The Snake Stories

Série Contos de Snake - Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos

Esta é Amara Fernanda, leitora do Projeto Mãos Amigas, que visa a arrecadação de livros doados para montar bibliotecas populares na cidade de Pratinha, em Minas Gerais, que não possui nenhuma biblioteca pública ou escolar!

Essa linda iniciativa e trabalho são feitos por Sandra Alvarenga.

Na foto, Amara mostra dois dos vários livros que já enviei, sendo um deles o Tempo Paralelo, o primeiro lançamento da Série Snake Stories, no final de 2012 :D

Se tenho um sonho (e não simplesmente meta de necessidade a ser alcançada) é que os meus livros sejam lidos. E outro sonho é vê-los em bibliotecas, gratuitamente, para quem quiser pegar e ler.

Mas, como todos os sonhos, esses também são difíceis. O trabalho, então, que me propus a fazer, é de formiguinha, mas que espero conseguir realizar um montante!

Desde 2012 venho fazendo doações de alguns livros meus para algumas bibliotecas. Até agora foram muito poucos para poucas instituições, mas espero conseguir muito mais ao longo do tempo. A minha maior dificuldade nisso é a financeira, pois os livros impressos pelo Clube de Autores não saem baratos nem para os autores! E a falta de verba me impede de mandar imprimir em grande quantidade para poder doar às bibliotecas.

Portanto, o passo é de formiga, mas garanto que a vontade é de elefante!

Por isso, já se pode encontrar para empréstimo alguns livros, inclusive Tempo Paralelo, que já está disponível em bibliotecas :)

Se você mora perto ou tem acesso fácil a uma dessas bibliotecas, convido para emprestar e conhecer os livros... e faça uma autora feliz :D
Sei que ainda é muito pouco, mas garanto que, ao longo do tempo, mais bibliotecas serão presenteadas com exemplares de Asas Negras (e os demais livros), para que fique fácil o acesso a leitura deles! Conforme eu for fazendo as doações, virei aqui para divulgá-las.

E se, por acaso, você ler algum deles... venha comentar as suas impressões! Isso é algo que deixa um autor muito feliz \o/

Biblioteca:

Projeto Mãos Amigas
a/c Sandra Alvarenga
Pratinha - MG


A Amazon Kindle Store veio mesmo para ficar, para facilitar a vida tanto de quem busca por livros mais baratos quanto para quem quer publicar os seus próprios, sem passar pelo empata-foda de avaliações pelas editoras ou gastar uma grana alta mandando imprimir.

Com toda essa facilidade, é uma bobagem não aproveitar. Claro que todo escritor ainda quer ter seus livros impressos e vendidos nas livrarias, mas isso é uma realidade para poucos. Para quem não consegue chegar a essa realização, há os meios alternativos de auto-publicação, seja impresso, seja, como é agora, em formato digital.

Aproveitando essa oportunidade, estou colocando meus livros a venda na Amazon, sendo que todos da Série Snake Stories (Tempo Paralelo, Caleidoscópio e Romances em Fragmentos) já estão disponíveis ao valor de R$ 9, R$ 10 e R$ 6, respectivamente! Barato? Pois, então, ficou ainda mais barato! Não satisfeita em apenas disponibilizar os livros, estou destrinchando a coletânea Romances em Fragmentos e publicando individualmente cada conto! Assim, cada um sai ao simbólico valor de R$ 1,99! Preço da China! Mas os textos são em português :P

Teatro Mágico, Solstício, Samhain e Redenção são 4 contos presentes na Romances em Fragmentos, apenas para citar aqueles que fazem parte da Série Snake Stories :)

Se quiser conhecer e, talvez, adquirir um ou todos, basta clicar aqui :)

E boa leitura em seu dispositivo móvel o/

Agora todos os livros da Série Snake Stories podem ser adquiridos em formado digital kindle, pela Amazon.com, com preços entre R$ 9 e R$ 10 ;)


Enquanto tomava o café que me foi trazido por um dos serviçais de Hermes Trismegistus, fui digerindo juntamente meus pensamentos sobre tudo que estava acontecendo em minha vida até aquele momento. Tudo mesmo! Desde a minha entrada para o Exército Negro de Anthrax ao final do último ano, até aquele amor repentino que passei a sentir por Juliette. E pensei muito no que havia feito a ela na noite anterior. Pensei demais, até me sentir completamente amargo e não conseguir mais tomar sequer um gole do chá preto.

