspirado pelo mundo potteriano, criado por J K Rowling. Antes de Samhain ser um texto original, inclusive registrado no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional, ele era uma fanfic, cujo ship era Hermione Granger e Severus Snape. Em 2010, este conto foi readaptado, tornando-se um texto original, e publicado, primeiramente, na Antologia Beijos & Névoas.

Se você está aqui pela primeira vez, deve está achando muito estranha essa conversa, e se perguntando intimamente: "Mas, isso não é plágio?". Eu posso lhe responder a essa indagação: Não, não é plágio. Isso que apresento é uma obra inspirada em outra obra existente. E sendo um texto original, a inspiração fica por conta da ideia base, de "um mundo mágico e paralelo, onde bruxos e bruxas têm um sistema social parecido com o nosso, mas que vivem ocultos ao nosso conhecimento".

Mesmo uma fanfic não é considerada plágio (o correto é afirmar que se trata de uma Intertextualidade), e uma prova contundente disso é que o maior portal de fanfics do mundo, o Fanfiction.net, continua ativo até hoje, mesmo após a grande limpeza que o governo dos EUA e o FBI fizeram pela internet, com sites que violavam direitos autorais.

Então, deixe suas desconfianças e preconceitos de lado e descubra um mundo literário diferente, que trás histórias alternativas às suas leituras preferidas.

E, ao contrário de muitos por aí, nós aqui não negamos as nossas inspirações e Intertextualidades.


Samhain, Dia das Almas

O Bar Green Man estava adornado com enfeites espalhafatosos e animados. Abóboras iluminadas por velas eram as fontes de luz que davam um ar aconchegante ao lugar. Tigelas de cristais, repletas de doces de formas engraçadas, estavam a disposição nas mesas espalhadas pelo salão do bar.