Eu havia me tornado um Soldado Escuro. Eu era um Bruxo de Estirpe e pertencia a uma das mais antigas e tradicionais famílias bruxas da Europa. Descendia de duas grandes famílias de passados gloriosos nas Trevas: Malakian e Temba. Era o mentor que arquitetava o assalto à Hermes Trismegistus e o assassinato de Casimiro Arcoverde. Havia o peso do mundo em minhas costas, que me imputava uma grandiosa responsabilidade. A última coisa, naquele momento, que eu deveria fazer é me apaixonar por alguém. E a última coisa que poderia fazer nesta vida era me apaixonar justamente por uma pessoa que representava exatamente aquilo que tinha de pior no mundo bruxo e deveria ser expurgado... uma Desperta!

Levei a mão ao peito, sobre a minha longa e fina cicatriz em diagonal. Aquilo só não estava pior porque eu fui bem tratado e recebi os cuidados e o carinho de Juliette. Não havia motivo para a Doutora Feyerie inventar uma mentira como aquela, e eu vira com meus próprios olhos que Juliette estava mesmo velando o meu sono, que se preocupava comigo. E vi dentro de seus olhos o quanto ela se condoeu com minha violência contra ela, com minhas ameaças e palavras malditas!

Pus a bandeja de lado sobre a cama e procurei por meu manto, encontrando-o sobre uma mesa de cabeceira. Não importava, naquele momento, se eu era um Soldado, se eu era um puro-sangue, se eu era um Malakian. Não me importava se eu tinha uma missão pérfida a cumprir. O que me importava era Juliette Willians. Era saber como ela estava, agradecer-lhe, pedir-lhe perdão pelo que fiz a ela! Ao menos uma vez, uma única vez... depois trancaria para sempre esse sentimento impossível e me entregaria de vez às Trevas. Por mais que a amasse e quisesse jogar tudo para o alto e fazer as minhas vontades, eu não podia... eu era um refém, um prisioneiro, um escravo e deveria obedecer ao meu destino!

Àquela hora, todos os outros alunos e professores estavam em salas de aula, e o castelo estava deserto, apenas encontrava um ou outro perdido pelo caminho. Talvez Juliette estivesse em aula, talvez estivesse na Torre Sul da Ígnea, mas meu coração me guiava por outras sendas, não crendo na lógica. Eu sentia que ela estava arrasada, em algum lugar e crendo que, embora ela fosse o meu oposto, ela poderia buscar abrigo nos mesmos refúgios que eu buscava, e procurei em todos os lugares que acreditava poder encontrá-la. Por fim fui ao Jardim de Inverno e parei estupefato, olhando cegamente o estrago que foi feito na briga contra Hanon. Ninguém se atreveu a arrumar aquela bagunça! Havia mancha de sangue no chão e na parede... meu sangue! Sai do torpor e procurei ainda por Juliette ali dentro. Não a encontrei. Um desânimo horrível se abateu sobre mim, sentindo que jamais conseguiria consertar o erro que cometi contra ela. Talvez fosse o melhor assim. Talvez não devesse jamais me abrir a ela. Talvez devesse deixá-la crer que eu a odiava.

Saí cansado, cabisbaixo. Necessitava de ar. Necessitava de luz. E fui pros jardins externos do Instituto. E caminhei por entre as plantas e arbustos bem cuidados, pelo gramado sempre verde, até chegar à Lagoa das Carpas. Tencionava passar o resto do dia ali, espairecendo, mas estanquei quando a encontrei encolhida contra as raízes e o grande tronco da antiga figueira que ali havia. Ela parecia um bichinho frágil e acuado e isso me atravessou o peito como fosse uma lança afiada feita de gelo. Ela estava arrasada, inconsolável e era minha culpa!

Eu tive receios em me aproximar dela. Não suportava a ideia de ver novamente aqueles olhos lindos cor-de-mel repletos de medo e decepção. Mas esta também era a minha única e última chance de me reconciliar com ela e viver um momento que também seria único para toda a minha vida. E fui até ela, o mais cauteloso e desarmado que consegui.

—Juliette... – Chamei-a da forma mais gentil que conseguia. Ela levantou assustada sua cabeça e me dirigiu aquele olhar que não queria mais ver nela, de medo e decepção. Sua respiração se alterou e vi seus olhos se tornarem rasos d’água. Ela começou a se levantar para sair dali, fugir de mim, mas joguei-me de joelhos diante dela, pra impedi-la. Não a deixaria sair dali sem que me explicasse.

—Por favor, não! (Estas palavras me soaram muito, mas muito estranhas mesmo e mais estranho ainda foi o tom melancólico com que as pronunciei!) —Eu... eu preciso falar com você, Juliette!

—Acho que você já falou por demais esta noite, Malakian! (Sua voz saiu embargada e não continha mais àquela doçura com que me falou nas últimas vezes.) —Eu já ouvi demais de você! Eu lhe juro que não tive nada a ver com o que Cayla lhe fez, mas se você não quer acreditar na verdade, não posso fazer nada pra isso!