A garçonete de curvas voluptuosas corria de um lado ao outro alegremente, equilibrando a si mesma em altos saltos agulhas, enquanto fazia malabarismo com uma grande e pesada bandeja de prata, com várias canecas enormes de Stout, a cerveja escura irlandesa, cuja espuma cremosa transbordava farta pelas bordas.
Após um ano de intensas lutas contra as forças das Trevas, que custou muitas vidas e muito sofrimento, o Povo Místico voltava a viver uma vida tranquila, sem medos e sem receios. As forças do mal foram dissipadas e a Paz instaurada. Portanto, tudo agora era motivo de comemoração! E a comemoração era ainda maior quando a ocasião era muito especial. No caso, não havia data comemorativa mais importante para o Mundo Magnífico do que o All Hallows Eve, a Noite de Todos os Santos.
Neste primeiro ano sem a ameaça das Forças do Mal e seu Exército das Trevas, homenageavam-se os mortos, especialmente aquele que morreram na guerra, com respeitosa alegria.
Alegria, sim, pois a morte faz parte da vida, e graças aos sacrifícios de muitos, milhões agora podem continuar a viver e perpetuar a força daqueles que deram suas vidas em prol de algo tão valioso quanto a Paz e a Liberdade. Lastimar-se seria desonrar aqueles que entregaram suas vidas para que as vidas de outros prosseguissem harmoniosamente. Havia, sim, a saudade, mas a alegria era uma silenciosa obrigatoriedade para honrar e agradecer aos mortos por seus sacrifícios.
Já passava da meia-noite e a festa não dava mostras de terminar. As pessoas dentro do Green Man cantavam em coro desafinado, riam, gargalhavam, algumas dançavam. Um irlandês de juba vermelha, tão alto quanto largo, sobraçava o outro mais mirrado, e ambos, muito entusiasmados, puxavam o coro com as faces rubras e os olhos estatelados devido a algumas dezenas de canecas de cerveja. O bar era a materialização da alegria. As pessoas se divertiam de forma saudável, felizes e aliviadas por poderem retornar às suas vidas, comemorando cada segundo de Paz que lhes fora concedido após anos de segregação racial e liberdade tolhida e vigiada.
Mas, para ela, toda essa alegria já havia se excedido... Ninguém percebera sua repentina desolação. Despediu-se silenciosamente de todos, com um sorriso triste no rosto cansado, correndo seus olhos dourados por aquela turba de boêmios, já com a mão na maçaneta da porta de saída.
Ganhou a rua deserta em menos de um segundo. As risadas, falações e músicas ficaram abafadas quando a porta bateu às suas costas. O ar estava álgido. Ainda era Outono, mas as estações nunca mais seriam as mesmas após a guerra que violentou até mesmo a natureza da Terra. Uma rajada de vento a fez tremer e se encolher, balançando seus cachos avermelhados que caíam soltos às suas costas. Uma névoa se formava com sua respiração.
Maeve ergueu os olhos para o céu parcialmente encoberto, onde ainda era possível ver uma formosa e imponente lua cheia e algumas estrelas que cintilavam como diamantes ao fogo. As nuvens finas, que cobriam boa parte do céu noturno, anunciavam uma chuva igualmente fina que, provavelmente, se condensaria em cristais de gelo com a atmosfera anormalmente fria para aquela época do ano.
O luar intenso iluminava bucolicamente uma das principais cidades do Mundo Magnífico, que fora totalmente destruída e que agora gabava-se de seu renascimento como se jamais tivesse tombado alguma vez. Os lampiões das calçadas brilhavam como lágrimas na noite, um vapor produzido por seu próprio calor pairava e se dissolvia no ar.
Maeve, de cabeça baixa e braços cruzados com força sobre o peito, caminhava decidida, em passos firmes. Seus sapatos baqueavam os paralelepípedos. Seus passos e sua respiração forte juntavam-se aos sons naturais da noite, ao vento que cortava as copas de árvores e telhados. Nuvens lanosas passavam apressadas sob a lua, criando sombras movimentadas pelo caminho.
Sem se importar com o frio que a castigava, subiu com perseverança a colina que começava após o término das construções de tijolinhos maciços, que caracterizavam a cidade que se parecia com um vilarejo medieval. Os lampiões se escasseavam e o caminho começava a ser iluminado apenas pelo luar. Apesar do céu ter sido encoberto por nuvens de chuva, a lua cheia jogava seus fortes raios sobre aquele manto lanoso que refletia e potencializava sua luz, tornando a noite quase tão clara quanto o amanhecer do dia.
Do alto da colina do pequeno Castelo, podia se avistar toda a extensão da cidade mística e sua floresta densa. Correndo os olhos pela área a sua volta, Maeve via algumas fogueiras¹ crepitando ao longe, nas pequenas propriedades rurais da cercania urbana. Olhou para trás, para o vilarejo que podia ser avistado quase na sua totalidade daquela colina. Viu sem alardes vultos de luz prateada que deslizavam pelas calçadas e ruas desertas. Já não era mais possível ouvir qualquer ruído do Green Man.
O vento gelado que soprava insistentemente era o único a ressonar por ali. Maeve, contemplativa, voltou-se para frente, abandonando a cidadezinha às suas costas.
O vento frio fazia ir e vir os seus cachos. Olhava a imensidão escura que se desnudava à sua frente. Ela estava distante, absorta em seus pensamentos, mal ouvindo os passos mansos e cautelosos que se aproximavam, amassando a grama quase seca pela geada temporã. Sentiu que alguém parou próximo. Um calafrio percorreu seu corpo e que não foi provocado pela temperatura que caia vertiginosamente. Sua respiração se alterou e, sabendo que de nada lhe adiantava fugir – pois, por mais que quisesse, não poderia fugir de si própria, de seus sentimentos, de seu coração... – com certo temor, virou-se por sobre o ombro e o calafrio gelou seu peito.
— Michael...
Michael Collins apenas deu um leve sorriso sarcástico, uma de suas marcas registradas, desviando seus olhos para a ponta de seus sapatos. Cabelos ruivos e longos caiam por seu rosto, ocultando parcialmente sua fisionomia abatida. O ex-revolucionário do Mundo Magnífico estava mais magro e pálido do que de costume.
— Eu não me importaria de passar toda a noite aqui, mas prefiro não ser mais ignorado por você, Maeve...
— Eu não... – Maeve interrompeu-se, voltando-se tristemente para o horizonte noturno.
O silêncio dela o machucava, ele se permitia admitir isso. A sua vida inteira fora forjada para derrotar as Trevas custasse o preço de sua alma se necessário, e jamais poderia permitir que qualquer coisa ou até mesmo alguém desviasse sua atenção e suas energias desse objetivo. Agora que tudo havia se acabado, ele se permitia viver aquilo que seu coração desejava...
Olhou para o céu recoberto por nuvens que se tornaram densas, ocultando a lua cheia que ainda refletia seus raios sobre elas, deixando a noite clara. O frio se intensificou, fazendo com que sua respiração formasse uma neblina tênue. Logo começaria a nevar.
— O senhor não quis participar das comemorações? – Perguntou Maeve, sonsamente, apenas para quebrar aquele silêncio que a incomodava.
Collins voltou sua atenção à mulher. Perdia-se em divagações enquanto observava Maeve, que parecia se proibir de lhe dirigir um olhar que fosse. Passados alguns minutos, achou por bem responder a pergunta dela.
— Eu não seria bem vindo... Mesmo que tudo tenha se esclarecido, jamais serei perdoado por ter levado tão longe tudo aquilo que o nosso líder planejou por tantos anos...
— Porque se a morte é a última opção desesperada, então é possível tomar outras atitudes e tentativas. A morte é o fim, não há segunda chance! – Maeve respondeu, como se a completar os pensamentos de Collins, com um tom rancoroso em sua voz.
Ele inspirou profundamente, demonstrando todo o seu pesar. O preço de sua extrema lealdade ao líder intelectual da Força Revolucionária e herói do Povo Místico, William Lamport, seria a cruz que carregaria por muito tempo em solo acidentado. Sabia disso e não buscaria modificar essa consequência que previu e aceitou. Porém, jamais previu que seu coração reclamaria pelo perdão de alguém.
— Já falamos sobre isso... carregar para sempre o peso desse ato é o pior castigo que eu poderia ter! Mas a guerra requer grandes e dolorosos sacrifícios. O de Lamport foi sua vida, o meu é o assassinato dele!
Por um momento, ao ver Maeve passiva, Collins pareceu se desesperar e sua voz saiu próximo de um suplício.
— Você conhece a verdade, Maeve... a entende... por que é tão difícil de aceitá-la?!
O céu tornou-se ainda mais branco quando a chuva fina começou a cair, mas o ar frio era tanto que condensava as gotículas muito antes de elas tocarem o chão. Então, delicados flocos de neve caíam lentamente e logo tudo se tornou esbranquiçado. Sobre as duas figuras solitárias no alto da pequena colina, os flocos começaram a se acumular em seus cabelos e ombros.
— Todos sabem da verdade... foi com muito custo que todos a entenderam... mas, aceitar?! Francamente, Sr. Collins, isso é quase inconcebível!
— Dói ouvi-la me chamar com tanta polidez, sabia? – Collins inquiria num tom misto de tristeza e zombaria. —Eu realmente não me importo com o que todos pensam de mim, mas você...
Maeve se irritou com aquele “mas você”, virando-se abruptamente em direção à cidadela. Lutava contra seus desejos que se opunham às suas convenções. Uma luta dolorosa, mas o ‘certo’ deveria prevalecer, sempre!
— Isso é loucura! Tudo foi uma loucura! E o que aconteceu entre nós não foi diferente! Esqueça tudo isso! Aquilo foi um erro! Um erro!
A moça, em passos largos, tentou fugir, descer a colina rumo à rua de pedras e lampiões gotejantes. Precisava sair o quanto antes dali! Não permitiria que sua mente e sua razão fossem dominadas por emoções tolas que teimavam em lhe contradizer, mandando-a que ficasse, que baixasse completamente a fortaleza que guardava seu castelo de atitudes certas, lógicas e ponderadas. Não poderia amar um homem que fora o assassino de William Lamport, mesmo que sob a lealdade inquebrantável que Collins estava preso ao líder revolucionário!
Seu coração perdoava e entendia, mas sua mente não conseguia aceitar tal fato! Em ação rápida e furtiva, Collins impede que Maeve prossiga, segurando-a pelo braço esquerdo. Temia machucá-la com a força que empregava, mas não poderia correr mais uma vez o risco de perde-la novamente, de deixá-la fugir. Não lhe restava mais tempo para isso. A moça virou-se assustada, mas sua expressão de quase desespero se esvaeceu ao encontrar clemência e doçura naqueles olhos castanhos que costumavam ser tão frios, como se não pertencessem a um ser vivo.
— Essa maldita guerra já tirou demais de todos nós! Perdemos demais!
Collins trouxe Maeve para junto de si, enlaçando-a com os braços. A moça não reagiu. Apenas continuou a olhar em expectativa, como que hipnotizada.