Ela se ergueu e tentou fugir de mim, mas também me ergui e segurei-a pelo braço, não poderia perdê-la! Sentia que se ela fosse embora naquele momento, seria para sempre!

—Juliette, me perdoe!

Ela estancou o movimento e voltou seu rosto lívido para mim. Certamente, ela não acreditava no que ouvia.

—Não pretendo me defender. Sei que agi muito errado com você e isso é irremediável. Mas quero, pelo menos desta vez, buscar seu perdão! Não espero que compreenda e aceite o motivo de eu ter agido daquela forma com você, apenas quero, por um momento sequer...

Não consegui completar a frase. Sabia que aquilo era o início e o fim ao mesmo tempo. Aquilo deve ter caído sobre ela como um impacto. Eu mesmo não me reconhecia! Ela se apoiou no tronco da velha figueira e fitou-me por longos instantes, até falar-me em sua voz serena, mas também melancólica:

—Não entendo o que aconteceu comigo... desde que lhe vi.. em desespero.. no Jardim de Inverno, que... mas agora entendo que há uma muralha entre nós e nunca... nunca poderemos ultrapassá-la!

Eu a olhava dentro de seus olhos. Queria dizer que poderíamos, sim, ficarmos juntos, se quiséssemos, que o que importava era apenas nós dois e nossos sentimentos... mas não era isso, eu não possuía livre arbítrio, eu não era senhor de minha vontade. E fiquei calado. Não havia como negar sua afirmativa.

Mas eu queria, ao menos naquele momento, ceder aos caprichos do meu coração. E, por uma única vez em minha vida, deixar-me amá-la...

Passei os braços por ela, apoiando minhas mãos no tronco da figueira, prendendo-a entre eles. E me aproximei de seu rosto e a beijei, calmo e sem pressa. Ela estava tensa e não cedeu de imediato. Mas ela também queria aquilo e aceitou, se entregando enfim. A sensação daquele momento foi indescritível. Não era apenas um beijo, mas aquilo representava a minha vontade sobrepujando os grilhões que me prendiam à minha condição. E pela primeira vez me permiti um ato de carinho, de ternura. Eu queria aquilo para mim, para sempre! Senti as suas mãos suaves e vacilantes deslizaram por meu rosto até se enterrarem em meus cabelos. Puxei-a para junto de mim, envolvendo-a em meu abraço, aprofundando o beijo, até faltar-nos oxigênio, mas não queria me separar dela, sentia que se o fizesse ela evaporaria, tudo sumiria como fosse um sonho! Mantive-me abraçado a ela e mergulhei meu rosto em seus cabelos perfumados, sorvendo e me inebriando com aquele perfume floral, querendo que aquilo nunca mais se findasse... mas, como já havia dito, vivíamos em margens oposta de um abismo intransponível. Tentei ignorar, mas a dor queimando em meu braço esquerdo aumentava à medida que eu não lhe dava a devida atenção, até uma dor terrível se apoderar de mim e me fazer afastar abruptamente de Juliette, que ficou atônita me olhando sem entender o que acabava de acontecer.

Tentei disfarçar, mas a dor queimava demais. Era a tatuagem em meu braço! Aquele maldito miserável estava me convocando! Não podia permitir que Juliette visse aquilo, mas já era tarde demais. Impetuosa, ela avançou sobre mim, segurando com firmeza meu braço esquerdo, erguendo a manga do meu manto e deixando descoberta aquela marca horrenda! A região já estava muito vermelha, quase em carne viva. Ela me soltou e me olhou daquela forma que me machucou muito: decepção, incredulidade, torpor.

Ali havia sido nosso início e o nosso fim.

Segurei minha tatuagem, postei-me ereto e olhei-a com firmeza. Queria deixar claro que havia sido sincero, mas também deveria deixar claro que um romance entre nós era terminantemente impossível.

Essa dor foi a mais dolorosa que senti. Pois era a impossibilidade de eu realizar meus desejos que abria caminhos para todo o resto, inclusive ao de não seguir o Mestre das Trevas.

—Eu sou o que sou, Juliette, não há como mudar isso. O que sinto por você é verdadeiro, mas eu não tenho o direito de viver isso... Eu te amo, mas isto é proibido e é impossível dar continuidade...

Não pude dizer mais nada, não pude dizer tudo o que queria dizer a ela. Eu precisava atender ao Mestre. Eu era obrigado a obedecer ao meu destino. Saí dali o mais rápido que pude, deixando para trás a minha única chance de seguir o destino que queria. Foi o início, mas também foi o fim...

É o que pensei naquela época.

Escrito em Janeiro de 2006. Remasterizado em 2012.
Redenção é um conto presente na coletânea Romances em Fragmentos.


Eu já não sabia o que pensar a respeito de mim mesma. Não tinha sequer coragem de me avaliar para não concluir de que eu era uma grande idiota. É claro que Romero acharia que eu tinha culpa no que lhe aconteceu, como eu poderia desmentir isso, esclarecer?! Por que Cayla foi fazer isso?! Cayla estava irreconhecível. E eu também!

Agachei-me sobraçando fortemente minhas pernas, com o rosto baixado sobre os joelhos. Chorava descontroladamente desde que saí correndo da enfermaria. Pouco me importavam as ameaças de Romero. Achava até justo que ele reagisse daquela forma! Mas doía demais saber que ele estava convencido de que eu o havia delatado para Cayla, que eu havia armado aquela cilada! Doía demais saber que ele me odiava ainda mais!

Estava à beira da Lagoa das Carpas. Havia corrido para o Jardim de Inverno, mas ao ver os estragos do embate entre Romero e Cayla, ver o chão manchado de sangue... sangue de Romero! Não suportei a ideia de ficar ali e corri para os jardins externos do castelo. Estava escondida entre as grandes raízes sobresselentes de uma imensa figueira que ficava à margem da Lagoa. Ninguém ali me incomodaria até a hora do almoço, pelo menos. Eu era uma tola, uma patética! Uma sonhadora ridícula, imatura! Romero e eu éramos como água e óleo. O abismo que nos separava era intransponível. Eu poderia amá-lo, mas jamais teria esse sentimento retribuído. Agora muito menos ainda!
 
Continua...
 
Redenção é um conto presente na coletânea Romances em Fragmentos

Eu havia sido atingido por aquele feitiço de Magia Negra... quem diria, o fabuloso São Hanon conhecer e usar Magia Negra! Conhecer e USAR uma maldição que nem eu conhecia! Pois é. E gostaria de não ter conhecido desta forma, mas adoraria usá-la contra o maldito Hanon! Da dor aguda, lancinante, à treva total. Acordei um tempo depois, zonzo, com mal-estar. Tudo ainda estava negro, mas minha vista foi se acostumando à penumbra e só então pude entender que estava na enfermaria.

Pensei ter dormido apenas algumas longas horas. Só mais tarde me informaram que dormi por vários dias! Eu precisava dormir, estava esgotado, mas isso já era demais! Se pudesse, ficava outros tantos dias sem pregar os olhos, só pra compensar! O Mestre não devia estar gostando nada disso!

Com dificuldade, me ergui na cama sobre os cotovelos, tentando me pôr sentado. As costas doíam, mas meu peito doía ainda mais. Passei a mão por baixo da blusa e senti uma elevação esquisita sobre minha pele: comprida, em diagonal, que atravessava todo meu tórax, do ombro esquerdo até à costela direita. Aquilo era uma quelóide! Comecei a entrar em pânico e, trêmulo, passei a mão em meu rosto, mas, graças a Hermes, não havia marcas aparentes, pelo menos não ao toque.

Maldito Cayla Hanon, eu vou matá-lo! – Jurei a mim mesmo...

Foi quando algo se mexeu e atraiu meu olhar para uma poltrona próxima à cama aonde eu estava. Vi um amontoado de pano a princípio, até fixar melhor a minha visão. Por sobre o encosto da poltrona, havia cabelos lustrosos espalhados, algumas mechas caiam por sobre o rosto e ombro da garota e só então notei que se tratava de Juliette Willians. Que diabos ela fazia ali?! Devia estar me vigiando para o seu amado São Hanon!

O ódio queimou dentro do meu peito, fazendo a cicatriz arder. Aquela maldita bastarda havia traído a confiança que depositei nela! Ela me entregou para aquele amaldiçoado do Hanon!

Tentei levantar de súbito da cama, queria avançar e estrangular aquela garota maldita, mas meu corpo estava fraco e sem reflexo por causa dos vários dias dormindo. Acabei caindo e fazendo tanto barulho que se podia fazer num ambiente como aquele em plena madrugada. Juliette acordou assustada com o baque seco e saltou da poltrona em minha direção.

—Romero! O que pensa que está fazendo?! Você está ferido, doente, não pode sair levantando assim de qualq...

Não deixei ela terminar de falar. Ela tentava me abraçar para me tirar do chão. A proximidade dela me causou repugnância e usei toda a minha força para empurrá-la para longe de mim. Ela caiu sentada e ficou na mesma posição me olhando atordoada. Usei mais alguma força que restava e, sozinho, me coloquei na cama, sentado. Aquilo me causou uma exaustão terrível e o ódio que sentia por ela me deixava ainda pior. Tentava ao mesmo tempo inspirar grandes quantidades de ar e amaldiçoá-la.

—Sua... maldita! ...Sangue... ruim.. miserável!