— Chega de perdas! – Sussurrou Collins em sua voz grave.
O sussurro foi calado por um beijo suave e calmo. Collins temia piorar a situação dessa forma, mas necessitava provar seu amor por Maeve e receber sua absolvição. Ele precisava alcançar a sua paz e só poderia fazê-lo através de sua amada. A moça relutou e lutou temporariamente. Não queria ceder ao beijo. Mantinha-se rija, ainda sustentando desesperadamente as muralhas de sua fortaleza. Apesar da neve fria que caía cada vez mais intensamente, fazendo a paisagem noturna ter um aspecto fantasmagórico, o calor da emoção os envolvia como um manto quente, feito um abraço invisível.
O vento que soprava no alto da colina trazia consigo uma melodia longínqua, baixa, o farfalhar da vegetação. Conforme a sensação de tempo e espaço se esvaecia para Maeve, e o calor invisível intensificava seu abraço, a moça foi cedendo finalmente aos apelos de seu coração, entregando-se aos beijos e carinhos de Collins.
Suas últimas defesas caíram por terra e Maeve enlaçou com força o pescoço de Collins, escondendo seu rosto no ombro dele que, por sua vez, num suspiro de alívio, intensificou ainda mais seus braços em torno do corpo esguio dela, perdendo-se pelo emaranhado de cachos avermelhados e absorvendo todo o perfume que conseguia; aquele mesmo perfume floral que experimentou por uma única vez, por uma noite que poderia ter durado uma vida inteira, mas cujas horas se passaram como segundos... Porém, essa única noite de amor foi o suficiente para firmar para sempre em sua alma o seu sentimento por Maeve e nem a batalha final da insana guerra foi capaz de apagar o mínimo que fosse daquela impressão que carregaria pela eternidade.
— Eu te amo demais, Michael... – Maeve sussurrava com voz embargada, mantendo-se firme, enlaçada ao pescoço de Collins, como a temer que ele se fosse dali como a pequena neblina dos lampiões. — Eu entendo o porquê das atitudes que tomou... entendo o fardo que carregava... entendo que não havia escolha para você... eu entendo que você havia se tornado escravo de um pacto... eu te perdôo, Michael... eu já havia te perdoado há muito tempo!
Collins suspirou exasperado, mas aliviado. Afastou-se apenas um pouco de Maeve para poder encará-la, enxergar dentro da alma dela através dos olhos dourados que luziam pelas lágrimas. Suas defesas também haviam caído por terra e sua alma nunca esteve tão visível através de seus olhos castanhos que, ironicamente, mostravam uma grande fonte de vida, como jamais estiveram antes.
— Obrigado, Maeve... muito obrigado...
Tentando em vão conter seu pranto, Maeve respondeu em voz chorosa, quase se desesperando;
— Não! Por favor... não diga isso!
— Eu preciso... – respondeu Collins, com uma expressão plácida e feliz, que Maeve presenciou apenas uma única vez... na noite de amor que tiveram, antes da última batalha, quando descobriu que o assassinato do líder fora um plano arquitetado pelo mesmo.
— Você não pode! Não pode ser assim! – Dizia já em prantos, agarrando com força as mangas da veste negra de Collins.
— Concordo... não deveria ser assim, mas...
Collins se silenciou com um novo beijo, sentindo o gosto levemente salgado das lágrimas da mulher, que caiam em seus lábios. O vento soprava mais insistentemente. Suas veste e seus cabelos se misturavam como se bailassem. Os flocos de neve caiam em espiral, lançando pequenos brilhos difusos como se portassem luz própria.
— Obrigado, Maeve... obrigado por me conceder o descanso para minha alma, por me conceder a paz que eu buscava...
Collins afastou-se sem desviar seus olhos dos de Maeve, que permanecia prostrada, imóvel, apenas suas lágrimas escorriam abundantes e silenciosas por sua face corada. Ela levou suas mãos ao peito, como se quisesse conter as batidas dolorosas de seu coração.
— Eu te amo, Maeve... e o que sinto não mudará aqui deste lado... obrigado por permitir que isto seja a única coisa que levarei deste mundo...
Com um sorriso singelo, Collins esvaeceu-se como uma luz que se apaga lentamente. Sua forma se desmanchou em milhares de pequenos pontos brancos e luminosos, subindo ao céu através da luz que surgia por uma brecha nas densas nuvens de chuva, formando um espiral que se confundia com os flocos de neve que ainda caiam.
Somente quando a luz finalmente se apagou e o céu voltou a ser encoberto por nuvens compactas, que Maeve deixou-se cair de joelhos no solo forrado pela neve que refletia a tênue claridade do céu. Suas lágrimas escorriam de seu rosto e formavam pequeninos côncavos na neve que derretia ao contato morno. O vento começava a diminuir sua intensidade e a nevasca a ceder, mas ainda os flocos de neve brincavam se espalhando leves pelo ar frio. Ao longe, na cidadela e no vale, luzes prateadas surgiam e evaporavam, piscavam como vagalumes perdidos na imensidão noturna.
Samhain, o Dia das Almas... era 31 de Outubro, o primeiro Halloween após o fim da guerra entre Luz e Trevas. Muitas vidas preciosas se perderam. Mas a Paz fora instaurada tanto aos que  ainda permaneciam na Terra quanto àqueles que partiram. E Michael Collins finalmente conseguiu a redenção que tanto buscava e que apenas lhe fora possível a Paz através da luz de Maeve.
Fim
Escrito em 2005. Remasterizado em 2010.

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