Ela se levantou assustada, e veio até a mim. Ela parecia muito preocupada, tanto que sequer me ouviu praguejar. Ela tentava me tocar, me fazer deitar ou sei lá o quê. Estava tão fora de mim, cego pelo ódio, que não dei a mínima para a sua aflição.

—Romero, acalme-se, você pode piorar com isso! Irei chamar a Doutora Feyerie! Você esteve muito temp...

Novamente, não deixei ela terminar. Não sei de onde tirei aquela força, mas agarrei-a pelos cabelos na altura da sua nuca, como se fosse arrancá-los e a fiz ajoelhar-se pela dor. A nossa sorte – minha, principalmente - é que eu não estava com meu Bastão Magístico em mãos, senão a teria matado ali mesmo!

—O que Hanon me fez é culpa sua, bastarda! Você não passa de uma dissimulada, uma cadela falsa e vai morrer como uma! Eu vou matar você e o seu amiguinho Hanon, tenha certeza!

Joguei-a novamente ao chão. Era mesmo uma sorte não ter ali meu Bastão e nem mais força suficiente para qualquer coisa. Ela estava chorando, chorando muito, mas eu burro, cego, imbecil, não entendi que ela chorava por mim! Achei que ela chorava pela dor que a causei.

—Não, Romero! Eu não fiz isso! Jamais falei qualquer coisa pra Cayla! Eu não sei como ele o descobriu no jardim, ele...

—CALE A BOCA, SUA DESGRAÇADA! VOCÊ E HANON VÃO PAGAR MUITO CARO POR ISSO!

Ela não conseguiu responder mais nada. Até hoje, sinto uma compressão dolorosa no coração pela lembrança daquele olhar de mágoa e desilusão. Ela se levantou aos tropeços e saiu dali correndo. Minha respiração estava alterada, o coração pulsava tão forte que me doía as costelas. Levei a mão ao peito, baixando a cabeça, então vi o lençol que estava embolado sobre mim se manchar pelas minhas lágrimas que caiam sem eu perceber. Porém, não fiquei muito tempo sozinho. Logo ouvi passos rápidos vindos em minha direção e uma pessoa de vestes brancas surgiu a minha frente: era Doutora Feyerie - e parecia irritada!

—Sr. Malakian! O que aconteceu afinal?! A Srta. Willians saiu às pressas da enfermaria e parecia que estava chorando!

Enquanto ela me fazia as perguntas, também me examinava. Sequer se preocupou se eu daria as respostas ou não, e me trouxe logo uma poção medicinal com gosto de lodo para tomar.

—Por Cipriano, Sr Malakian! Esteve muito doente por vários dias e quando acorda já fica alterado desta forma?! Se continuar assim, terá de ser internado em St. Germain! Vamos, tome isto e durma!

Dormir? Eu não queria dormir! Queria encontrar Willians e terminar o que comecei! Mas a Curandeira me obrigou a tomar aquela poção horrível e cai instantaneamente em sono profundo.

Acordei na manhã seguinte e já não havia mais o mal-estar de antes. Estava muito calmo e descansado, como se tivesse tido um sono muito reconfortante. Então, pela primeira vez, notei como era diferente e luminosa uma manhã ensolarada. Por viver na Torre Norte, que ficava contra a montanha de granito, nunca acordei sob a luz natural do dia. Levantei-me e sentei na cama. Fui, aos poucos, revivendo tudo que tinha acontecido até então.

E senti uma tristeza profunda, uma dor amarga quando me lembrei do ocorrido com Juliette, na madrugada.

Eu deveria odiá-la. Mas onde estava todo aquele ódio? Apenas sentia uma amargura estranha, como nunca havia sentido.

—Sr. Malakian, que bom que acordou! Sente-se bem? – Me perguntava uma alegre Doutora Feyerie, que me surpreendeu.

Fiquei observando, estranhando a Curandeira, até que me dei conta que ela esperava por uma resposta.

—Eu... eu me sinto bem melhor, mais disposto.. e não sinto tanta dor.

—Huuum, isso é bom. O senhor sabe o que lhe aconteceu?

—Só sei que foi Hanon quem me atacou. O que aconteceu mesmo eu não sei.

—Então converse mais tarde com o Patrono de sua Casta, Sr. Malakian... e beba isto.

Era mais uma poção horrível, desta vez com gosto de lesmas! Quando terminei de beber e esperar para ver se ela não voltava do meu estômago, Doutora Feyerie voltou à pergunta da noite anterior:

—O que aconteceu esta noite, Sr. Malakian? O que você fez a Srta. Willians, pra ela sair daqui daquela forma?

A raiva voltou ao meu peito, queimando. Olhei de forma fatal praquela Curandeira intrometida, mas não surtiu qualquer efeito. Ela não se intimidou e continuou a esperar pela resposta.

—Aquela.. Ígneana... (conti meus impulsos, claro!)... ela e Hanon armaram pra cima de mim e estava aqui me vigiando pra ele!

A Curandeira me olhou com desaprovação e meneou a cabeça em negativa.

—A Srta. Willians esteve todo o tempo aqui na enfermaria ao seu lado, Sr. Malakian. Até mesmo me ajudou no preparo de poções e no cuidado de seus ferimentos. Passou noites inteiras aqui zelando seu sono, me auxiliando...

Meu peito gelou por dentro. Meu coração parou. Mas, decerto, talvez fosse apenas remorso, talvez ela não tivesse previsto o estrago que foi feito.

—Mandarei que serviçais tragam seu café da manhã até aqui. O senhor precisa de muitas proteínas e carboidratos para repor o que perdeu em sua convalescença.

—Espere um pouco! – Chamei a Curandeira, quase gritando, e o olhar que ela me dirigiu me deu arrepios! Mas prossegui assim mesmo: —Como a senhora pode permitir que uma simples aluna lhe ajudasse com um doente? Ela poderia ter piorado a minha situação!

A velha Curandeira não gostou nem um pouco do que eu disse e no tom que eu falei, mas sentiu prazer em me responder, decerto achando que aquilo me humilharia! Na verdade, o que ela me disse me despertou um ódio ainda maior, só que desta vez por mim mesmo. É uma pena que arrependimento não mata!

—Talvez o senhor ignore isso, mas a Srta. Willians não é uma aluna qualquer. A ajuda dela foi muito gratificante, feita com muita boa vontade e dedicação. Se outras pessoas fizessem por seus entes queridos que adoecem o que ela fez pelo senhor, não haveria tantas pessoas nos hospitais. Como médica, posso tratar suas feridas e dar-lhe remédios, mas apenas a dedicação e carinho de alguém que ama pode curar muito antes do previsto. Se não fosse pela Srta. Willians, Sr. Malakian, o senhor ainda estava em estado de choque!

Doutora Feyerie não ficou para ouvir alguma resposta ou ver minha reação. Girou em seus calcanhares e me deixou ali, naquele leito, estupefato, transtornado, confuso. Minha parte trevosa me dizia que aquilo era só balela, mas havia outra voz que me gritava de que aquilo era mesmo real e estava acontecendo... de que Juliette só não tinha culpa alguma com o que me aconteceu como também... me amava! Cai deitado na cama e levei a mão a minha testa em desespero.
 
Continua...
 
Redenção é um conto presente na coletânea Romances em Fragmentos

Eu estava desesperada. Não conseguia acreditar no que Cayla dizia. Isso era uma brincadeira, tinha que ser brincadeira!

—Cayla, não acredito no que está me dizendo... que magia é essa afinal?! Jamais ouvi falar disso e você diz que quase matou Romero com isso!

—E-eu.. eu vi isso escrito no Capa Preta! Não havia nenhum detalhe, apenas dizia que era pra ser usado para encerrar um combate! Eu não queria que isso tivesse acontecido! Eu não queria...

—NÃO QUERIA, MAS FEZ! COMO PÔDE CAYLA?!

Eu estava descontrolada. Só me lembro dos olhares aflitos e incrédulos de Cayla e Boré, mas não sei se eles chegaram a perceber que o meu desespero era por Romero, por achar que ele estava morrendo.

—Eu sempre lhe disse, Cayla, para se livrar desse maldito livro! Você acha que ele tem sido seu amigo, que tem lhe ajudado, mas veja só o que ele lhe obrigou a fazer!

—CHAGA JULLY! JÁ FALEI QUE NÃO TINHA INTENÇÃO DE FAZER ISSO! EU NÃO QUERIA MACHUCAR O MALAKIAN!

—Se não tinha intenção, jamais deveria ter usado algo contra ele que você não conhece! Eu estou extremamente decepcionada com você, Cayla! Eu estou sempre tentando abrir seus olhos para as coisas e você sempre tem me ignorando! E veja só agora, você quase matou uma pessoa! Os olhos violetas de Cayla estavam estatelados e Boré boquiaberto, mas não consegui esperar para ouvir ou ver qualquer reação a mais deles. Sai correndo daquela sala. Não suportava mais segurar minhas lágrimas e necessitava urgentemente ver Romero, precisa ver como ele estava! Para mim, naquele momento, que fosse ao inferno o que poderiam pensar sobre isso! O que eu queria era apenas ver e estar com Romero!

Continua....

Redenção é um conto presente na coletânea Romances em Fragmentos

A pressão sobre mim estava aumentando. Estava cada vez mais insuportável dormir. Não podia desobedecer as ordens e tinha que me virar como podia para atender ao chamado do Mestre das Trevas. Ele me pressionava quanto às ações. Me pressionava para agir rápido. Aquele maldito mestiço queria o quanto antes ter seus Soldados dentro de Hermes Trismegistus e Arcoverde morto! Eu já começava a acreditar que Anthrax não era lá muito inteligente. Era muito bom em torturas e ameaças, mas não em raciocínio. Ele queria que EU matasse Arcoverde! O maior bruxo do nosso tempo! Que venceu e matou Rasputin! Que mataria o Mestre se tivesse oportunidade! O que o fazia achar que eu poderia matá-lo?!

Eu estava sendo obrigado a bolar planos, estratégias. Tinha que lidar com o mais baixo nível do mundo bruxo. Estava sozinho, embora estivesse sempre em meus calcanhares os mesmos paga-paus de sempre. Mas eles e nada eram a mesma coisa! Como se não fosse sufocante o suficiente viver nessa maldita situação, ser obrigado a agir como não queria e ouvir constantemente ameaças de morte a mim e aos meus pais, ainda havia um inconveniente que me perturbava muito mais: Juliette Willians!

Eu juro pelo Deus Hermes que fiz de tudo para não pensar mais nela, para não sentir por ela o que estava sentindo! Pensei até em matá-la, talvez assim ela saísse de meus pensamentos! Mas a idéia por si só era tão repugnante, absurda e covarde, que preferi continuar acalentando aqueles sentimentos que, de certa forma, me traziam algum conforto, principalmente nos momentos em que me sentia mais sozinho e perdido.

Eu queria muito estar com ela, poder ouvir dela qualquer coisa, desde que ditas com toda aquela doçura a que me falou nas últimas vezes que nos encontramos. Porém, entre nós havia um abismo que seria sempre intransponível, e mesmo que o mais improvável acontecesse, tudo que faria era pôr a vida dela em risco... Eu não podia correr o risco de ter mais alguém que eu amo sendo ameaçado de morte. Amo?! É. Contra tudo e contra todos, eu estava apaixonado por ela!

No entanto, naquele momento, eu tinha que me contentar em me esconder no Jardim de Inverno e desabafar minhas mágoas para aquele Espírito que, ironicamente, se mostrou muito mais sensível e compreensivo que a grande maioria das pessoas vivas que eu conhecia! Mas sequer ficar angustiado em paz eu podia! Do nada, aquele infeliz do Cayla Hanon apareceu no jardim, me ameaçando!

Quando o vi entrar, a primeira coisa que pensei foi que Juliette havia contado sobre o que viu de mim, aqui. Um ódio horrível me corroeu por dentro e puxei meu Bastão contra Cayla. Maldita bastarda! Como pude acreditar nela? Como pude confiar que ela guardaria segredo sobre o que viu?! Amaldiçoado seja eu, que me iludi feito um imbecil, crendo no absurdo de que poderíamos ter algo a ver um com o outro!

Instintivamente, lancei contra Hanon um feitiço qualquer. Quem ele era pra estar ali invadindo minha privacidade?! Nos embatemos por alguns minutos e acabamos por terminar de destruir o jardim assombrado. Meus feitiços não conseguiam atingi-lo e, febril de ódio, tentei usar uma maldição contra ele, mas o canalha foi mais rápido! Antes que eu terminasse de conjurar a tortura, ele me lançou algo de volta que me causou uma dor terrivelmente aguda, me lançando contra a parede do fundo. Senti como se sombras me envolvessem e percebi que as trevas estavam me devorando. Hanon usou Magia Negra! Perdi a consciência quando bati no chão frio e encharcado. Depois disso, não sei mais o que aconteceu ou o que me atingiu. Acordei muitos dias depois na enfermaria de Hermes Trismegistus.
 
Continua...
 
Redenção é um conto presente na coletânea Romances em Fragmentos

Meus dias não passaram melhores depois daquele incidente com Romero. Não sabia o que pensar dele, o que pensar da situação. Talvez fosse esse meu erro: pensar demais! Talvez fosse hora de buscar parâmetros por outras formas, como a ouvir meus sentimentos. Mesmo a contra-gosto, foi o que fiz, e me surpreendi com o que encontrei em meu coração: queria estar com Romero Malakian, queria ouvi-lo, auxiliá-lo! Creio ter me encantado por ele no momento em que o descobri um ser humano, passivo de dores e sentimentos, confuso, atordoado, lutando contra as mesmas forças impostas a que eu também lutava: a segregação dos bruxos legítimos. Isso não devia apenas machucar e desafiar pessoas como eu. Devia ser ainda mais opressor para aqueles que estavam daquele lado das regras.
Mas, desde aquele domingo, não me encontrei mais com Malakian, mesmo planejando isso. Ele parecia que andava escondido em outros lugares, fora dos horários de aulas e refeições. Tentei notá-lo durante esses períodos, mas nada parecia ter mudado. Ele estava sempre como o mesmo garoto mimado e soberbo que sempre fora. Definitivamente, eu era uma tola patética! Por que nutria essa esperança absurda de que ele pudesse sentir a mesma vontade de querer estar comigo?! Isso era tão estúpido e irracional! Era ingenuidade de menininha!
Nesse tempo, andei notando o quanto Cayla estava cada vez mais estranho e mais obcecado por Malakian. Isso sem contar que ele não se desgrudava daquele livro esquisito, a que chamava de Capa Preta. Ridículo! Cayla havia posto na cabeça que Malakian havia se tornado um Soldado Escuro. Era absurdo, sempre lhe dizia, mas ele, de praxe, não me ouvia. Não era porque o pai era um Soldado que Romero se tornaria um. Casimiro Arcoverde saberia se acontecesse, e Hardock Lobo, primeiramente, óbvio! Isso sem contar que Anthrax não permitiria estar no Exército Negro um garoto inexperiente, ainda em idade escolar. Mas Cayla tinha a mais absoluta certeza que sim!
E foi quando aconteceu uma quase tragédia.
 Não sei como, mas Cayla descobriu Romero dentro do Jardim de Inverno e por pouco ele não o matou, guiando-se por aquilo que aprendeu naquele maldito livro da Capa Preta!

Continua...

Redenção é um conto presente na coletânea Romances em Fragmentos

Quando ouvi aquilo, naquele tom que era um misto de doçura e aflição, eu senti que algo dentro de mim se quebrou. Ela havia me desarmado. E, pela primeira vez, eu a percebi como era, eu a olhei diretamente e vi que era alguém como eu, vivendo a mesma angústia, e percebi o quanto deveria ser opressor alguém como ela viver num meio a que não pertence por inteiro, a ter que lutar para se impor aos preconceitos, que eram muitos, mas muitos mesmo! E pensei que o Mundo Incônscio, de onde ela vinha, não devia ser mais fácil: afinal, ela era alguém que pertencia a dois mundos e a nenhum ao mesmo tempo. Então me perdi dentro daqueles olhos de cor tão incomum entre os bruxos de sangue-puro, castanhos de frisos dourados... Contive o impulso de esquecer todas as convenções que faziam parte de minha vida para conhecê-la ainda mais. Algo que me era terminantemente proibido, pois seria manchar a honra da minha família, que apenas o pensamento e o desejo de tal curiosidade já maculavam.
Afastei-me dela, embora quisesse o contrário. Não interessava a minha vontade, como meu pai sempre me instruía. O importante era manter as tradições, as raízes, os ideais. E eu não era ninguém para ir contra isso.
—São Hanon e o discípulo fiel Boré ficarão muito satisfeitos em saber que estive num jardim abandonado, tendo ataques de fúria feito uma mulherzinha com TPM! Corra e vá contar a eles, Willians! Hanon anda me perseguindo, tendo ideias idiotas ao meu respeito! Ele vai gostar de saber disso!
(Por que, quando estou perto dela, me descontrolo e falo tanta besteira?!)
—Não seja bobo, Malakian! Pelo que me toma, afinal?! Posso ser uma maldita Desperta como gosta de dizer, mas não sou nenhuma fútil e alcoviteira que se compraz com o infortúnio alheio!
(É, ela também deve achar que só falo besteiras...)
Eu a ofendi. Também me sentia ofendido com minhas palavras tão infantis. E me sentia envergonhado por dizê-las justamente à aprendiz mais inteligente de Hermes Trismegistus do nosso ano.
Fiquei em silêncio por instantes. Ela também. Pelas costas, sentia o quanto ela estava aborrecida com minhas palavras. Então, por que não fiquei contente com isso? E por que ela não ia embora logo, simplesmente? Por fim, olhei-a de esguelha por sobre o ombro. Uma conversa meio civilizada com uma bastarda não me tiraria pedaço.
—Por que estava aqui, Willians? Hoje é domingo. Deveria estar com seus amigos, deveria estar no seu salão comunal ou qualquer outro lugar mais agradável que esse jardim assombrado.
—Eu poderia lhe fazer a mesma pergunta, Malakian... mas... nós não temos nada a ver com a vida um do outro!
Sua voz ficou embargada ao fim da frase, e ela finalmente abriu a porta e saiu o mais rápido que pode. Era como se aquelas palavras finais a tivessem ferido... “nós não temos nada a ver com a vida um do outro...” E essas palavras pareciam também me machucar, pois a pressão que então senti no peito, comprimindo dolorosamente meu coração, era muito diferente do que sentia até entrar ali. Antes era apenas frustração e raiva... e agora, o que era?

Continua...
Redenção é um conto presente na coletânea Romances em Fragmentos

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